O Segredo na Escuridão

Maya

O tempo congelou no exato segundo em que o rosnado baixo e rasgado de Dominic fez a orquestra calar-se abruptamente.

A aura avassaladora de Alfa Supremo expandiu-se pelo imenso salão de banquetes como uma onda de choque invisível, pesada e sufocante. Era o poder ancestral da linhagem real impondo domínio absoluto sobre todos no recinto. Os conversos calaram-se, os garçons paralisaram com as bandejas no ar e até o crepitar das lareiras pareceu perder a força. Senti meus joelhos fraquejarem sob o peso daquela energia predatória. Precisei pressionar a ponta dos dedos contra o mármore frio da pilastra lateral para não desabar diante de todos.

Naquele instante de transe coletivo, em que cada nobre e ancião retinha a respiração sem compreender a reação súbita do seu soberano, o meu instinto de sobrevivência falou mais alto do que o pavor estalisante.

Fugir do palácio naquele momento seria um ato de pura insensatez. Os portões da propriedade estavam trancados por medidas de segurança, as estradas da montanha de Valência eram patrulhadas pela guarda de elite e a floresta gélida lá fora se tornaria uma armadilha mortal para uma mulher sozinha, debilitada e carregando uma nova vida. Se eu corresse para o exterior, me transformaria em uma caça fácil no meio da noite.

Eu não podia escapar da mansão, mas precisava sumir imediatamente daquele salão.

O olhar de Dominic, inundado por um tom dourado e selvagem, varria os rostos da multidão em busca da fonte do aroma que atingira suas narinas. Do outro lado da mesa principal, Helena percebeu a mudança drástica no ar. Em um gesto de puro pânico mal disfarçado ao me notar na retaguarda da criadagem, minha madrasta derrubou ruidosamente uma taça de cristal sobre o tampo de madeira. O estrondo do metal e o vinho tinto derramado atraíram os olhares dos anciãos vizinhos por uma fração de segundo.

Aquele estalo foi a minha única e preciosa janela de oportunidade.

Aproveitei o desvio de atenção e o fato de que o olhar de Dominic ainda não focara diretamente no meu rosto para dar um passo lento e calculado para trás. Usei as costas largas de Clara e a silhueta alta de Sofia como um escudo humano.

— O que foi, meu Alfa? — a voz de Laura ecoou pelo patamar, carregada de um tom afetado, trêmulo e levemente irritado enquanto ela ousava tocar o braço do noivo para conter a rigidez de seu corpo. — Aconteceu alguma coisa? É apenas o vento da varanda ou o aroma forte dos temperos da cozinha...

A distração provocada pelo toque de Laura e o murmurinho de estranheza dos convidados duraram apenas um segundo, mas foi o suficiente para o meu recuo. Deslizei em silêncio para a sombra densa da cortina de veludo escuro que ladeava o arco da porta de serviço. Marta, a governanta-chefe, percebendo a minha palidez cadavérica e o tremor incontrolável das minhas mãos, franziu o cenho em pura confusão. Contudo, demonstrando uma sabedoria prática de quem conhecia os perigos da nobreza, ela manteve a postura ereta na frente do grupo, cobrindo os meus movimentos com a própria figura.

Sem que os guardas posicionados na varanda ou os nobres concentrados na mesa principal nota-se minha manobra, empurrei devagar a folha de carvalho trabalhado e me enfiei na penumbra do corredor das escadas.

Assim que a porta pesada se fechou sem produzir um único ruído, cortando a luz cegante dos lustres e o som tenso do salão, desabei contra a parede de pedra úmida. Levei as duas mãos à boca para sufocar os soluços desesperados que queriam rasgar a minha garganta. O meu coração martelava contra as costelas com tanta violência que parecia prestes a quebrar meus ossos, e o meu ventre deu leves espasmos de dor diante da descarga súbita e brutal de adrenalina.

Ele tinha sentido. Ele soubera no mesmo instante. O instinto do Alfa reconhecera a minha essência mesmo oculta sob panos velhos e disfarçada pela distância.

— Respire... por favor, respire... — murmurei para mim mesma em um fio de voz rouca, deslizando a mão trêmula sobre a barriga ainda plana por cima do vestido surrado. — Nós estamos salvos... por enquanto.

Desci os degraus de pedra o mais rápido que minhas pernas bambas permitiam, usando o corrimão de ferro para não cair na escuridão. Corri pelo corredor da cozinha, que agora voltava a registrar a movimentação assustada dos cozinheiros comentando o rosnado do Alfa Supremo e me enfiei no pequeno quarto destinado aos criados no subsolo.

Tranquei a porta de madeira e me encolhi no canto mais escuro da pequena cama de solteiro, abraçando os joelhos contra o peito enquanto a penumbra do quarto me envolvia.

Lá em cima, o banquete continuaria sob uma atmosfera de suspeita e tensão velada. Dominic começaria uma busca cega e obsessiva por respostas, e Helena certamente viria atrás de mim com fúria cega assim que a recepção terminasse.

Mas, por agora, oculta nas entranhas profundas da Mansão Rossini, eu voltava a ser apenas uma criada invisível e o fruto daquela noite continuava protegido na escuridão do meu segredo.

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