O Trono e o Dever

Dominic

A Sala do Conselho Real parecia um tribunal de sombras. As paredes de pedra escura, adornadas pelas tapeçarias seculares da linhagem Rossini, absorviam a luz fraca das lustres de cristal. Sentados ao redor da imensa mesa de carvalho polido, os cinco anciãos de Valência encaravam-me com a severidade de quem julgava não apenas o meu governo, mas a integridade do meu sangue.

A minha mãe, Eleonora, ocupava a cadeira à minha direita em um silêncio cortante e solene, mantendo os olhos cinzentos fixos na mesa, sem me conceder um único olhar de apoio.

— As notícias do banimento de Lorde Arthur Davenport e de sua esposa vazaram com a velocidade de um incêndio, Supremo — começou o Ancião Valerius, a voz gasta e áspera ecoando pelo recinto. — Estamos falando do patriarca de uma das famílias mais antigas e respeitadas do nosso território. Exigimos uma explicação clara sobre o motivo de tal medida às vésperas de uma união real.

Ajustei a minha postura na cabeceira da mesa, apoiando os antebraços sobre o carvalho e mantendo a expressão perfeitamente gélida.

— Lorde Arthur cometeu fraudes e desvios de verbas gravíssimos nas empresas que administram os recursos do Sul — ditei, sem vacilar por um segundo. — Os documentos e as provas contábeis são irrefutáveis. Ele e a esposa foram banidos de Valência por crime de lesa-majestade e má conduta financeira. Essa é a minha decisão e ela é final.

Os anciãos murmura-ram entre si, trocando olhares desconfiados, mas a justificativa burocrática deixava pouco espaço para contestação legal.

— Que assim seja quanto ao patriarca — interveio o Ancião Marcus, inclinando-se para a frente. — Mas a questão da herdeira permanece. A senhorita Laura Davenport é a sua noiva oficial. O povo e a nobreza aguardam a conclusão dessa aliança. Queremos saber quando será realizado o ritual de marcação para que ela receba a sua marca de Alfa Supremo antes da cerimônia.

A menção à marca fez o meu lobo interior rosnar no fundo do meu peito, arranhando a minha razão com uma fúria instintiva e violenta. Pressionei os punhos fechados sobre a mesa.

— Não haverá ritual de marcação — declarei, a voz saindo firme e categórica. — Nós podemos marcar direto a data do casamento.

Um silêncio chocado caiu sobre a sala. Os anciãos encararam-me como se eu estivesse propondo uma heresia.

— Como assim sem a marcação?! — exaltou-se Valerius, ajeitando a túnica com mãos trêmulas. — Um Alfa Supremo não conduz a sua noiva ao altar sem selar o elo de sangue perante a alcateia! A marca é a garantia divina da união!

— O meu lobo se recusa a marcar a Laura — soltei a verdade crua, sem rodeios. — Ele não a aceita como companheira. E eu não tenho como obrigar a minha natureza animal a passar a marca para ela.

A revelação fez a sala explodir em sussurros indignados. A minha mãe fechou os olhos por um segundo, soltando um suspiro pesado de profundo desgosto pela farsa que eu insistia em sustentar.

O Ancião Marcus levantou-se bruscamente, apoiando as duas mãos sobre a mesa e cravando o olhar no meu.

— E você está disposto a ir contra o seu próprio lobo para manter esse noivado, Dominic?! — questionou ele, chamando-me pelo nome de batismo para enfatizar a gravidade da situação.

— Estou — respondi, o tom de voz cortante como lâmina de aço. — A noiva que eu escolhi vem de uma linhagem nobre e impecável. Apesar das falcatruas do pai, os Davenport são uma família extremamente conceituada junto a este Conselho há mais de mil anos. É uma casa nobre que sempre andou ao lado dos Rossini, servindo à nossa Coroa com lealdade de sangue.

Pousei o olhar sobre as tapeçarias nobres do salão, resgatando as memórias que a minha razão usava para sufocar o elo que queimava na minha pele.

— O meu pai tinha um enorme apreço por Laura — continuei, encarando os anciãos um a um. — Desde que ela era uma criança, o meu pai falava para mim que um dia eu me casaria com a filha dos Davenport. Eu honrarei a memória dele e a história das nossas famílias. Eu vou manter o casamento com a Laura. Mas ela será a minha esposa sem a marca.

Os anciãos entreolharam-se em um alvoroço contido. A tradição exigia a marca, mas a conveniência política e o peso de mil anos de aliança entre os Rossini e os Davenport falavam mais alto para os burocratas do palácio. A ideia de evitar uma crise dinástica e manter a estabilidade do reino pesou sobre a mesa.

Valerius trocou algumas palavras em tom baixo com Marcus antes de voltar a sua atenção para mim.

— É uma decisão perigosa e atípica, Supremo... mas o Conselho reconhece o seu compromisso com a aliança histórica das nossas casas — declarou o ancião com um aceno solene de cabeça. — Se o senhor assume o fardo de um casamento sem o selo do seu lobo, não nos oporemos. Marque a data do casamento. Valência se preparará para a união.

— A cerimônia ocorrerá em três semanas — decretei, levantando-me da cadeira e encerrando a sessão.

Enquanto os anciãos se recolhiam em reverências e deixavam a sala, a minha mãe permaneceu sentada. Quando passei por ela, a sua voz soou baixa, carregada de uma tristeza devastadora:

— Você acabou de condenar a sua vida e a da menina que carrega a sua alma a um inferno de aparências, Dominic. E o seu lobo jamais vai te perdoar por isso.

Não respondi. Apenas cruzei as portas duplas, sentindo a minha alma afundar em uma escuridão onde a razão e o orgulho cobravam o seu preço mais alto.

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