Mundo de ficçãoIniciar sessãoMaya
A poeira do porão nunca me pareceu tão sufocante quanto no momento em que a porta foi arrombada com um golpe violento. Eu estava sentada na beira do meu colchão fino, limpando as marcas de sujeira das mãos, quando Laura e Helena invadiram o cômodo. O rosto da minha meia-irmã estava vermelho de raiva, transformando a maquiagem impecável em uma máscara grotesca de indignação. — Sua bastarda idiota! — gritou Laura, avançando na minha direção e apontando o dedo contra o meu rosto. — Você quase estragou tudo! O Dominic veio me questionar sobre você no meio do café da manhã! Ele desconfiou, ficou perguntando quem era a criada do corredor e por que você estava agindo daquele jeito! Pisquei, surpresa, mas mantive a postura ereta, o peito arfando de indignação. — Eu não fiz nada! — respondi, a voz firme apesar da dor que ainda sentia no corpo. — Ele esbarrou em mim por acidente enquanto falava ao telefone! Eu nem olhei para o rosto dele, fiquei de costas o tempo todo para garantir que ele não me reconhecesse! — Não me interessa! — esbravejou Laura, cruzando os braços e virando o rosto com desprezo. — O fato é que a sua simples presença acendeu um alerta na cabeça dele. E por causa dessa sua incompetência, nós não vamos te entregar documento nenhum! Aquelas palavras caíram como uma bomba sobre mim. Encarei a minha irmã e, em seguida, olhei para Helena, que assistia a tudo com um sorriso frio e cruel encostada no batente da porta. — O quê?! — inclinei-me para a frente, o choque se transformando em um surto de fúria contida. — Como assim não vão me entregar?! Nós tínhamos um acordo! Eu fiz exatamente o que vocês me mandaram fazer! Aproximei-me de Laura, sem me importar com a aura de nobreza fútil que ela ostentava, encarando-a nos olhos. — Eu me deitei com ele no escuro! Eu entreguei a minha primeira vez, a minha virgindade, para o meu próprio companheiro predestinado, mentindo na cara dele e deixando que ele acreditasse que estava com você! Eu fui humilhada, tratada como um pedaço de carne descartável e carreguei a prova da minha entrega nos braços para proteger a mentira de vocês! Eu cumpri cada palavra do combinado, e agora vocês querem dizer que eu descumpri o combinado?! — Você descumpriu no momento em que deixou ele te notar no corredor! — rebateu Laura, eufórica e histérica. — O Dominic é o Alfa Supremo! Se ele continuar investigando por sua causa e descobrir a verdade antes de marcar o meu pescoço no altar, eu perco tudo! Você não vai a lugar nenhum, Maya. Vai ficar trancada aqui até a cerimônia passar! — Vocês são uns monstros! — gritei, a voz rasgando a minha garganta enquanto o choro de fúria finalmente transbordava pelos meus olhos. — Me dê os arquivos da minha mãe e a minha transferência agora! Eu vou embora desta casa e nunca mais vocês vão ver a minha cara! Me deixem ir! Tentei avançar em direção à saída da escada para enfrentar meu pai, mas Helena deu dois passos rápidos à frente e me interceptou. Um tapa violento e estalado atingiu o meu rosto, fazendo a minha cabeça girar com o impacto. O estalo seco ecoou pelas paredes de pedra do porão, e o gosto metálico de sangue preencheu o canto do meu lábio inferior. Caí de joelhos no chão frio, segurando a bochecha ardente com a mão trêmula. — Cale a sua boca, bastarda insolente! — sibilou Helena, cravando os olhos cheios de ódio nos meus. — Você não exige nada nesta casa! O seu pai já decidiu: você só sai daqui depois que o noivado for consolidado perante todo o Conselho da alcatéia. Até lá, você é um perigo para a nossa família. Antes que eu pudesse me levantar ou rebater, Helena puxou Laura pelo armar e as duas subiram apressadamente as escadas de madeira. A porta pesada do porão foi fechada com um baque ensurdecedor. O som da chave girando na fechadura e da tranca de ferro sendo acionada pelo lado de fora selou o meu destino no escuro. Bati com os punhos contra a madeira grossa, gritando até perder as forças, mas apenas o silêncio e o mofo do cativeiro me responderam. Atirei-me no chão, abraçando os joelhos enquanto o canto da minha boca sangrava, perguntando-me até quando a Deusa da Lua permitiria que a minha alma fosse despedaçada por aquela mentira.






