Mundo de ficçãoIniciar sessãoMaya
A sensação de pânico que me paralisou não era apenas o medo do confronto; era o instinto primitivo de uma mãe tentando proteger sua prole de um perigo iminente. Marta encarava-me fixamente, e a surpresa em seus olhos rapidamente deu lugar a uma firmeza maternal, porém inegociável. A cozinha inteira parecia ter congelado à espera da minha reação. Eu sabia que uma recusa direta ao chamado de Dominic não levantaria apenas suspeitas; atrairia a guarda real até o subsolo antes mesmo que a noite terminasse. — Maya, olhe para mim — disse Marta, dando um passo na minha direção e segurando as minhas mãos trêmulas com suavidade, mas sem aliviar a pressão. — Você é jovem e sei que a nobreza assusta, mas o Alfa Supremo não é um tirano com quem trabalha para ele. Ele apenas quer reconhecer o empenho da equipe. Você trabalhou tanto quanto as meninas. Não há o que temer. — Dona Marta... a senhora não entende... — tentei gaguejar, sentindo uma gota de suor frio escorrer pelas minhas costas. — A família que me trouxe... os Davenport... eles têm regras muito rígidas para mim. A senhora Helena me proibiu expressamente de ser vista no salão. Se ela me vir lá em cima, eu vou perder o pouco que tenho. Marta suspirou fundo, uma expressão de indignação sutil cruzando suas feições experientes. Ela conhecia a arrogância das casas nobres da periferia e compreendeu a minha hesitação sob o prisma da opressão que eu sofria da minha família adotiva. — Ouça-me bem — declarou a governanta, alisando meus ombros. — Nesta casa, quem dá a palavra final sobre a servidão é a Matriarca Eleonora e o Alfa Supremo, não a senhora Davenport. Mas não vou expor você a uma punição injusta dos seus patrões. Você virá conosco, mas permanecerá na retaguarda do grupo, atrás da Clara e da Sofia. Fique de cabeça baixa, mantenha-se na sombra da pilastra lateral e não pronuncie uma única palavra. Assim que o agradecimento formal terminar, você recua para as escadas. Engoli a seco, percebendo que não havia rota de fuga. Se eu tentasse correr para o quarto do subsolo agora, o garçom avisaria os guardas. Se ficasse, Marta seria forçada a relatar minha insubordinação. A única opção era me esconder no meio das outras meninas e rezar para que a Deusa da Lua mantivesse o olhar de Dominic distante de mim. — Está bem... — murmurei, a voz fraca. — Eu vou. Clara e Sofia se aproximaram, ajeitando o meu avental e segurando minha mão em um gesto rápido de solidariedade. — Fique do meu lado, Maya — sussurrou Clara, tentando me acalmar. — É só dar uma reverência e voltar. Vai passar rápido. Alinhadas em fila atrás de Marta, começamos a subir a longa escadaria de pedra que levava ao andar nobre. A cada degrau que subíamos, o som da orquestra, o murmurinho das vozes aristocráticas e o cheiro denso de perfumes caros e iguarias se tornavam mais intensos. Mas, acima de tudo, a presença esmagadora da aura de Alfa de Dominic começava a pesar no ar, fazendo meu sangue pulsar acelerado e meu ventre dar um leve aviso de inquietação. Atravessamos o portal de carvalho trabalhado e entramos na lateral do grande Salão de Banquetes. A luz dos imensos lustres de cristal era quase cegante para quem passara horas na penumbra do subsolo. Dezenas de nobres vestidos em trajes suntuosos ocupavam as longas mesas. Na cabeceira principal, elevado em um pequeno patamar, estava Dominic. Ele vestia um traje de gala escuro, impecável, com o brasão de ouro da linhagem Rossini reluzindo no peito. Ao seu lado, com um sorriso vitorioso e orgulhoso, estava Laura. Mais abaixo, Arthur e Helena ostentavam olhares vaidosos diante das saudações dos anciãos. Encolhi-me imediatamente atrás da figura mais alta de Clara, cravando os olhos no chão de mármore e prendendo a respiração. — Supremo — anunciou Marta com uma reverência impecável diante do patamar real. — A equipe de montagem das bandejas atendeu ao seu chamado. Dominic ergueu a taça de cristal, seu olhar percorrendo o pequeno grupo de criadas com a polidez calculada de um soberano. — O Conselho elogiou a precisão e o respeito às nossas tradições no serviço desta noite — disse a voz grave e ressonante de Dominic, fazendo cada fibra do meu corpo tremer. — Valência reconhece o esforço de quem serve com excelência. Enquanto ele falava, o olhar de Helena desviou-se por um segundo em direção ao grupo de criadas. No instante em que seus olhos encontraram a ponta do meu vestido e a minha postura encolhida atrás de Clara, a cor sumiu do seu rosto. Suas narinas se inflaram em uma fúria silenciosa e mortal. Mas o pior ainda estava por vir. Assim que Dominic baixou a taça e deu um passo à frente para encerrar o protocolo, uma rajada suave de ar vinda das portas abertas da varanda cruzou o salão principal, arrastando o meu perfume sutil, misturado ao suor frio do meu pavor, diretamente para o patamar real. Dominic parou no meio do movimento. A taça em sua mão congelou. Seus olhos, antes calmos e aristocráticos, dilataram-se em um tom dourado e selvagem. Sua mandíbula enrijeceu, e ele girou o rosto lentamente em direção à lateral do salão, onde a nossa equipe estava parada. — Que cheiro é esse? — rosnou o Alfa Supremo em um tom baixo, mas tão carregado de autoridade que a música da orquestra parou instantaneamente, e o silêncio absoluto tomou conta do recinto.






