Mundo de ficçãoIniciar sessãoMaya
A espera na cozinha parecia uma tortura interminável. Cada segundo arrastava-se com o peso do nevoeiro que cobria os jardins de Valência, enquanto a imagem de Berta subindo a escada de serviço com a bandeja de Laura martelava na minha mente como um prenúncio sombrio. O enjoo persistente e a leve fisgada no meu ventre faziam com que o mundo parecesse prestes a ruir sob os meus pés. Apoiei-me novamente no balcão de madeira, sentindo o suor frio cobrir a minha testa. — Maya, você devia ir se deitar um pouco — insistiu Sofia, aproximando-se com os olhos cheios de preocupação sincera. — A senhora Eleonora ainda não voltou da reunião. Eu levo o chá dela assim que ela chegar. — Não precisa, Sofia... eu aguento — murmurei, tentando disfarçar a fragilidade da minha voz, mas a tontura quase me fez vacilar. Antes que Sofia pudesse protestar, o som de passos apressados ecoou pela escada. Berta surgiu no portal da cozinha, desprovida da bandeja de prata. Ela trazia o semblante calmo, quase angelical, mas o brilho vitorioso que cintilava no fundo das suas pupilas não conseguiu esconder a malícia. Ao passar por mim, Berta deu um sorriso sutil, de canto de boca, e encostou-se no balcão oposto, como se nada tivesse acontecido. — A senhorita Laura gostou do chá? — perguntou Sofia, tentando manter a rotina da cozinha. — Gostou bastante — respondeu Berta, ajeitando o avental com uma lentidão calculada. — Ela só pediu que o guarda Thomas continuasse na porta dela. Disse que se sente mais segura com a guarda reforçada naquele corredor. Ao ouvir o nome do guarda Thomas, o meu lobo interior deu um solavanco violento dentro do meu peito. Um arrepio gélido percorreu a minha espinha. A sensação de que uma teia invisível estava se fechando ao meu redor tornou-se sufocante. — O guarda Thomas? — perguntei num fio de voz, incapaz de conter a dúvida. — Ele não estava escalado para a patrulha do jardim hoje? — Mudanças de última hora, Maya — zombou Berta, encarando-me de cima a baixo com um desdém mal disfarçado. — O Supremo reorganization a guarda antes da reunião do Conselho. Parece que certos corredores precisam de uma vigilância... mais atenta. Ela não disse mais nada, mas a mensagem estava entregue. Poucos minutos depois, o som dos sinos do palácio anunciou o término da reunião extraordinária do Conselho. Respirei fundo, buscando forças na pouca coragem que me restava, e preparei uma nova bandeja com o chá de ervas e os biscoitos de amêndoa que a Matriarca tanto gostava. Subi a escadaria nobre a passos lentos, o coração batendo no ritmo pesado da apreensão. Ao dobrar o corredor da ala oeste para alcançar os aposentos de Eleonora, vi a figura de Thomas parado rigidamente ao lado da porta de Laura. O guarda mantinha a postura ereta, mas ao notar a minha aproximação, um sorriso torto e carregado de uma audácia perigosa curvou os seus lábios. Abaixei a cabeça imediatamente, apertando os dedos contra a prata da bandeja para evitar que as louças clacassem de pavor. Passei por ele em silêncio, sentindo o seu olhar de rapina percorrer o meu corpo, fixando-se com uma intensidade nojenta na curva da minha cintura e no meu ventre oculto pelo linho azul. Bati suavemente à porta da Matriarca e entrei. Eleonora estava de pé junto à lareira, a fisionomia desgastada e os olhos cinzentos carregados de uma dor profunda. Ela virou-se ao me ver entrar, e o contraste entre a postura do filho na reunião e a fragilidade da minha figura pareceu cortar o coração da senhora de Valência. — O seu chá, Matriarca... — disse eu, pousando a bandeja sobre a mesa de centro. Eleonora aproximou-se devagar, cobrindo a minha mão com a sua palma quente. O seu olhar baixou para o meu rosto pálido e depois, sutilmente, para a curva do meu ventre que eu tentava proteger instintivamente. — O meu filho acabou de selar a data do casamento com Laura perante o Conselho — revelou a Matriarca, a voz embargada por uma amargura cortante. — Ele se recusou a passar a marca, mas prometeu dar a ela o título de esposa. Dominic está cego, Maya... cego pela raiva e pelo orgulho. A confirmação da data do casamento caiu sobre mim como uma sentença de morte. A dor no meu peito foi tão aguda que a visão escureceu por uma fração de segundo. Pressionei a mão contra o meu ventre, sentindo a fisgada sutil repetir-se. — Ele não me quer, senhora Eleonora... — murmurei, enquanto as lágrimas represadas finalmente rolavam pela minha bochecha. — Ele acha que eu sou uma mentirosa. E agora... agora eu estou presa aqui, assistindo a tudo ruir. Eleonora abraçou-me com firmeza, escondendo o meu rosto no seu ombro nobre. — Enquanto eu respirar nesta casa, ninguém tocará em você ou na vida que você carrega — jurou a Matriarca num sussurro feroz, ignorando a sua própria impotência perante o decreto do Alfa Supremo. Fechei os olhos, acolhendo o abraço frágil da Matriarca, sem saber por quanto tempo ainda conseguiria esconder a verdade que crescia em silêncio dentro de mim.






