Mundo de ficçãoIniciar sessãoGustavo quase não dormiu. Sempre que fechava os olhos, via a fotografia sobre a mesa.
O menino sorridente, o pai, a mulher desconhecida e a frase escrita no verso. "Você nunca conheceu toda a verdade sobre sua família." Às seis da manhã, desistiu de tentar dormir. Levantou-se em silêncio para não acordar Maytê, preparou café e ficou observando a cidade pela janela da cozinha, o nascer do sol costumava lhe trazer paz. Naquela manhã, trazia apenas perguntas. Quem havia deixado o envelope? Por que agora? E por que envolver Maytê? O celular vibrou, número desconhecido, seu coração acelerou. Atendeu imediatamente. — Alô? Silêncio. Apenas uma respiração baixa. Depois, a mesma voz masculina da noite anterior. Calma. Fria. Controlada. — Você ainda pode desistir. Gustavo apertou o telefone contra o ouvido. — Quem é você? A voz ignorou a pergunta. — Seu pai destruiu muitas vidas, está na hora de conhecer a conta que ficou para você pagar. A ligação foi encerrada. Gustavo permaneceu imóvel, sentindo o próprio coração bater cada vez mais rápido. Maytê apareceu na porta da cozinha, ainda sonolenta, usando uma camiseta larga dele. — Aconteceu alguma coisa? Ele respirou fundo, não esconderia mais nada, nunca mais. — Ele ligou de novo. Uma hora depois, os três estavam reunidos na sala da cobertura. Henrique caminhava de um lado para o outro. — A polícia precisa saber disso. Gustavo balançou a cabeça. — Saber o quê? Que um desconhecido me ligou? Sem número identificado? Sem ameaça direta? Henrique passou a mão pelos cabelos. — Pelo menos vai ficar registrado. Maytê permaneceu em silêncio durante toda a discussão. Até que perguntou: — E se essa pessoa quiser justamente que vocês procurem a polícia? — os dois homens olharam para ela, que continuou — Se alguém esperou mais de vinte anos para aparecer, provavelmente pensou em tudo. Henrique suspirou. — Infelizmente, ela tem razão. O apartamento ficou silencioso, a única certeza era que estavam lidando com alguém extremamente paciente e inteligente. Às dez horas da manhã, Gustavo decidiu fazer uma coisa que evitava havia anos, entrou na antiga biblioteca da cobertura. Era o único cômodo que permanecia praticamente igual desde a morte do pai, livros antigos, documentos, fotografias, caixas de arquivos. Poucas pessoas entravam ali. Ele caminhou lentamente até uma estante, pegou um álbum grosso de fotografias e sntou-se no chão, começando ua folhear. Infância, viagens, eventos da empresa, jantares, aniversários. Seu pai aparecia em quase todas, sempre sério, sempre impecável e no controle. Até que uma fotografia chamou sua atenção, era uma festa de fim de ano. Ele tinha aproximadamente nove anos, sua mãe estava sorrindo, seu pai conversava com algumas pessoas. Ao fundo, quase escondida entre os convidados, a mesma mulher da fotografia anônima. Gustavo prendeu a respiração. Ela realmente fazia parte da vida da família. Mas quem era? Virou a fotografia procurando alguma anotação, nada. Nenhum nome, nenhuma data além do ano. Maytê aproximou-se lentamente e sentou-se ao lado dele. — É ela? Ele apenas assentiu, analisando a imagem durante alguns segundos e depois apontou discretamente. — Tem alguém olhando para ela. Gustavo aproximou a fotografia dos olhos, um homem aparecia desfocado ao fundo, observando a mulher. Não era seu pai, nem alguém que ele reconhecesse. Henrique pegou a foto. — Dá para ampliar isso. Gustavo olhou para o amigo. — Você conhece alguém? Henrique sorriu. — Um perito digital que me deve alguns favores. Pela primeira vez desde que tudo começara, eles tinham uma pista. Pequena, mas real. Naquela tarde, Maytê voltou para a cafeteria. Tentou agir normalmente, atendeu clientes, preparou cafés, sorriu. Mas sua cabeça estava longe dali. Dona Célia percebeu imediatamente. — Problemas? Maytê sorriu sem convencer ninguém. — Um pouquinho. A senhora colocou uma xícara de chá diante dela. — Conta. Maytê resumiu toda a história: o envelope, as ligações, a fotografia. Dona Célia permaneceu em silêncio, depois segurou sua mão. — Confia nele? — Mais do que em qualquer pessoa. — Então caminhe ao lado dele, mas mantenha os olhos abertos. Maytê franziu a testa. — A senhora acha que ele corre perigo? Dona Célia olhou pela janela antes de responder. — Acho que quando segredos antigos resolvem aparecer, eles nunca vêm sozinhos. Já era noite quando Maytê fechou a cafeteria, despediu-se de Dona Célia e caminhou até o carro. O estacionamento estava praticamente vazio. Ela procurou as chaves na bolsa e foi então que percebeu, não estava sozinha. Sentiu alguém observando, virou-se rapidamente. Ninguém. Respirou aliviada. — Impressão minha... — nurmurou para si mesma. Entrou no carro, ligou o motor e antes de sair, algo branco preso sob o limpador do para-brisa chamou sua atenção. Era um envelope. Seu coração disparou e com as mãos trêmulas, abriu-o. Dentro havia apenas uma fotografia. Era dela, na porta da cafeteria, tirada naquele mesmo dia. No verso, uma única frase. "Agora você também faz parte da história." O sorriso desapareceu de seu rosto, ela olhou rapidamente ao redor do estacionamento, mas quem quer que tivesse deixado aquela mensagem já havia desaparecido.






