O Sangue e a Luz

Maya

As palavras de Eleonora pareceram congelar o próprio ar dentro dos aposentos reais.

O som do meu coração martelando contra as costelas tornou-se ensurdecedor. O chão pareceu sumir sob os meus pés, e a tontura violenta que se seguiu me fez dar dois passos cambaleantes para trás, até sentir a madeira fria da parede me apoiar. As minhas mãos, trêmulas e frias, voaram instantaneamente para cobrir o meu ventre em um gesto de puro pavor e desespero.

— N-não... — gaguejei, a voz saindo em um fio agudo e entrecortado pelas lágrimas que inundaram meus olhos. — A senhora... a senhora está confundindo as coisas, minha senhora! Eu não sou nada... Eu nunca... A senhora Helena e a Laura...

— Maya — interrompeu a Matriarca, sua voz mantendo um tom de serenidade tão absoluto que cortava o meu pânico como um bálsamo. — Não subestime a inteligência da mulher que governa os bastidores deste reino há mais de quatro décadas. Nem tente mentir para uma mãe que conhece cada fibra e cada rastro do próprio filho.

Ela levantou-se da poltrona com movimentos suaves e elegantes. O farfalhar do seu vestido de veludo acompanhou seus passos lentos em minha direção.

— No segundo em que pisei na cozinha do subsolo, o meu lobo interior reconheceu o aroma do sangue Rossini em você — continuou Eleonora, parando a poucos centímetros de mim. Seus olhos cinzentos fitavam a minha figura não com raiva ou acusação, mas com um brilho de ternura profunda. — Você tenta se esconder sob panos velhos e ervas de cozinha, mas a presença do herdeiro de Valência é inquestionável para quem sabe enxergar. E o gesto de proteção que você faz com as mãos na barriga toda vez que se sente ameaçada... é a prova que o coração de uma mãe não consegue disfarçar.

Caí de joelhos no chão de madeira, incapaz de me manter de pé diante do peso daquela revelação. As lágrimas escorreram livremente pelo meu rosto enquanto encolhia os ombros, dominada pela humilhação e pelo pavor do que aquela verdade significava.

— Por favor... não conte para a dona Helena... — supliquei, unindo as mãos em desespero, soluçando. — Ela vai me matar... Ela vai tirar o meu bebê de mim e trancar o que sobrou da minha vida no porão! A Laura é a noiva... Eles têm os papéis, têm a prova de pureza... Eu sou apenas a bastarda dos Davenport, uma serva que ninguém quer!

Eleonora ajoelhou-se diante de mim no chão, sem se importar com a pompa da sua vestimenta nobre. Suas mãos quentes e firmes seguraram meus punhos trêmulos, afastando-os do meu rosto e obrigando-me a olhar diretamente nos seus olhos cinzentos.

— Escute-me bem, Maya — disse a Matriarca, a voz vibrando com uma autoridade que fez o meu choro cessar por um instante. — Helena e Laura não passam de duas farsantes que teceram uma teia de mentiras para usurpar o trono de Valência. Eu já imagino como a prova de pureza foi forjada. Eu vi o desespero nos olhos daquela mulher ao perceber que o meu filho rejeita a presença dela. O lobo de Dominic sabe que Laura é uma mentira. E o sangue dele dentro de você é a única verdade que importa.

— Mas o Supremo... — murmurei, a voz embargada. — Ele não sabe quem eu sou. Ele acha que a mulher daquela noite foi a Laura...

— Ele não sabe com a mente, mas o seu lobo e o seu instinto já começaram a caçar a verdade — explicou Eleonora, alisando com extrema doçura a minha bochecha molhada pelas lágrimas. — O rosnado dele no salão de banquetes, a recusa em partir, a rejeição visceral ao toque de Laura... Dominic está atormentado porque a alma dele clama por você.

Engoli em seco, sentindo o meu peito flutuar entre o terror do perigo e o calor inacreditável de ser acolhida pela mulher mais poderosa do reino.

— A senhora... a senhora não vai me expulsar? — perguntei em um sussurro hesitante.

— Expulsar a mulher que carrega o meu neto? — Eleonora sorriu, uma curva leve e genuína de lábios que iluminou o seu rosto aristocrático. — Jamais. Você e esta criança estão sob a minha proteção pessoal a partir deste segundo. Ninguém, nem Helena, nem Laura e nem mesmo os anciãos do Conselho, encostará um único fio de cabelo em você.

A Matriarca me ajudou a levantar com cuidado, guiando-me até a poltrona de veludo e fazendo-me sentar. Ela serviu uma das xícaras de chá fumegante e colocou-a em minhas mãos trêmulas, sentando-se à minha frente.

— Beba um pouco — ordenou suavemente. — Precisamos traçar o nosso plano com sabedoria. O império das mentiras dos Davenport ruiu no momento em que você pisou neste palácio, Maya.

Agora, cabe a nós escolher o momento exato em que a luz da verdade cairá sobre o Alfa Supremo.

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