Capítulo 07

Ada Williams

Meu corpo inteiro entrou em alerta no instante em que ouvi aquela voz.

Fria e baixa.

Mas estranhamente familiar.

Senti meu estômago afundar antes mesmo de entender o motivo.

Então vieram alguns flashes.

Rápidos e desconexos.

Um homem me observando da estrada.

Olhares longos demais.

Sorrisos desconfortáveis.

A Ada fictícia desviando o caminho para evitar cruzar com ele.

O pai dela ficando na frente da porta com expressão dura.

Proteção.

Porque aquele homem já perturbava Ada fazia muito tempo.

Só que agora…

Ela estava sozinha.

Ou melhor.

EU estava.

Seu nome veio como um raio na minha cabeça: Duene Esparza, um dos mensageiros e subordinados da nobreza local.

Meu coração começou a bater tão forte que achei que ele conseguiria ouvir do lado de fora.

Fiquei completamente imóvel no meio da cozinha escura, tentando nem respirar direito.

— Que droga…agora mais essa?

Talvez se eu fingisse que não estava ali…

Ele iria embora.

Silêncio.

Então—

TOC. TOC.

Mais duas batidas.

Dessa vez mais fortes.

— Eu sei que você está aí.

Minha garganta secou imediatamente.

A voz continuava calma.

Mas tinha algo errado nela.

Algo viscoso.

— Se não abrir… vou acabar tendo que abrir a porta de qualquer forma. Só pra confirmar se você está bem.

Meu sangue gelou.

Nem fudendo que aquilo era preocupação.

Era uma ameaça.

O medo que a Ada fictícia sentia por aquele homem não era exagero.

Era real… muito real.

Dei um passo para trás automaticamente.

Minha mente começou a girar.

O que eu fazia?

O que diabos eu fazia?

Eu estava num mundo medieval maluco cheio de guerra, monstros e sistemas quebrados…

E tudo o que eu tinha ganhado eram habilidades agrícolas inúteis, e eu nem conseguia usa-las!

Excelente.

Outra batida ecoou.

Mais impaciente.

Meu corpo reagiu antes da mente.

— N-Não faça isso!

Minha própria voz saiu trêmula.

Merda.

Eu precisava parecer calma.

Precisava pensar.

— O… o que você quer?

Silêncio por alguns segundos.

Então ele respondeu:

— Vim ver se você está bem. Ninguém te viu na cidade desde que seus pais morreram. Todos estavam preocupados… então decidi passar aqui.

Mentiroso.

Eu sabia que ele estava mentindo!

E não era pelas memórias da Ada fictícia.

Era pelo tom.

Pela hesitação, a forma controlada demais como ele falava.

Eu tinha passado anos ouvindo golpistas, manipuladores e mentirosos no trabalho.

Não tinha dúvidas e, para piorar, ele mentia muito mal.

Além disso…

Quem visita uma garota sozinha no meio da noite “por preocupação”?

Cara nojento.

Respirei fundo tentando manter a voz firme.

— Eu estou bem. Só… tive muito trabalho na fazenda esses dias. Por isso não fui até a cidade.

Do outro lado da porta, ele ficou em silêncio por um instante.

Então:

— Entendo…

A voz dele ficou mais suave, parecia até mesmo mais gentil.

E aquilo só me fez querer trancar ainda mais a porta.

— Ainda assim, abra a porta um pouco. Tenho algo pra entregar.

Franzi a testa imediatamente.

— O quê?

— Uma carta do Conde . Novas leis e cobranças. Isso envolve você também.

Meu estômago apertou.

Aquilo…

Parecia específico demais pra ser inventado.

Droga.

E se ele estivesse falando a verdade?

Se eu ignorasse algo importante naquele mundo, podia acabar piorando minha situação ainda mais.

Minha mente começou a correr rapidamente.

Pensa Ada! Pensa!

Use o cérebro.

Era exatamente assim que eu lidava com clientes suspeitos no trabalho.

Não podia agir pelo medo.

Precisava analisar.

Tom controlado.

Tentando parecer confiável.

Insistência excessiva.

Tentativa de criar urgência.

Tudo nele gritava perigo.

Mas ao mesmo tempo…

A informação parecia plausível.

Mordi o interior da bochecha nervosamente antes de olhar ao redor da cozinha.

Minha visão parou num pedaço grosso de madeira encostado perto do fogão.

Peguei imediatamente.

Era pesado.

Ótimo.

Segurei aquilo com força enquanto caminhava lentamente até a porta.

Meu coração estava disparado.

Respirei fundo uma última vez antes de destravar apenas uma parte da madeira velha e abrir uma pequena fresta.

Só o suficiente para enxergar do lado de fora.

E no segundo em que meus olhos encontraram o homem parado ali…

Um arrepio violento percorreu minha espinha inteira.

No instante em que ele percebeu que eu não abriria mais do que aquilo, a expressão dele mudou.

Só por um segundo, mas eu vi: a falsa gentileza rachou.

Duene empurrou a porta de repente.

Meu coração quase saiu pela boca.

A madeira tremeu forte, mas não abriu graças à corrente e à tranca improvisada.

Instintivamente ergui o pedaço de madeira que segurava.

— Fica longe!

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