Os Passos do Destino

Maya

A viagem até a província de Valência pareceu um longo velório em movimento.

Fui acomodada na parte traseira da carruagem secundária, junto com as pesadas bagagens de Laura e as caixas de joias que minha madrasta fizera questão de levar. A cada solavanco nas estradas de pedra, meu estômago dava voltas violentas. Mantive a janela de madeira entreaberta para que o ar frio da montanha entrasse, usando o vento gelado para conter as sucessivas ondas de enjoo que continuavam a me torturar.

Eu não precisava de um diagnóstico para saber o que estava acontecendo. A intuição do meu lobo tornara-se uma certeza inabalável e silenciosa. Dentro do meu ventre, frágil e invisível aos olhos do mundo, o fruto daquela única noite no escuro começava a fincar suas raízes. O herdeiro do Alfa Supremo de Valência estava crescendo dentro de mim, justamente no momento em que eu me tornara uma prisioneira sem direitos.

Quando os portões de ferro trabalhado da Mansão Rossini se abriram ao crepúsculo, o impacto visual foi de tirar o fôlego. A residência da linhagem real erguia-se como uma fortaleza de pedra branca e janelas imponentes, cercada por bosques densos de pinheiros e guardas vestidos com as cores da alcatéia principal.

— Lembre-se do seu lugar — a voz de Helena ressoou perto do meu ouvido assim que a carruagem parou na entrada de serviço dos fundos. — Você entra pela porta dos criados e permanece nos aposentos do subsolo até que Laura precise dos seus serviços. Se der um passo fora da área permitida, Arthur cuidará pessoalmente de você.

Abaixei a cabeça, engolindo em seco.

— Sim, senhora — respondi com um fio de voz.

Carreguei duas das malas mais pesadas de Laura nos braços, sentindo o esforço físico fazer minha vista escurecer por alguns segundos. Avancei pelos corredores de pedra da área de serviço, guiada por uma governanta de feição severa que mal me dirigiu o olhar. O cheiro da Mansão Rossini era completamente diferente da nossa casa no Sul, exalava lenha queimada, cera de abelha e um aroma sutil, porém avassalador, que fez meu sangue ferver no mesmo instante.

O cheiro dele. Tempestade, madeira e autoridade.

A presença de Dominic impregnava cada parede daquele palácio. O meu lobo interior se ergueu imediatamente, reagindo à proximidade do seu companheiro com um arrepio que percorreu toda a minha espinha. Apressando os passos para sufocar aquela reação, cheguei ao pequeno quarto reservado para os servos temporários da comitiva.

Deixei as bagagens no chão e me encostei contra a porta fechada, colocando a mão sobre o peito para acalmar o coração descontrolado.

No entanto, a calmaria durou pouco. Duas batidas secas na madeira me fizeram dar um salto. A porta se abriu e a governanta principal encarou-me com impaciência.

— Você é a criada pessoal da senhorita Laura Davenport? — perguntou ela, ríspida.

— Sou eu... — respondi, tentando manter a postura.

— A sua senhora exige a sua presença na suíte do segundo andar imediatamente. Ela quer que você passe os vestidos de gala para o jantar de recepção desta noite e ajude no penteado dela. Mova-se, a comitiva do Alfa Supremo já está se reunindo no salão principal.

Engoli o pavor que travou minha garganta. Subir até o segundo andar significava arriscar o meu pescoço, mas desobedecer ao chamado de Laura traria a fúria de Helena diretamente sobre mim.

Apanhei o ferro de passar e o cesto de óleos para cabelos, caminhando a passos rápidos e silenciosos pelas escadas de serviço que davam acesso à asa dos hóspedes nobres. O corredor do segundo andar era luxuoso, coberto por tapetes vermelhos espessos que abafavam meus passos.

Ao me aproximar da porta da suíte de Laura, que estava entreaberta, o som de vozes firmes fez meus pés paralisarem no lugar.

— O protocolo exige que a noiva desça acompanhada pelo Alfa na abertura do jantar — a voz grave, profunda e aveludada de Dominic ressoou do lado de dentro do quarto, tão próxima que fez os pelos dos meus braços se arrepiarem instantaneamente.

— Será uma honra, meu Alfa — respondeu Laura, com o tom meloso e afetado que costumava usar na presença dele.

Recuei dois passos para trás, escondendo-me no nicho da parede perto de uma estátua de mármore, abraçando o cesto contra o peito. A porta se abriu por completo, e a figura imponente de Dominic emergiu no corredor. Ele vestia um terno escuro perfeitamente ajustado, a postura ereta transbordando o poder natural de um Alfa Supremo.

No segundo em que ele deu o primeiro passo no corredor, o vento da janela aberta soprou na minha direção. Dominic parou bruscamente.

Seus olhos afiados varreram o corredor escuro em minha direção, o semblante enrijecendo enquanto ele tensionava a mandíbula, farejando o ar com uma intensidade quase selvagem.

O meu lobo no peito deu um ganido alto de desespero e atração. Escondi o rosto nas sombras da parede, prendendo a respiração, ciente de que a linha entre o meu segredo e o meu fim nunca estivera tão tênue.

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