Mundo de ficçãoIniciar sessãoMaya
Minhas mãos trêmulas ajustavam as últimas presilhas de pérolas no coque elaborado de Laura. A cada movimento dos meus dedos perto do pescoço da minha meia-irmã, o perfume forte e enjoativo que ela espalhara pelo quarto voltava a agredir meu olfato, fazendo uma nova onda de tontura subir pela minha cabeça. Concentrei-me em manter a respiração curta e pausada para não vacilar ali mesmo. — Cuidado com essas garras, bastarda — sibilou Laura em um sussurro imperceptível para os servos do corredor, encarando meu reflexo no espelho com desprezo. — Se arranhar a minha pele ou amassar uma prega do vestido, eu garanto que você passa o resto da semana sem ver uma gota d’água no subsolo. — Está pronto, senhorita — murmurei com a voz abafada, dando dois passos rápidos para trás e mantendo o queixo cravado contra o peito, encolhendo-me no canto mais escuro perto do guarda-roupa. Antes que Laura pudesse inspecionar o penteado no espelho pela décima vez, a porta da suíte se abriu sem ruído. Uma mulher de postura impecável e presença magnética adentrou o recinto. Seus cabelos prateados estavam perfeitamente presos em uma coroa de tranças, e um vestido de veludo azul-marinho cobria seu corpo com uma elegância que exalava autoridade ancestral. Os olhos cinzentos da Matriarca Eleonora, mãe de Dominic, varreram o quarto com uma firmeza que fez o ar do ambiente parecer subitamente mais denso. — Com licença — disse a Matriarca, sua voz serena carregando o peso de quem governara Valência por décadas. Helena e Laura deram um salto de suas cadeiras, ajeitando as saias e curvando-se imediatamente em uma reverência exagerada e ensaiada. — Matriarca Eleonora! Que honra imensa receber a senhora em nossos aposentos — apressou-se Helena em dizer, ostentando um sorriso subserviente. — Esta é a minha filha, Laura, a futura noiva do Alfa Supremo. — É um prazer conhecê-la, Matriarca — completou Laura, forçando uma modéstia que me fez o estômago dar voltas. Eleonora cumprimentou-as com um aceno leve e polido de cabeça, sem se deixar impressionar pelo entusiasmo teatrais das duas. — Eu vim ver se já estão prontas. Dominic não tolera atrasos. No entanto, antes que a conversa sobre os preparativos do banquete continuasse, o olhar afiado da Matriarca desviou-se da mesa de maquiagem e pousou diretamente sobre o canto escuro do quarto, onde eu tentava me fazer invisível. — E quem é a menina? — perguntou Eleonora, franzindo discretamente as sobrancelhas. Helena deu um passo à frente, tentando bloquear a visão da Matriarca com o próprio corpo, soltando uma risadinha desdenhosa. — Ah, não é ninguém importante, senhora Eleonora. É apenas uma criada simples que trouxemos do Sul para ajudar a Laura com os vestidos e as bagagens. Uma garota do campo, sem relevância alguma. Eleonora ergueu o queixo, e a temperatura do quarto pareceu despencar alguns graus. O tom de sua voz veio frio e cortante ao interromper minha madrasta. — Na minha casa, senhora Davenport, toda a criadagem é importante. São as mãos dos servos que mantêm a integridade deste palácio em pé. Helena empalideceu no mesmo instante, dando um passo atrás e selando os lábios. A Matriarca deu dois passos firmes na minha direção, parando a uma distância respeitosa. — Qual é o seu nome, menina? — perguntou ela, suavemente. Apertei as mãos contra o tecido do meu vestido surrado, sentindo o coração martelar nas costelas. Sem erguer a cabeça, mantendo os olhos fixos no chão de madeira polida, respondi com um fio de voz: — Maya, senhora. — Pois bem, Maya — continuou Eleonora, examinando a minha postura encolhida e o tremor sutil dos meus ombros. — Nós estamos recebendo centenas de nobres e oficiais de várias províncias para este banquete. A equipe da cozinha está sobrecarregada com a montagem das travessas e dos banquetes. Você estaria disponível para ajudar no subsolo nesta noite? Helena praticamente saltou para intervir, o pânico estampado em seu rosto. — Matriarca! Por favor, a Maya não tem treinamento adequado! Ela é desajeitada, não tem experiência para servir a nobreza e pode causar um vexame embaraçoso na frente dos seus convidados... — Eu não disse que ela iria servir as mesas, senhora Helena — cortou a Matriarca mais uma vez, sem sequer olhar para minha madrasta, mantendo os olhos cravados em mim. — Ela trabalharia apenas na organização das bandejas no setor de montagem da cozinha. Não terá contato algum com os nobres do salão... se essa for a vontade dela, é claro. O que me diz, Maya? Engoli em seco. A cozinha do subsolo era o lugar mais seguro do palácio. Estar lá significava ficar o mais longe possível do salão principal, de Dominic e do risco de ser vista pela guarda real. — Eu estaria sim, senhora — respondi, com a voz um pouco mais firme. — Eu prefiro ficar na cozinha. — Excelente — declarou Eleonora, virando-se de costas para Laura e Helena. — Venha comigo agora, Maya. Vou levá-la pessoalmente até a governanta-chefe. — Eu posso acompanhá-las para garantir que ela não atrapalhe... — tentou Helena, dando um passo na nossa direção. Eleonora parou na porta e olhou de relance para a minha madrasta, com um olhar soberano que não admitia réplica: — A senhora deve acompanhar a sua filha até o salão principal imediatamente. Dominic já está à espera de Laura à cabeceira da mesa, e o Conselho não tolera atrasos de quem pretende ostentar uma coroa. Sem dar margem para mais nenhuma objeção, a Matriarca fez um gesto sutil para que eu a seguisse. Saí do quarto de cabeça baixa, ouvindo o bufado de fúria contida de Laura ficando para trás. Enquanto caminhávamos pelos longos e pomposos corredores da Mansão Rossini em direção às escadas de serviço, mantive-me um passo atrás da senhora do palácio. O silêncio entre nós era pesado. Embora eu não ousasse erguer os olhos, podia sentir perfeitamente o peso do olhar observador de Eleonora sobre mim a cada curva, um olhar atento, analítico e profundamente intrigado, como se ela estivesse tentando decifrar um enigma que eu lutava desesperadamente para esconder.






