Mundo ficciónIniciar sesiónAna acreditava ter encontrado o homem da sua vida… até flagrá-lo na cama com a própria amiga. Devastada e presa a um financiamento que ainda a liga ao ex, ela decide cometer o único erro que jurou nunca cometer: uma noite impulsiva com um desconhecido. Mas o destino tem senso de humor cruel. Na segunda-feira, o homem que ela tentou esquecer surge diante dela como o novo diretor da empresa. Frio. Intocável. Poderoso. Alexander não mistura trabalho com prazer. Não repete mulheres. Não perde o controle. Exceto quando se trata dela.
Leer másAna
Quando o Uber parou diante do prédio, Ana permaneceu alguns segundos sentada, observando a fachada iluminada pelo reflexo amarelado dos postes da rua. O vidro da janela estava levemente embaçado pela diferença de temperatura, e ela traçou uma linha distraída com a ponta do dedo, como se aquele gesto pudesse adiar o que quer que estivesse esperando por ela do outro lado da porta.
Não havia motivo concreto para o aperto em seu peito.
Ainda assim, ele estava ali.
Denso. Persistente. Como uma mão invisível pressionando suas costelas por dentro.
Talvez fosse apenas ansiedade por voltar antes do previsto. Talvez culpa por suspeitar de alguém que amava. Ana sempre tivera essa tendência irritante de imaginar cenários trágicos antes que existissem. Autossabotagem, sua terapeuta costumava dizer.
Mas algo estava diferente naquela noite.
O ar parecia pesado demais.
Subiu até o apartamento com a pequena sacola pendendo do pulso. A lingerie vermelha estava cuidadosamente dobrada ali dentro, escolhida depois de quase uma hora indecisa diante do espelho da loja. Vermelho era a cor que Rodrigo dizia deixá-la irresistível. Ela queria lembrar a ele disso. Queria lembrar aos dois.
Seis meses morando juntos.
Seis meses desde que os beijos começaram a ficar mais curtos. Desde que as mãos dele deixaram de procurá-la no meio da madrugada. Desde que o cansaço passou a ser o terceiro habitante da cama. Seis meses daquele homem que a procurava com intensidade havia sumido.
Ela se esforçara para reconquista-lo.
Cozinhara os pratos que ele gostava. Fingira não notar a distância nos olhos dele. Repetira a si mesma que todo relacionamento atravessa fases. E que aquela fase seria passageira, o trabalho dele estava consumindo-o muito, ela precisava ser paciente.
Ou o seu maior medo... talvez o problema fosse ela. Talvez tivesse deixado de ser interessante. Desejável. Suficiente.
Abriu a porta devagar, tomando cuidado para que a chave não fizesse barulho.
Queria surpreendê-lo.
Foi então que ouviu.
Primeiro, uma risada abafada.
O coração de Ana reconheceu antes da mente.
Era a risada dele — aquela que costumava vibrar contra seu pescoço quando ele a abraçava por trás na cozinha.
Ela ficou parada no corredor, o corpo inteiro em alerta.
Talvez fosse a televisão.
Mas então veio outro som.
Um gemido baixo. Feminino.
O mundo não desabou de uma vez. Partiu-se em silêncio.
Caminhou até o quarto como se os pés não tocassem o chão. Cada passo parecia distante, amortecido, como se estivesse submersa em água.
O cheiro foi a primeira confirmação real.
Doce. Enjoativo. Familiar.
Ela mesma escolhera aquele perfume meses antes, no aniversário da amiga. Lembrava de ter dito que combinava com a personalidade dela — leve, marcante.
A porta estava entreaberta.
E Ana viu.
Rodrigo sobre a amiga dela, os corpos se movendo em um ritmo íntimo demais para ser confundido com qualquer outra coisa.
A pele dele brilhava sob a luz quente do abajur. As mãos dela estavam cravadas nas costas dele como se o conhecesse profundamente.
Ela era sua amiga. Não era?
Era.
Ou dizia ser.
Algo se quebrou dentro de Ana, não em pedaços pequenos como diziam acontecer, mas em uma rachadura profunda que ela ainda não saberia como consertar.
Sempre imaginara que gritaria se algo assim acontecesse. Que quebraria objetos, que o enfrentaria com violência. Mas o que veio foi pior.
Indiferença.
Um silêncio tão absoluto que ela conseguia ouvir a própria respiração, irregular e rasa. A boca tinha gosto metálico. As mãos estavam frias.
Eles a viram.
O susto atravessou os dois ao mesmo tempo.
— Eu posso explicar — ele disse.
— Não queríamos te magoar — a outra completou.
A cena seria quase cômica se não fosse tão trágica.
Dois corpos nus, entrelaçados, tentando construir justificativas inúteis, enquanto Ana ainda segurava a sacola vermelha que comprara para agradá-lo.
Onde estivera com a cabeça?
Olhou para os dois como se fossem personagens de uma história ruim da qual finalmente acordara. Todos os sinais estavam ali. Ela apenas escolhera confiar.
Doce ilusão.
— Não quero explicação. Só se vistam.
A própria voz soou baixa. Controlada. Estranha até para si.
Sua amiga se vestiu com uma rapidez surpreendente saindo do apartamento.
Sábia.
Muito sábia.
Rodrigo não demonstrou culpa. O que havia em seus olhos era irritação por ter sido interrompido. Vestiu-se devagar, acendeu um cigarro e soprou a fumaça para o lado, como se aquilo fosse apenas um inconveniente logístico.
— Não transforma isso em drama. A gente já não era mais um casal faz tempo… só você não percebeu.
Ele soprou a fumaça na direção dela, as palavras carregadas de desdém.
Foi naquele momento que algo realmente morreu.
Não o amor.
Mas a imagem que Ana tinha dele.
E talvez, também, a versão de si mesma que acreditava que amor era algo real.
O som da chave girando na fechadura pareceu mais pesado do que o habitual naquela tarde. O apartamento estava impregnado com o aroma reconfortante de alho e cebola fritando no azeite, um cheiro que, para Ana, sempre significou "casa", mas que hoje trazia um travo de melancolia. Antes mesmo de abandonar a bolsa sobre a poltrona da sala ou de tirar os sapatos que maltratavam seus pés após um dia longo de reuniões e estratégias para atrair investidores, ela seguiu o rastro do perfume até a cozinha.Lá estava Maria. A silhueta da mãe contra a luz suave do final de tarde que entrava pela janela da área de serviço era uma imagem de constância. Ela mexia o conteúdo da panela com uma concentração quase ritualística, aquela expressão específica que Ana conhecia bem: os olhos fixos no vapor, mas a mente a quilômetros de
Pov: AnaPassar mais um dia enfurnada em casa a deixaria louca.Ela não era o tipo de pessoa que fica lambendo as próprias feridas indefinidamente, se afundando numa vitimização que não leva a lugar nenhum. Havia chorado, havia sofrido, havia passado noites olhando para o teto sem conseguir desligar a cabeça — e havia entendido, com aquela clareza dolorosa que só o tempo oferece, que superaria aquilo. Não de uma hora para outra, não sem cicatrizes, mas superaria. Porque era assim que ela havia aprendido a existir no mundo: atravessando.A chuva caía em torrentes fortes contra a janela do escritório quando ela chegou, lavando os vidros com aquela insistência típica das tardes paulistanas que resolvem desabar sem aviso. Ela havia conversado pessoalmente com a gerente de RH pela manhã, que a recebeu com uma expressão contrariada, claramente desconfortável com a situação, mas que no fim não teve como negar o retorno. Ana sabia que Alexander entenderia o motivo quando soubesse — e uma part
Acordar naquele dia foi mais difícil do que no anterior, como se o corpo tivesse usado as poucas horas de sono não para descansar, mas para processar tudo que a mente havia tentado suprimir enquanto estava acordada, e o resultado disso era uma exaustão diferente.O corpo estava dolorido de um jeito específico, aquele tipo de dor que não vem de esforço físico, mas de tensão acumulada nos músculos por horas a fio, como se ela tivesse passado a noite inteira se preparando para um golpe que nunca chegou ou chegou cedo demais. A mente parecia estar em alerta mesmo sem ter motivo imediato, como um alarme que continua tocando muito depois do perigo ter passado.As memórias voltavam em fragmentos, não de forma ordenada, mas da maneira que os traumas costumam voltar — sem aviso, sem lógica, sem respeitar a tentativa de ignorá-las. O desespero por ar quando a garganta estava sendo apertada. A frieza do carpete sob as costas. O peso sobre ela. E a sensação mais cruel de todas, aquela de que o pr
Pov: Ana Após todos os procedimentos, Ana havia sido liberada. Hellen chegou próximo ao almoço, com aquele jeito de entrar em qualquer ambiente como se ele já lhe pertencesse. Trouxe café, trouxe a sacola com as roupas que Ana havia pedido, trouxe o sorriso que a amiga usava quando estava segurando muita coisa por dentro mas se recusava a mostrar. Alexander se ofereceu para levá-la para casa. — Não precisa — Ana respondeu, o sorriso saindo fraco. — Hellen me leva. Ela já conhece o caminho. Mas Alexander a olhou de um jeito que tornava difícil dizer não. Segurou a mão dela com cuidado, o polegar se movendo devagar sobre os nós dos dedos. — Me deixa cuidar de você. Ana percebeu que Hellen observava tudo com um brilho diferente nos olhos. O sorriso da amiga era discreto, mas estava lá. — Por mim, tudo bem ele te levar — disse Hellen, ajeitando a bolsa no ombro com uma naturalidade quase exagerada. — Eu precisava passar em um dos restaurantes aqui perto pra verificar uns documentos





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