Capítulo 03

Ada Williams 

Minha cabeça latejava tanto que parecia que alguém estava martelando meu cérebro por dentro.

Soltei um gemido baixo antes mesmo de abrir os olhos.

Meu corpo inteiro doía.

Costas, pescoço,braços.

E principalmente minha cabeça.

A primeira coisa que pensei foi:

Eu caí?

A segunda foi:

Aquela cerveja tava batizada.

Tentei me mexer devagar, sentindo algo duro e desconfortável sob meu corpo.

Chão?

Não…

Parecia pior que o chão.

Franzi a testa ainda de olhos fechados.

O silêncio também estava estranho.

Muito estranho.

Não tinha barulho de carros no fundo.

Nem vizinhos nem o som irritante do apartamento ao lado.

Nada.

Meu estômago gelou lentamente.

Abri os olhos devagar.

E travei.

Por alguns segundos, meu cérebro simplesmente se recusou a processar o que estava vendo.

O teto era de madeira escura.

As paredes também.

Tudo parecia… velho.

Rústico, ou melhor, antigo demais.

Não havia lâmpadas ou tomadas.

Muito menos janelas de alumínio.

O quarto parecia tirado diretamente de um documentário medieval de baixo orçamento.

Meu coração disparou.

Sentei tão rápido que quase caí da cama estreita.

— …Que porra?!

Minha própria voz ecoou pela casa silenciosa, me assustando ainda mais.

Olhei em volta freneticamente.

Uma mesa velha.

Um armário torto.

Velas.

Tecidos pendurados e utensílios estranhos.

Aquilo definitivamente não era meu apartamento.

Meu peito apertou violentamente.

Sequestro?

Mas… como?

E por quê?

Foi então que percebi minhas roupas.

Ou melhor…

A falta das MINHAS roupas.

Eu estava usando uma espécie de vestido claro e largo, parecido com uma camisola antiga.

O tecido era simples e áspero.

Resumindo, desconfortável.

Definitivamente não era algo que eu usaria nem sob ameaça.

Meu coração começou a bater ainda mais rápido.

— Não… não, não, não…

Passei as mãos pelos braços tentando me forçar a pensar racionalmente.

Talvez fosse uma pegadinha.

Um evento temático.

Uma droga alucinógena.

Sim.

Isso fazia mais sentido.

Muito mais sentido do que…

Uma luz vermelha surgiu na minha frente.

Eu congelei.

As palavras apareceram lentamente no ar como fumaça brilhando.

[ERRO NA ROTA PRINCIPAL]

Logo abaixo, outra frase surgiu:

[CARREGANDO ROTAS ALTERNATIVAS…]

Meu corpo inteiro ficou imóvel.

Eu só encarava aquilo.

Piscando.

Sem conseguir respirar direito.

A fumaça vermelha se movia lentamente no ar, brilhando como brasas.

— Que merda é essa?

Minha garganta secou.

Com medo e muito cuidado, me levantei e estendi a mão tremendo na direção da mensagem.

Meus dedos atravessaram a fumaça.

Ela ondulou.

Se distorceu.

E então voltou ao formato original.

Meu estômago despencou.

— OQUE!?

Levei a mão até a cabeça.

Aquilo não fazia sentido.

Nada fazia sentido.

Eu tinha morrido?

Era algum tipo de sonho?

Sentei novamente na cama dura.

Ou seja lá o que fosse aquilo.

Parecia mais uma tábua coberta por tecido velho.

Respirei fundo tentando organizar os pensamentos.

Última coisa que eu lembrava…

O notebook.

Os documentos do trabalho.

A aba do jogo está aberta.

Aquela luz ofuscante e…aquela voz.

“Por favor… me ajude…”

Meu corpo gelou.

Não.

Não tinha como.

Isso seria absurdo.

Ridículo na verdade.

Olhei novamente ao redor da pequena casa.

Tudo parecia real demais.

Até mesmo o cheiro da madeira.

A poeira sobre os móveis.

O vento passando pelas frestas.

Aquilo não parecia um sonho.

Me levantei devagar, sentindo as pernas fracas, e comecei a andar pela casa pequena.

Era… simples.

Simples até demais.

Uma cozinha minúscula, sem geladeira, sem micro-ondas ou qualquer coisa moderna.

Mesa e armários velhos.

Panelas gastas e aparentemente antigas.

Lenha.

Parecia casa de alguem pobre.

Muito pobre.

Meu peito doeu.

Com medo, mas ainda curiosa, decidi andar um pouco; tudo que queria era achar uma saida e ir embora dali o quanto antes. 

Depois de alguns minutos vistoriando o lugar, encontrei um cômodo separado por uma cortina.

Provavelmente um banheiro.

Ou o equivalente medieval a um.

Não havia chuveiro nem pia.

Só uma enorme bacia de aço cheia de água; parecia uma banheira improvisada.

Me aproximei lentamente e então vi meu reflexo.

Parei imediatamente.

Era eu.

Mas…

Não exatamente.

Meu cabelo estava maior, mais comprido do que deveria.

Meu rosto parecia mais jovem, mais delicado.

Traços mais suaves.

Minha pele parecia limpa demais.

Até meu corpo parecia… diferente.

Menor.

Mais leve.

— …

Meu coração começou a bater descompassado.

— O que aconteceu comigo, o que aconteceu com meu corpo…? — Quase gritei.

Uma nova luz piscou na minha frente.

Dessa vez azulada.

Quase dei um salto pra trás.

[HISTÓRIA DO PERSONAGEM]

— AH! 

Levei a mão ao peito.

— Que susto! Para com isso, porra!

A janela flutuante continuou ali.

Brilhando calmamente.

Respirei fundo algumas vezes antes de estender a mão devagar.

E então—

Uma dor atravessou minha cabeça tão violentamente que minhas pernas vacilaram.

— Ah…!

Levei a mão à têmpora imediatamente.

Imagens surgiram, mas não como pensamentos, como memórias.

Um campo enorme balançando ao vento dourado.

O cheiro de pão fresco.

Mãos calejadas segurando as minhas.

Uma mulher rindo baixinho enquanto costurava perto da janela.

Um homem alto levantando uma garotinha nos ombros.

Meu peito apertou.

Eu conhecia aquelas pessoas.

Não.

Eu não conhecia.

Mas ao mesmo tempo…

Conhecia.

Mais fragmentos de memórias vieram.

Tinha muita chuva.

Então ouvi um barulho de madeira quebrando.

Sangue jorrou.

Então…gritos.

Uma carroça destruída numa estrada enlameada.

Senti uma dor intensa.

Uma dor tão profunda que parecia afundar dentro dos ossos.

Aquilo era solidão? 

Luto…

Minha respiração falhou.

Lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto antes mesmo que eu percebesse. Começou a me faltar ar.

— …O quê…?

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App