LIVRO 2 — AS SOMBRAS DE FERRARESI
LIVRO 2 — AS SOMBRAS DE FERRARESI
Por: arianecfliborio
PRÓLOGO - UM NOME ESQUECIDO

SEIS MESES DEPOIS.

A chuva caía fina sobre a cidade quando Gustavo entrou em seu escritório, era tarde.

Os corredores do Grupo Ferraresi estavam praticamente vazios, ele largou a pasta sobre a mesa, afrouxou a gravata e caminhou até a janela. Aquela já não era mais sua rotina.

Agora, quase sempre, saía cedo para jantar com Maytê. Mas uma reunião inesperada o obrigara a ficar até mais tarde.

O celular vibrou, uma mensagem dela.

Não esquece do sorvete. 🍦❤️

Ele sorriu sozinho, respondendo imediatamente.

Nunca mais esqueço. Promessa.

Guardou o telefone no bolso e foi então que percebeu um envelope pardo sobre a mesa, não havia remetente, nem selo. Apenas seu nome escrito à mão. Gustavo Ferraresi.

Franziu a testa, não lembrava de tê-lo visto pela manhã.

Pegou o envelope, estava pesado. Abriu com cuidado e dentro havia uma única fotografia. Antiga. Amarelada pelo tempo.

Nela, um garoto de aproximadamente dez anos sorria ao lado de um homem e de uma mulher.

O garoto era Gustavo. O homem, seu pai. Mas a mulher não era sua mãe.

Seu coração parou por um segundo, virou a fotografia e no verso, havia apenas uma frase escrita com tinta azul.

"Você nunca conheceu toda a verdade sobre sua família."

O sorriso desapareceu de seu rosto.

Naquele instante, alguém bateu à porta.

— Pode entrar.

Henrique apareceu.

— Ainda está aqui? Pensei que já... — parou de falar ao notar a expressão do amigo — O que aconteceu?

Sem dizer uma palavra, Gustavo entregou a fotografia. Henrique observou por alguns segundos e depois franziu a testa.

— Quem é essa mulher?

— Eu não faço ideia.

Os dois permaneceram em silêncio, até que Henrique encontrou algo escondido dentro do envelope, um pequeno cartão dobrado.

Abriu lentamente, havia apenas um endereço e uma data, daqui a sete dias.

Gustavo sentiu um arrepio percorrer sua espinha.

— Isso só pode ser uma brincadeira.

Henrique continuou olhando para o cartão.

— Você acredita mesmo nisso?

Antes que Gustavo pudesse responder, seu celular tocou. Número desconhecido.

Ele atendeu.

— Alô?

Do outro lado da linha, ouviu apenas a respiração de alguém.

Então uma voz masculina, calma e firme, falou apenas uma frase:

— Se você ama Maytê... não vá sozinho.

A ligação caiu.

Gustavo permaneceu imóvel, o escritório ficou completamente silencioso. Lentamente, ele olhou novamente para a fotografia e pela primeira vez em muito tempo, sentiu o mesmo frio na barriga que experimentara quando tudo começou.

Só que, dessa vez, não era o amor que estava em risco. Era o passado.

E algumas verdades, quando finalmente aparecem, têm o poder de destruir tudo outra vez.

×

A fotografia não saía da cabeça de Gustavo, já passava da meia-noite.

Mesmo assim, ele continuava sentado no escritório da cobertura, observando a imagem espalhada sobre a mesa.

O garoto de dez anos sorria para a câmera.

Ao seu lado, estava Augusto Ferraresi. Seu pai.

O homem que transformara uma pequena empresa em um dos maiores grupos econômicos do país.

O homem que passara a vida inteira ensinando que sentimentos eram fraqueza.

O homem que morrera sem jamais pedir perdão por nada.

Mas a mulher, não era sua mãe. Gustavo tinha certeza. Virou novamente a fotografia, a frase continuava ali.

"Você nunca conheceu toda a verdade sobre sua família."

Sentiu um arrepio percorrer sua espinha, a ligação anônima ainda ecoava em sua mente.

"Se você ama Maytê... não vá sozinho."

Quem sabia sobre Maytê? Quem conhecia sua rotina? E, principalmente, quem estava observando sua vida?

O celular vibrou, Henrique.

— Você conseguiu dormir?

Gustavo soltou uma risada sem humor.

— Você sabia a resposta antes de perguntar.

— Imaginei.

Do outro lado da linha, Henrique permaneceu alguns segundos em silêncio. Depois falou:

— Amanhã eu vou com você.

— Nem sabemos para onde esse endereço leva.

— Justamente por isso.

Gustavo olhou mais uma vez para o cartão encontrado no envelope, um endereço e uma data. Apenas isso, nenhuma explicação, nenhuma assinatura.

— Pode ser uma armadilha.

— Pode.

— Pode ser alguém querendo dinheiro.

— Também pode.

Henrique respirou fundo.

— Mas, se existe uma chance de isso estar ligado ao seu pai... você nunca vai conseguir ignorar.

Gustavo fechou os olhos, Henrique tinha razão.

Ele precisava descobrir a verdade, mesmo que ela doesse.

Na manhã seguinte, Maytê acordou antes do despertador. Estendeu a mão para o outro lado da cama, vazio.

Sorriu.

Sabia exatamente onde encontraria Gustavo, desceu até a cozinha.

Ele estava diante do fogão, usando um avental preto e completamente concentrado em virar uma panqueca.

A primeira caiu torta, a segunda também, a terceira finalmente deu certo.

Maytê encostou na porta, cruzando os braços.

— Acho que estamos evoluindo.

Gustavo virou-se assustado.

— Você está aí há quanto tempo?

— O suficiente para descobrir que a quarta panqueca vai queimar.

Os dois olharam para a frigideira ao mesmo tempo, cheiro de queimado.

Ele desligou o fogo rapidamente e ela caiu na gargalhada.

— Ainda bem que você administra empresas melhor do que administra um café da manhã.

Ele riu junto e aquele som ainda era uma das coisas favoritas de Maytê, ela aproximou-se e roubou um beijo rápido.

— Bom dia.

— Bom dia.

Por um instante, Gustavo esqueceu completamente o envelope. Esqueceu a fotografia, a ligação, existia apenas ela. Mas bastou o celular vibrar sobre a bancada para a realidade voltar. Henrique.

"Nove horas. Não vá sozinho."

Maytê percebeu a mudança imediata na expressão dele.

— Aconteceu alguma coisa?

Gustavo guardou o telefone no bolso.

Por alguns segundos, pensou em mentir, depois lembrou da promessa que fizera meses atrás.

Chega de segredos.

— Ontem deixaram um envelope no meu escritório. — ela franziu a testa.

— Que envelope?

Ele contou tudo: a fotografia, a mensagem, a ligação. Sem esconder absolutamente nada.

Quando terminou, Maytê permanecia em silêncio.

— Então alguém está mexendo com a sua família?

— Acho que sim.

Ela respirou fundo.

— E você pretende ir até esse endereço.

Não era uma pergunta. Ele assentiu.

— Sim.

— Com Henrique?

— Sim.

Ela caminhou até a janela da cozinha, ficou alguns segundos olhando a cidade e depois virou-se novamente.

— Eu vou com vocês.

Gustavo balançou a cabeça imediatamente.

— Não.

— Gustavo...

— Não vou colocar você em risco.

Ela aproximou-se, segurando suas mãos.

— Escuta. — sua voz era calma — Nós prometemos enfrentar tudo juntos.

Ele fechou os olhos, era exatamente isso que a ligação dizia para não fazer. Levá-la.

O medo apertou seu peito.

— Eu não conseguiria me perdoar se acontecesse alguma coisa com você.

Maytê acariciou seu rosto.

— E eu não conseguiria ficar em casa imaginando você correndo perigo sozinho.

Os dois permaneceram em silêncio, até que a campainha tocou.

Henrique entrou sem cerimônia, como sempre.

Olhou para os dois e depois para a expressão preocupada de Gustavo.

— Ela já sabe?

— Sei.

Henrique suspirou.

— Imaginei.

Maytê cruzou os braços.

— Quando vamos?

Henrique e Gustavo trocaram um olhar, os dois pensavam a mesma coisa. Protegê-la.

Mas também sabiam que Maytê dificilmente aceitaria ficar para trás.

Henrique colocou o endereço sobre a mesa.

— Amanhã, às dez horas. Fica a quase duas horas daqui, é uma antiga fazenda abandonada.

Gustavo olhou novamente para o cartão, sentia que sua vida estava prestes a mudar outra vez.

Só não imaginava que aquele endereço escondia muito mais do que um segredo de família.

Escondia alguém que esperava por ele havia mais de vinte anos e essa pessoa sabia exatamente quem era Maytê, muito antes de Gustavo imaginá-la entrando em sua vida.

O jogo havia começado e, desta vez, o passado seria muito mais perigoso do que qualquer inimigo do presente.

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