Mundo de ficçãoIniciar sessãoDominic
A presença da incerteza é um insulto intolerável à mente de um predador. Parei subitamente no meio do corredor de acesso à ala dos hóspedes nobres, a poucos metros da porta da suíte reservada à família Davenport. O tecido do meu terno sob medida pareceu subitamente apertado demais sobre os meus ombros, restringindo o movimento do meu peito. Minha mandíbula travou em um reflexo puramente instintivo enquanto meus sentidos de Alfa Supremo se expandiam, varrendo cada centímetro do ambiente com uma urgência quase selvagem. Aquele aroma. Não era uma mera lembrança distante ou uma projeção de uma mente exausta pelo trabalho. Era o rastro inconfundível, denso e avassalador da essência que incendiara a minha alma na escuridão daquela noite no Sul. Uma combinação morna de tempestade, madeira e uma doçura primitiva que o meu instinto gravara a ferro e fogo na memória. — Dominic? Aconteceu alguma coisa? — a voz de Laura veio do limiar do quarto. Ela deu um passo à frente, ajustando a pulseira de ouro em seu pulso delicado e me encarando com uma leve curvatura de preocupação nas sobrancelhas. Vestia um modelo impecável de seda clara, mas a luz do corredor expunha a artificialidade do seu perfume doce, uma névoa floral sufocante que falhava miseravelmente em reproduzir aquela fagulha vital. Não respondi de imediato. Fechei os olhos por alguns segundos, travando uma batalha silenciosa para controlar a irritação que subia pelo meu pescoço. Inspirei fundo mais uma vez, buscando a confirmação do cheiro. Contudo, a rajada de ar gelado que entrou pela janela aberta no fim do corredor trouxe apenas o cheiro de cera de abelha, o odor de poeira das tapeçarias e a umidade da chuva que começava a cair sobre as terras de Valência. O rastro parecia ter evaporado no ar, tão rápido e diáfano quanto surgira. Balancei a cabeça devagar. Aquilo era um absurdo, uma peça pregada pelo cansaço e pela ansiedade acumulada nas últimas semanas. Eu estava prestes a selar a aliança mais importante da minha vida, e deixar que uma ilusão olfativa me desestabilizasse no meio do meu próprio palácio era um sinal claro de que o estresse do eclipse estava afetando a minha mente. — Nada — respondi, abrindo os olhos e encarando Laura com uma frieza polida e distante. — Apenas uma ilusão provocada pelo vento que cismo em prestar atenção. O jantar de recepção com os anciãos do Conselho começará em vinte minutos. Não se atrase. Pontualidade é o mínimo que se espera da futura senhora deste palácio. — Estarei lá em dez minutos, meu Alfa — prometeu ela, abrindo um sorriso perfeitamente ensaiado, embora o brilho nos seus olhos denotasse uma ligeira hesitação diante da minha distância. Virei-me sobre os calcanhares e caminhei a passos largos em direção às escadas monumentais. Enquanto eu descia, a batalha dentro de mim continuava: meu lobo arranhava a minha consciência, agoniado e relutante em aceitar Laura, mas a minha lógica sufocava cada um dos seus avisos. O cansaço e o estresse da liderança estavam pregando peças no meu animal, e eu não permitiria que sentimentos irracionais governassem o meu reino. Adentrei o salão principal sozinho, onde as luzes dos lustres de cristal iluminavam as mesas postas para o banquete real. Mantendo a postura ereta e a imponência que o meu cargo exigia, caminhei entre os convidados, cumprimentando os anciãos do Conselho e os líderes das alcatéias vizinhas com apertos de mão firmes e breves saudações de respeito. Acomodei-me à cabeceira da imensa mesa de banquete, servindo-me de uma taça de vinho enquanto aguardava a chegada de Laura. Contudo, a cada minuto que passava e a cada olhar curioso dos conselheiros sobre a cadeira vazia ao meu lado, o meu lobo se contorcia em pura rejeição, forçando-me a usar toda a minha disciplina para manter a fisionomia calma e inabalável. Minha razão me garantia que a escolha estava certa e que a união com os Davenport era a única salvação para o trono. Mas, enquanto mantinha os olhos fixos na grande porta do salão à espera da minha noiva, o conflito entre o meu cérebro e o meu instinto tornava-se uma dor física insuportável. Se a minha mente tinha todas as provas de que Laura era a mulher certa, por que o meu lobo se recusava de forma tão violenta a aceitar a Rainha que eu escolhera para ele?






