CAPÍTULO 2 - O ENDEREÇO

Maytê entrou na cobertura sem conseguir esconder o nervosismo, assim que Gustavo abriu a porta, percebeu que alguma coisa estava errada.

— O que aconteceu?

Ela não respondeu, apenas estendeu o envelope e ele abriu imediatamente.

Ao ver a fotografia, sentiu o sangue gelar. Era Maytê saindo da cafeteria, sorrindo para um cliente. Uma foto recente Virou-a, lendo a frase escrita no verso.

"Agora você também faz parte da história."

Durante alguns segundos, ninguém falou.

O silêncio era pesado.

Henrique, que também estava na sala, pegou a fotografia das mãos de Gustavo.

— Isso foi tirado hoje. — Maytê assentiu lentamente.

— Estava presa no para-brisa do meu carro.

Gustavo respirou fundo e pela primeira vez em muito tempo, sentiu uma raiva antiga querendo voltar. A vontade de controlar tudo, de encontrar o responsável, de resolver aquilo sozinho.

Mas fechou os olhos por um instante e respirou.

Quando voltou a abri-los, sua voz permaneceu calma.

— Você não vai mais sair sozinha. — Maytê cruzou os braços.

— Gustavo...

— Não é um pedido. — disse, e ela o encarou.

— Não volte a fazer isso. — ele franziu a testa.

— Isso o quê?

— Decidir por mim.

As palavras o atingiram como um golpe. Ele ficou em silêncio e ela respirou mais devagar.

— Eu entendo que você está com medo, eu também estou. Mas nós prometemos que não haveria mais um mandando e o outro obedecendo.

Henrique observava os dois sem dizer nada.

Gustavo passou a mão pelo rosto, ela tinha razão, outra vez.

— Desculpa. — disse baixo, sincero — Eu só... —parou por um instante — Tenho medo de perder você.

Maytê aproximou-se, segurando sua mão.

— Então me protege caminhando ao meu lado, não na minha frente. — pediu, e ele sorriu discretamente.

— Fechado.

×

Na manhã seguinte, os três partiram em direção ao endereço encontrado dentro do envelope.

Henrique dirigia, Maytê ocupava o banco do passageiro e Gustavo permanecia atrás, segurando a fotografia e o cartão.

Quanto mais se afastavam da cidade, mais silenciosa a estrada ficava.

Prédios deram lugar a árvores, asfalto virou estrada de terra, o GPS perdeu o sinal.

— Que lugar é esse? — Maytê perguntou.

Henrique olhou novamente para o mapa baixado no celular.

— Segundo o registro... era uma fazenda. Abandonada há quase vinte anos.

Gustavo levantou os olhos, vinte anos, a mesma época em que a fotografia fora tirada.

Coincidência? Ele já não acreditava em coincidências.

-

Depois de quase duas horas de viagem, avistaram um velho portão de ferro enferrujado.

Uma placa caída no chão ainda permitia ler parte do nome: Fazenda Santa Helena.

O coração de Gustavo acelerou.

Helena, o nome ficou ecoando em sua mente.

Ele não sabia por quê, mas parecia importante.

Desceram do carro, o vento fazia as árvores balançarem de forma inquietante.

A casa principal era enorme e antiga, com janelas quebradas, a tinta descascada, como se ninguém morasse ali havia décadas.

— Tem certeza de que quer entrar? — Henrique perguntou.

Gustavo olhou para Maytê e ela apenas assentiu, estava assustada, mas não recuaria.

— Vamos.

Empurraram o portão, o ferro rangiu alto, o som pareceu atravessar toda a propriedade.

Caminharam lentamente pela estrada de pedras, cada passo aumentava a sensação de que estavam sendo observados.

Maytê olhou discretamente para trás. Ninguém.

Mesmo assim, ela não conseguia afastar aquela sensação.

-

A porta da casa estava entreaberta, Henrique tirou uma pequena lanterna da mochila.

— Isso está parecendo filme de terror. — Henrique disse e Maytê tentou sorrir.

— Não fala isso.

Entraram.

O cheiro de mofo era forte, os móveis estavam cobertos por lençóis antigos, a poeira denunciava anos de abandono.

Mas havia algo estranho, uma xícara de café sobre uma pequena mesa. Ainda morna.

Gustavo aproximou os dedos.

— Alguém esteve aqui há pouco tempo.

Os três trocaram olhares, não estavam sozinhos.

-

Um barulho no andar de cima interrompeu o silêncio. Passos lentos, firmes.

Henrique levantou a lanterna.

— Tem alguém aí?

Nenhuma resposta. Outro passo, madeira rangendo.

Gustavo começou a subir a escada.

— Espera! — Maytê sussurrou.

Mas ele já havia dado os primeiros passos, o corredor do segundo andar era escuro.

As portas permaneciam fechadas, exceto uma, no final do corredor. Entreaberta.

A luz do sol atravessava a janela quebrada, Gustavo aproximou-se devagar e empurrou a porta, o quarto estava vazio ou quase.

No centro do cômodo havia apenas uma cadeira de madeira e, sobre ela um gravador antigo com a luz vermelha acesa. Como se estivesse esperando por eles.

Gustavo apertou o botão de reprodução, a fita começou a girar.

Por alguns segundos, ouviu-se apenas um chiado. Então uma voz feminina encheu o quarto, suave, emocionada.

— Se você está ouvindo esta gravação é porque finalmente resolveu descobrir quem eu sou... — Gustavo sentiu o corpo inteiro estremecer, a voz continuou — Meu nome é Helena e eu fui o maior segredo do seu pai.

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