Mundo de ficçãoIniciar sessãoAda Williams morreu depois de adormecer. Pelo menos, essa é a única explicação que ela tem. Num instante, ela era uma funcionária de escritório cansada, jogando um jogo de romance e fantasia que nunca se deu ao trabalho de terminar. No momento seguinte? Ela acordou dentro do jogo. E, infelizmente, ela não é a heroína. Ela não é a Santa, nem mesmo alguém importante. Ela é apenas uma camponesa sem nome que vive na primeira cidade destinada a ser destruída. E, de alguma forma, as coisas só ficam piores. Um sistema misterioso a obriga a completar missões sob ameaça de morte. Um homem poderoso quer forçá-la a se casar com ele. Uma guerra se aproxima. E a história de que ela se lembra não está mais seguindo seu curso original. Então ela o conhece. Misterioso e perigosamente bonito. O tipo de homem que todo instinto de sobrevivência lhe diz para evitar. Seu olhar demora demais nela, seu sorriso parece um aviso. E, às vezes, quando ele a encara, Ada poderia jurar que há algo desumano escondido sob sua pele. Algo observando. Esperando avidamente. Quanto mais ela tenta se afastar, mais obcecado ele parece ficar. Agora presa em um mundo em ruínas, cercada por mentiras e assombrada por um destino que ela não compreende, Ada tem apenas um objetivo: Permanecer viva. Mas sobreviver se torna muito mais difícil quando a criatura mais perigosa do reino decide que a quer. E se recusa a deixá-la ir.
Ler maisAda Williams
O ônibus freou tão bruscamente que meu corpo foi jogado para frente junto com o resto das almas condenadas do transporte público noturno.
Ninguém reclamou.
Todo mundo ali tinha cara de quem já tinha desistido da vida há pelo menos uns cinco anos.
Incluindo eu.
Suspirei cansada, apoiando a testa contra o vidro frio enquanto observava as luzes da cidade passarem borradas do lado de fora. Minha cabeça latejava. Não ajudava o fato de eu ter passado as últimas nove horas ouvindo gente mentir descaradamente no telefone.
— Senhora, eu juro que meu carro pegou fogo sozinho!
Claro.
Assim como o homem que “acidentalmente” derrubou o celular no vaso sanitário pela terceira vez em quatro meses.
Ou a mulher que claramente entregou a senha do cartão pro namorado drogado e depois tentou dizer que foi clonagem.
Trabalhar numa seguradora destruía sua fé na humanidade numa velocidade impressionante.
A pior parte é que eu sou realmente boa nisso.
E nao to exagerando.
Conseguia perceber hesitação na voz.
A mudança de tom, os padrões.Até mesmo a respiração falha.As pessoas mentiam muito mal.
É claro, meu gerente adorava isso.
“Ada Williams, você tem um dom; devia trabalhar pra polícia.”
“Você vai ganhar funcionária do mês nesse ritmo.”Ótimo.
Talvez eu pudesse usar o certificado de melhor funcionário para pagar o aluguel.
Ainda assim, eu não podia negar que a possibilidade da promoção me animava um pouco.
Principalmente porque o CEO da empresa viria visitar nossa sede dali alguns dias.
Aparentemente ele morava fora do país e estava passando pelas filiais pessoalmente. Desde que aquela notícia chegou, o escritório inteiro tinha virado um zoológico hormonal.
As meninas do atendimento praticamente surtavam no café.
“Ele é lindo.”
“Ridiculamente rico.”“Você viu a foto dele? Qué gato!“Meu Deus, ele parece um ator.”Ouvi dizer que uma delas literalmente ampliou uma foto do LinkedIn dele pra mostrar pros outros.
Sem querer parecer ser idiota, mas aquilo…era meio que ridículo.
Eu as escutava conversando de longe, tentando não rir, e devo admitir que aquilo já estava me deixando super curiosa.
Claro que não é o suficiente para ir até lá me juntar a aquelas doidas, não mesmo.
Só fiquei ali na minha mesa, ouvindo os comentários, tentando imaginar.
Talvez um homem com cara de protagonista de drama corporativo coreano?
Terno caro.Olhar frio.Cabelo perfeitamente arrumado.A parte mais engraçada era ouvi-las falando como se alguma delas realmente tivesse chance; aquilo me fazia querer bater a cabeça na mesa.
A maioria mal conseguia responder a um e-mail sem erro ortográfico.
Mas claro.
O CEO bilionário vindo do exterior certamente largaria tudo após conhecer a Martha do setor três.Bem…de qualquer forma, eu estava curiosa.
Fechei os olhos por alguns segundos voltando para a realidade, me ajeitando no banco do ônibus novamente.
Amanhã seria minha folga, finalmente.
O pensamento quase me emocionou.
Eu não fazia ideia do que fazer com meu raro e precioso tempo livre, principalmente porque o último entretenimento que tentei consumir tinha sido um fracasso completo.
“A Santa e o Dragão.”
Só de lembrar daquele jogo eu já queria revirar os olhos.
A capa era realmente bonita.
A premissa parecia interessante.Uma santa órfã com poderes de cura.Um rei dragão amaldiçoado.Reinos em guerra.Romance proibido.É claro…muitas, muitas cenas quentes, pelo menos era isso que o jogo prometia.
Parecia mais que promissor.
Mas então, a protagonista apareceu cheirando flores brancas e chorando por metade do jogo enquanto milhares de pessoas morriam por causa dela.
Nenhum beijo.
Nenhuma cena ardente de arrancar o folego ou…me fazer querer arrancar outra coisa.
Foi deprimente.
Sinceramente?
Eu tentei.
Mas chegou num ponto em que eu não conseguia mais levar a história a sério.
“Ah, sim, claro. Vamos iniciar uma guerra continental matando vários plebeus, porque o dragão bonitão ficou emocionalmente dependente de uma garota com complexo de salvadora, e mal pode tocar na beleza por medo de machucá-la.”
Romântico.
Para os cadáveres, imagino.
O ônibus finalmente parou na estação perto do meu prédio, e eu praticamente me arrastei para fora junto da multidão. Tudo o que eu conseguia pensar era no desperdício de tempo que tinha tido com aquele jogo.
Para melhorar ainda mais, na calçada, o ar da noite estava frio, úmido e fedendo a gasolina do posto que ficava próximo.
“ Maravilhoso como sempre”, pensei com ironia.
Passei numa loja de conveniência ainda aberta e peguei algumas cervejas, macarrão instantâneo, salgadinhos e um energético que provavelmente reduziria minha expectativa de vida em alguns meses.
Assim que saí da loja, meu celular vibrou no bolso.
Franzi a testa ao ver o nome do meu gerente na tela.
*James, o sanguessuga*
— Ah, não…
Atendi já sentindo a dor de cabeça chegando.
— Ada? Desculpa incomodar a essa hora.
Automaticamente fiquei alerta.
Será que eu tinha esquecido alguma coisa?
Algum documento?Alguma vistoria?Será que algum cliente surtado tinha ligado de novo?— Aconteceu algo? — Perguntei imediatamente.
— Não, não, nada grave! Relaxa. Na verdade, eu só queria dizer que você foi incrível hoje.
Meus olhos reviraram automaticamente enquanto atravessava a rua.
Claro, elogios…
Sempre vinham antes da bomba.
Ada WilliamsTalvez.Só talvez.Eu tivesse encontrado uma vantagem.A ideia surgiu tão de repente que meu coração chegou a acelerar.Mas eu me obriguei a respirar fundo.Calma.Muita calma.Porque, considerando minha sorte desde que acordei naquele mundo, era bem provável que eu tivesse uma ideia brilhante e, cinco minutos depois, o sistema aparecesse para estragar tudo.Ou me ameaçar de morte.Ou os dois.— Não se anima.Murmurei para mim mesma.— Toda vez que você se anima, alguma coisa dá errado.Ajustei a postura e continuei andando em direção às plantações.O vento balançava os campos ao redor da fazenda.Até que aquele lugar era bonito.Espero que quando toda essa loucura passar, eu possa parar e admirar um pouco.Cheguei à plantação e comecei a trabalhar.Puxando ervas daninhas.Verificando as mudas.Tentando descobrir o que precisava de água.O que precisava de sombra.O que precisava desesperadamente era de um milagre.De vez em quando ativava a habilidade de verificação.As
Ada WilliamsEu fiquei encarando o teto por um longo tempo naquela noite.Longo mesmo.Foi um daqueles momentos em que você está tão cansada que deveria estar dormindo, mas seu cérebro decide que aquele é o horário perfeito para analisar todos os seus problemas.E eu tinha muitos.Decidi recapitular tudo para evitar de deixar algo passar.Primeiro: eu estava presa dentro de um livro.Segundo: uma cidade inteira estava destinada a ser destruída.Terceiro: eu tinha um perseguidor nojento tentando me forçar a casar com ele.Quarto: eu precisava encontrar um marido em sete dias.Quinto: aparentemente, se eu ignorasse as missões do sistema, eu morria.Suspirei.— Que maravilha.Virei para o lado.Depois para o outro.A cama continuava dura.O travesseiro continuava horrível.E minha vida continuava um desastre.Fechei os olhos.O pior era que nada daquilo parecia um jogo; quanto mais eu observava aquele mundo, menos aquilo parecia um simples sistema ou algo artificial.As pessoas eram reai
Ada WilliamsMinha visão escureceu por um segundo.Só um segundo.Mas foi o suficiente para que meu cérebro finalmente processasse o que estava segurando.Até aquele momento, uma parte de mim ainda insistia que tudo aquilo era só mais um sonho idiota.Mas não.Aquele cara estranho tinha mesmo ido até mim me ameaçar, e aquela carta estava mesmo entre meus dedos.Engoli em seco e aproximei o papel da luz prateada que entrava pela fresta da porta. O luar não era forte, mas era suficiente para iluminar o selo vermelho preso na parte inferior.Meu olhar ficou preso nele por alguns segundos e então as memórias vieram.Não como antes, em flashes violentos.Dessa vez foi mais sutil, foi natural.Como se eu estivesse me lembrando de algo que sempre soube.Aquele brasão, aqueles três forcados cruzados junto à coroa.Eu conhecia aquilo.Ou melhor...A Ada daquele corpo conhecia.Era o símbolo do conde responsável por toda aquela região agrícola, pelos impostos, pelas colheitas e pelas leis locais
Ada WilliamsMinha voz saiu mais firme dessa vez.Ou talvez só desesperada.Ele me encarou pela fresta estreita.Então deu um passo para trás lentamente.E sorriu.Aquele sorriso falso e educado demais.O tipo de sorriso que clientes manipuladores davam antes de tentar te ferrar.— Calma, Ada…Ele levou a mão até o bolso do casaco e puxou um papel dobrado e meio amassado.Um selo vermelho marcava a parte inferior.Ele estendeu o documento em direção à fresta.Engoli seco.— Eu só vim entregar isso.Mantive uma mão firme na porta enquanto via ele estender a mão com o papel, esperando eu pegar.Não confiava nele nem por um segundo.Foi então que ele voltou a falar.A voz mais baixa, mais ameaçadora.— Então… você pensou no que eu te propus?Meu cérebro travou.Propôs?Droga.O que aquele cara tinha proposto pra Ada fictícia mesmo?Forcei a mente imediatamente.E então vieram os flashes.Rápidos.Duene segurando flores.Ada desviando dele na cidade.O pai dela fechando a porta na cara de
Último capítulo