Mundo de ficçãoIniciar sessãoMaytê entrou na cobertura sem conseguir esconder o nervosismo, assim que Gustavo abriu a porta, percebeu que alguma coisa estava errada.
— O que aconteceu? Ela não respondeu, apenas estendeu o envelope e ele abriu imediatamente. Ao ver a fotografia, sentiu o sangue gelar. Era Maytê saindo da cafeteria, sorrindo para um cliente. Uma foto recente Virou-a, lendo a frase escrita no verso. "Agora você também faz parte da história." Durante alguns segundos, ninguém falou. O silêncio era pesado. Henrique, que também estava na sala, pegou a fotografia das mãos de Gustavo. — Isso foi tirado hoje. — Maytê assentiu lentamente. — Estava presa no para-brisa do meu carro. Gustavo respirou fundo e pela primeira vez em muito tempo, sentiu uma raiva antiga querendo voltar. A vontade de controlar tudo, de encontrar o responsável, de resolver aquilo sozinho. Mas fechou os olhos por um instante e respirou. Quando voltou a abri-los, sua voz permaneceu calma. — Você não vai mais sair sozinha. — Maytê cruzou os braços. — Gustavo... — Não é um pedido. — disse, e ela o encarou. — Não volte a fazer isso. — ele franziu a testa. — Isso o quê? — Decidir por mim. As palavras o atingiram como um golpe. Ele ficou em silêncio e ela respirou mais devagar. — Eu entendo que você está com medo, eu também estou. Mas nós prometemos que não haveria mais um mandando e o outro obedecendo. Henrique observava os dois sem dizer nada. Gustavo passou a mão pelo rosto, ela tinha razão, outra vez. — Desculpa. — disse baixo, sincero — Eu só... —parou por um instante — Tenho medo de perder você. Maytê aproximou-se, segurando sua mão. — Então me protege caminhando ao meu lado, não na minha frente. — pediu, e ele sorriu discretamente. — Fechado. × Na manhã seguinte, os três partiram em direção ao endereço encontrado dentro do envelope. Henrique dirigia, Maytê ocupava o banco do passageiro e Gustavo permanecia atrás, segurando a fotografia e o cartão. Quanto mais se afastavam da cidade, mais silenciosa a estrada ficava. Prédios deram lugar a árvores, asfalto virou estrada de terra, o GPS perdeu o sinal. — Que lugar é esse? — Maytê perguntou. Henrique olhou novamente para o mapa baixado no celular. — Segundo o registro... era uma fazenda. Abandonada há quase vinte anos. Gustavo levantou os olhos, vinte anos, a mesma época em que a fotografia fora tirada. Coincidência? Ele já não acreditava em coincidências. - Depois de quase duas horas de viagem, avistaram um velho portão de ferro enferrujado. Uma placa caída no chão ainda permitia ler parte do nome: Fazenda Santa Helena. O coração de Gustavo acelerou. Helena, o nome ficou ecoando em sua mente. Ele não sabia por quê, mas parecia importante. Desceram do carro, o vento fazia as árvores balançarem de forma inquietante. A casa principal era enorme e antiga, com janelas quebradas, a tinta descascada, como se ninguém morasse ali havia décadas. — Tem certeza de que quer entrar? — Henrique perguntou. Gustavo olhou para Maytê e ela apenas assentiu, estava assustada, mas não recuaria. — Vamos. Empurraram o portão, o ferro rangiu alto, o som pareceu atravessar toda a propriedade. Caminharam lentamente pela estrada de pedras, cada passo aumentava a sensação de que estavam sendo observados. Maytê olhou discretamente para trás. Ninguém. Mesmo assim, ela não conseguia afastar aquela sensação. - A porta da casa estava entreaberta, Henrique tirou uma pequena lanterna da mochila. — Isso está parecendo filme de terror. — Henrique disse e Maytê tentou sorrir. — Não fala isso. Entraram. O cheiro de mofo era forte, os móveis estavam cobertos por lençóis antigos, a poeira denunciava anos de abandono. Mas havia algo estranho, uma xícara de café sobre uma pequena mesa. Ainda morna. Gustavo aproximou os dedos. — Alguém esteve aqui há pouco tempo. Os três trocaram olhares, não estavam sozinhos. - Um barulho no andar de cima interrompeu o silêncio. Passos lentos, firmes. Henrique levantou a lanterna. — Tem alguém aí? Nenhuma resposta. Outro passo, madeira rangendo. Gustavo começou a subir a escada. — Espera! — Maytê sussurrou. Mas ele já havia dado os primeiros passos, o corredor do segundo andar era escuro. As portas permaneciam fechadas, exceto uma, no final do corredor. Entreaberta. A luz do sol atravessava a janela quebrada, Gustavo aproximou-se devagar e empurrou a porta, o quarto estava vazio ou quase. No centro do cômodo havia apenas uma cadeira de madeira e, sobre ela um gravador antigo com a luz vermelha acesa. Como se estivesse esperando por eles. Gustavo apertou o botão de reprodução, a fita começou a girar. Por alguns segundos, ouviu-se apenas um chiado. Então uma voz feminina encheu o quarto, suave, emocionada. — Se você está ouvindo esta gravação é porque finalmente resolveu descobrir quem eu sou... — Gustavo sentiu o corpo inteiro estremecer, a voz continuou — Meu nome é Helena e eu fui o maior segredo do seu pai.






