Fui Enganada! Me Jogaram Em Um Romance Ruim
Fui Enganada! Me Jogaram Em Um Romance Ruim
Por: J. Landim
Capítulo 01

Ada Williams 

O ônibus freou tão bruscamente que meu corpo foi jogado para frente junto com o resto das almas condenadas do transporte público noturno.

Ninguém reclamou.

Todo mundo ali tinha cara de quem já tinha desistido da vida há pelo menos uns cinco anos.

Incluindo eu.

Suspirei cansada, apoiando a testa contra o vidro frio enquanto observava as luzes da cidade passarem borradas do lado de fora. Minha cabeça latejava. Não ajudava o fato de eu ter passado as últimas nove horas ouvindo gente mentir descaradamente no telefone.

— Senhora, eu juro que meu carro pegou fogo sozinho!

Claro.

Assim como o homem que “acidentalmente” derrubou o celular no vaso sanitário pela terceira vez em quatro meses.

Ou a mulher que claramente entregou a senha do cartão pro namorado drogado e depois tentou dizer que foi clonagem.

Trabalhar numa seguradora destruía sua fé na humanidade numa velocidade impressionante.

A pior parte é que eu sou realmente boa nisso.

E nao to exagerando.

Conseguia perceber hesitação na voz.

A mudança de tom, os padrões.

Até mesmo a respiração falha.

As pessoas mentiam muito mal.

É claro, meu gerente adorava isso.

“Ada Williams, você tem um dom; devia trabalhar pra polícia.”

“Você vai ganhar funcionária do mês nesse ritmo.”

Ótimo.

Talvez eu pudesse usar o certificado de melhor funcionário para pagar o aluguel.

Ainda assim, eu não podia negar que a possibilidade da promoção me animava um pouco.

Principalmente porque o CEO da empresa viria visitar nossa sede dali alguns dias.

Aparentemente ele morava fora do país e estava passando pelas filiais pessoalmente. Desde que aquela notícia chegou, o escritório inteiro tinha virado um zoológico hormonal.

As meninas do atendimento praticamente surtavam no café.

“Ele é lindo.”

“Ridiculamente rico.”

“Você viu a foto dele? Qué gato!

“Meu Deus, ele parece um ator.”

Ouvi dizer que uma delas literalmente ampliou uma foto do LinkedIn dele pra mostrar pros outros.

Sem querer parecer ser idiota, mas aquilo…era meio que ridículo.

Eu as escutava conversando de longe, tentando não rir, e devo admitir que aquilo já estava me deixando super curiosa.

Claro que não é o suficiente para ir até lá me juntar a aquelas doidas, não mesmo.

Só fiquei ali na minha mesa, ouvindo os comentários, tentando imaginar.

Talvez um homem com cara de protagonista de drama corporativo coreano?

Terno caro.

Olhar frio.

Cabelo perfeitamente arrumado.

A parte mais engraçada era ouvi-las falando como se alguma delas realmente tivesse chance; aquilo me fazia querer bater a cabeça na mesa.

A maioria mal conseguia responder a um e-mail sem erro ortográfico.

Mas claro.

O CEO bilionário vindo do exterior certamente largaria tudo após conhecer a Martha do setor três.

Bem…de qualquer forma, eu estava curiosa.

Fechei os olhos por alguns segundos voltando para a realidade, me ajeitando no banco do ônibus novamente.

Amanhã seria minha folga, finalmente.

O pensamento quase me emocionou.

Eu não fazia ideia do que fazer com meu raro e precioso tempo livre, principalmente porque o último entretenimento que tentei consumir tinha sido um fracasso completo.

“A Santa e o Dragão.”

Só de lembrar daquele jogo eu já queria revirar os olhos.

A capa era realmente bonita.

A premissa parecia interessante.

Uma santa órfã com poderes de cura.

Um rei dragão amaldiçoado.

Reinos em guerra.

Romance proibido.

É claro…muitas, muitas cenas quentes, pelo menos era isso que o jogo prometia.

Parecia mais que promissor.

Mas então, a protagonista apareceu cheirando flores brancas e chorando por metade do jogo enquanto milhares de pessoas morriam por causa dela.

Nenhum beijo.

Nenhuma cena ardente de arrancar o folego ou…me fazer querer arrancar outra coisa. 

Foi deprimente.

Sinceramente?

Eu tentei.

Mas chegou num ponto em que eu não conseguia mais levar a história a sério.

“Ah, sim, claro. Vamos iniciar uma guerra continental matando vários plebeus, porque o dragão bonitão ficou emocionalmente dependente de uma garota com complexo de salvadora, e mal pode tocar na beleza por medo de machucá-la.”

Romântico.

Para os cadáveres, imagino.

O ônibus finalmente parou na estação perto do meu prédio, e eu praticamente me arrastei para fora junto da multidão. Tudo o que eu conseguia pensar era no desperdício de tempo que tinha tido com aquele jogo.

Para melhorar ainda mais, na calçada, o ar da noite estava frio, úmido e fedendo a gasolina do posto que ficava próximo.

“ Maravilhoso como sempre”, pensei com ironia.

Passei numa loja de conveniência ainda aberta e peguei algumas cervejas, macarrão instantâneo, salgadinhos e um energético que provavelmente reduziria minha expectativa de vida em alguns meses.

Assim que saí da loja, meu celular vibrou no bolso.

Franzi a testa ao ver o nome do meu gerente na tela.

*James, o sanguessuga*

— Ah, não…

Atendi já sentindo a dor de cabeça chegando.

— Ada? Desculpa incomodar a essa hora.

Automaticamente fiquei alerta.

Será que eu tinha esquecido alguma coisa?

Algum documento?

Alguma vistoria?

Será que algum cliente surtado tinha ligado de novo?

— Aconteceu algo? — Perguntei imediatamente.

— Não, não, nada grave! Relaxa. Na verdade, eu só queria dizer que você foi incrível hoje.

Meus olhos reviraram automaticamente enquanto atravessava a rua.

Claro, elogios…

Sempre vinham antes da bomba.

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