O Sabor do Veneno

Maya

O ar abafado da cozinha parecia mais denso do que o habitual, impregnado com o cheiro forte de caldos, assados e temperos que me embrulhavam o estômago desde o amanhecer.

Assim que deixei os aposentos da Matriarca após a saída de Eleonora e Dominic para a reunião com o Conselho, desci os degraus de pedra em direção às dependências de serviço. O meu corpo pesava. A fisgada sutil no ventre e a tontura repentina fizeram o chão oscilar por um segundo. Apoiei a mão no balcão de madeira rústica, soltando um suspiro trêmulo para tentar conter a salivação amarga que tomava a minha boca.

— Maya? Você está bem, menina? — perguntou Sofia, aproximando-se com um pano de prato sobre o ombro e o rosto franzido em preocupação sincera.

— Estou sim... é só uma tontura bobagem — tentei desconversar, abrindo um sorriso frágil enquanto me apoiava melhor na bancada.

— Tontura? Com essa palidez e esse enjoo de manhã cedo? — a voz esganiçada de Berta ecoou do outro lado da mesa.

Berta era uma das criadas mais antigas da cozinha. Ao contrário de Sofia, que sempre me tratara com doçura desde a minha chegada, Berta guardava um amargor velado. Ela me olhava de cima a baixo, com os olhos estreitados, como se me julgasse por ter saído do porão para ocupar o posto de dama de companhia da senhora do palácio.

— Isso não é tontura de cansaço, não — continuou Berta, secando as mãos com uma lentidão calculada e dando dois passos na minha direção. — Você mal tocou na comida ontem à noite. E hoje o cheiro do assado fez você empalidecer assim que pisou aqui.

— É apenas o estresse desses dias, Berta — respondi, tentando disfarçar, mas a minha voz falhou.

— Ou pode ser um bebê na sua barriga — disparou Berta sem menor pudor, sorrindo de lado ao ver o meu rosto perder o resto de cor que me sobrava. — A gente conhece os sinais, garota.

Instintivamente, levei a mão ao ventre, um gesto sutil que não passou despercebido por Berta nem por Sofia. Sofia cobriu a boca com as mãos, surpresa, enquanto Berta soltou uma risadinha abafada, os olhos faiscando com uma curiosidade invejosa e maldosa.

A governanta-chefe, que organizava as louças ao fundo, aproximou-se com a fisionomia rígida e interveio:

— Chega de fofocas no horário de trabalho! Maya, você é a dama de companhia da Matriarca. Não precisa estar aqui embaixo se desdobrando nos afazeres pesados da cozinha. A senhora Eleonora deixou claro que você deve ficar disponível para ela.

— A dona Eleonora está na reunião do Conselho agora, senhora — expliquei rapidamente, buscando fugir do olhar inquisidor de Berta. — Assim que a reunião terminar, eu levarei o chá e algo leve para o quarto dela. Mas, por enquanto, os meus serviços são mais úteis aqui ajudando vocês. Não quero ficar ociosa.

Passei as horas seguintes ajudando a cortar vegetais e a preparar as bandejas, tentando ignorar os enjoos constantes e os olhares atravessados de Berta. O ar na cozinha parecia carregar uma tensão invisível.

Quando o relógio de parede marcou o meio da tarde, a governanta começou a separar as refeições que seriam entregues nas alas restritas.

— Falta apenas a bandeja da ala oeste — anunciou a governanta, colocando uma xícara de chá e uma fatia de bolo sobre a prata. — Quem vai levar o chá da senhorita Laura?

Antes que Sofia pudesse se prontificar, Berta deu um passo à frente com uma presteza atípica.

— Pode deixar que eu levo — disse Berta, pegando a bandeja com uma agilidade suspeita. — A coitada está trancada lá no quarto o dia inteiro, deve estar precisando de um pouco de ar limpo ou de uma palavra.

Acompanhei o movimento de Berta com o olhar. Houve um brilho estranho, uma malevolência mal disfarçada nas suas pupilas ao ajustar a xícara na bandeja. Um arrepio frio percorreu a minha espinha, e o meu lobo interior inquietou-se no fundo do meu peito, avisando-me de que algo errado estava prestes a acontecer.

— Berta... — chamei, dando um passo involuntário na direção dela.

— Não se preocupe, Maya — respondeu ela, virando-se para mim com um sorriso falso que não alcançava os seus olhos. — Eu cuido da sua 'irmã'.

Ela deu meia-volta e subiu a escada de serviço a passos rápidos. Fiquei parada no meio da cozinha, o peito apertado por uma premonição sombria, sem imaginar o veneno que subia naquele momento para os aposentos de Laura.

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