O Rastro da Incerteza

Dominic

A mente de um Alfa Supremo é treinada para ler pequenos sinais, mas há momentos em que a intuição fala mais alto do que qualquer lógica.

Permaneci estático no meio do corredor, observando as costas da jovem serva desaparecerem na curva da escada. Havia algo de profundamente perturbador no tremor que percorrera os ombros dela ao esbarrar em mim. Quando o corpo dela colidira contra o meu peito, o meu lobo interior não apenas despertara, ele saltara nas sombras da minha mente, arranhando minhas costelas com uma urgência violenta e desconhecida.

Apertei o celular na mão, ignorando a voz do meu conselheiro que continuava a falar do outro lado da linha.

— Dominic? O senhor ainda está aí? — perguntou o assistente, através do viva-voz.

— Ligue mais tarde, Gabriel — ordenei, desligando a chamada sem esperar resposta.

Aproximei-me devagar do ponto exato onde a garota estivera parada. O ar do corredor estava impregnado pelo cheiro forte de produtos de limpeza e tecido úmido, mas, sob essa camada artificial, uma nota sutil, quase imperceptível, flutuou até minhas narinas. Jasmin. Era o mesmo aroma morno, doce e selvagem que incendiara a minha alma no escuro daquela noite, provavelmente vinha dos lençóis de Laura.

Franzi o cenho, o sangue pulsando mais forte nas minhas têmporas.

Apanhei o caminho de volta para a sala de jantar com passos firmes. Ao cruzar o portal de entrada, a cena parecia perfeitamente montada: a mesa farta, o brilho da prata e a família Davenport sorrindo para mim. Laura levantou-se imediatamente da sua cadeira, ajustando a saia do vestido e caminhando na minha direção com uma graciosidade quase ensaiada.

— Dominic, querido! — disse ela, cruzando os braços ao redor do meu cotovelo e deitando a cabeça no meu ombro. — Estávamos falando sobre a lista de convidados para a nossa festa de noivado. Meu pai acha que deveríamos convocar os anciãos de todas as alcatéias vizinhas. O que você pensa?

Olhei para Laura de cima a baixo. A luz da manhã brilhava em seus cabelos e realçava a maquiagem impecável, mas quando encarei seus olhos, o meu lobo permaneceu completamente em silêncio. Nem um único ganido de reconhecimento, nem uma faísca de conexão.

— Quem é a garota que trabalha nesta casa? — perguntei diretamente, a voz fria e cortante fazendo o sorriso de Laura congelar.

A atmosfera na sala de jantar mudou em um fração de segundo. Arthur Davenport parou a xícara de café no meio do caminho para a boca, e Helena enrijeceu a postura, um brilho de pavor cruzando o olhar da minha futura sogra antes que ela conseguisse disfarçar.

— A garota...? — repetiu Arthur, pigarreando e forçando uma risada fraca. — Ah, você deve estar se referindo à empregada da casa, Dominic. Uma garota simples, filha de uma antiga funcionária que acolhemos por caridade. Por que a pergunta?

— Ela esbarrou em mim no corredor — respondi, mantendo os olhos fixos em Arthur, avaliando cada microexpressão daquele homem. — Ela parecia aterrorizada. E carregava os lençóis do quarto de hóspedes abraçados ao peito como se estivesse escondendo um tesouro.

Laura soltou o meu armar com um gesto impaciente, bufando.

— Aquela garota é uma desastrada, Dominic! — declarou ela, com uma pitada de veneno na voz. — Sempre andando de cabeça baixa, cheia de trejeitos estranhos. Eu já disse para a mamãe que deveríamos mandá-la embora há tempos. Ela só serve para recolher o lixo e lavar a sujeira da casa. Não precisa se preocupar com criada, meu amor.

— É verdade, Supremo — interveio Helena, levantando-se e sorrindo com subserviência. — Maya é uma jovem muito reservada e tímida. Ela não está habituada à presença de nobres da sua estatura, por isso deve ter se assustado ao ver você. Peço desculpas pela ignorância dela.

Maya.

O nome ressoou no meu peito como uma nota desafinada em um piano.

— Não há necessidade de desculpas — declarei, gélido, ajustando as abotoaduras do meu terno. — Apenas certifique-se de que os preparativos para o noivado estejam prontos até a próxima semana. O Conselho virá a Valência para a cerimônia de marcação.

Arthur e Helena suspiraram de alívio, trocando um olhar rápido e cúmplice que não passou despercebido por mim.

Caminhei até a saída da mansão, mas a sensação de que algo muito errado estava acontecendo sob aquele teto recusava-se a passar. Se a mulher em meus braços na noite passada fora Laura, por que a simples presença daquela criada fizera o meu lobo querer rasgar o meu peito para alcançá-la?

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