Mundo ficciónIniciar sesiónKieron Bennett é apenas um jovem de vinte anos tentando sobreviver à rotina solitária de um necrotério — até que descobre um dom sombrio: ele consegue conversar com os mortos. Mais do que vozes, eles trazem segredos, mágoas e pedidos não realizados. Mas tudo muda quando chega o corpo de uma adolescente sem nome, sem lembranças e sem paz. Diferente dos outros, ela não sabe quem é nem por que morreu. Cabe a Kieron remontar os passos que a trouxeram até ali — e, no processo, encarar verdades que podem mudar não só o destino dela, mas o dele também. Uma história sombria e comovente sobre ecos do passado, segredos enterrados e a tênue linha entre a vida e o que vem depois.
Leer másKiera não dormiu naquela noite.Desde que abrira o Livro Vivo, sua mente fervilhava com imagens que não vinham de sua própria memória — vultos de cidades que nunca existiram, nomes que ecoavam como tambores dentro do crânio, e uma risada, baixa e contínua, como se alguém estivesse ali, atrás dela, sempre.Kieron percebeu a mudança. Ela estava mais pálida, mais tensa. Seus olhos se moviam como se vissem uma paisagem paralela.— Kiera, você leu mais do que deveria? — ele perguntou, ao encontrá-la sentada no chão da biblioteca, o livro fechado ao seu lado.— Não li… o suficiente. — Ela sussurrou. — Mas uma coisa leu a mim.Havia uma pausa no tempo depois daquelas palavras. Um ranger imperceptível no ar. E então a respiração do lugar mudou.---Na manhã seguinte, quando os membros da Ordem se reuniram, o chão do salão principal estava coberto de símbolos. Marcas em espiral, linhas finas como costuras feitas a fogo. O Livro Vivo agora flutuava, girando lentamente sobre o altar.E no centro
O mundo parecia em paz. Pela primeira vez em meses, não havia espelhos sussurrando nomes. As cidades não tremiam com a aproximação de realidades paralelas. O céu era apenas céu.Mas Kieron sabia: toda cura deixa marcas. E algumas, mesmo invisíveis, ainda doem.---Na sede da Ordem da Lembrança, os corredores estavam mais silenciosos do que o habitual. Os iniciados ainda se acostumavam com o novo equilíbrio. Muitos haviam perdido partes de si no Véu Invertido. Alguns não se lembravam mais do próprio nome. Outros, agora sonhavam com vidas que não eram suas.E havia os que sonhavam com Kiera.— Ela aparece em quase todos os relatos oníricos — disse Ezra, empilhando pergaminhos. — Como uma menina vestida de branco, segurando um livro em branco.Kieron olhou para a janela. Lá fora, Kiera brincava sozinha, fazendo desenhos no chão com carvão.— Ela não é mais só minha filha — disse ele. — Ela é a guardiã de todas as possibilidades.— Isso é um peso — murmurou Evelyn, entrando na sala.Kiero
No décimo dia após o nascimento do selo de Kiera, o mundo perdeu o céu.Não que ele tenha desaparecido. Ainda havia estrelas e nuvens. Mas agora, ao erguer os olhos, era possível ver cidades refletidas, girando sobre si mesmas. Edifícios flutuantes, luzes piscando no vazio, ruas paralelas às do mundo físico. Uma sobreposição.Era como se um espelho imenso e invisível tivesse se curvado sobre a Terra.— O Véu não apenas afinou — disse Ezra, observando com binóculos espirituais. — Ele se inverteu. E o reflexo… agora nos observa.Kieron se manteve em silêncio. Estavam sobre o telhado da sede da Ordem da Lembrança. Ao seu lado, Evelyn e Lia também olhavam o céu que já não era céu. Kiera dormia em um cômodo protegido por runas de contenção.Na mão de Kieron, o colar de Evelyn tremia. Vibrava como um sino ancestral.— Alguém está tentando atravessar — disse ele.— Do outro lado? — perguntou Lia.Kieron assentiu.— Mas não de uma cidade. De algo maior.---O primeiro caso ocorreu em Lisboa.
Era noite quando o primeiro Espelho-Fenda explodiu.Não por impacto, nem por vandalismo — mas por sobrecarga. O vidro não aguentou conter tantas versões alternativas, tantas possibilidades em colisão. Ele estilhaçou-se em silêncio, e das lascas surgiram vozes. Ecos de vidas não vividas. Gritos de existências abortadas. O mundo estava se partindo de dentro.Na sede da Ordem da Lembrança, o alerta foi imediato.— Porto 7, distrito de Salvador — disse Ezra, ofegante. — O espelho explodiu, e duas entidades escaparam. Uma criança e… algo maior.Kieron ergueu o olhar do manuscrito que escrevia. — O que significa maior?Ezra hesitou.— Um possível você.---O local da explosão era um casarão abandonado no Centro Histórico. A área fora isolada, mas as pessoas ao redor relatavam pesadelos em massa, perdas de memória e, em alguns casos, acessos de fala em idiomas mortos.Kieron, Lia e Evelyn foram os primeiros a entrar. O espelho ainda brilhava em fragmentos, flutuando como pequenos sóis partid
Último capítulo