Capítulo 02

Ada Williams 

— Obrigada.

— Sério, Ada. Seu desempenho esse mês tá absurdo. Se continuar assim, aquela promoção praticamente já é sua.

Lá vinha.

Escutei ele hesitar do outro lado da linha.

Uma pausa curta.

Respiração presa.

Aquele pigarro nervoso.

Conhecia aquele tom.

Ele só gaguejava quando queria pedir favor.

Fechei os olhos lentamente.

— Você precisa de algo?

Silêncio.

Então ele soltou tudo de uma vez:

— Será que… você poderia dar uma olhada em alguns documentos pra mim? O outro setor tá completamente sobrecarregado e vai acabar atrasando umas análises importantes…

Senti uma vontade genuína de atravessar o telefone e estrangular aquele homem.

Na minha folga.

Na minha preciosa e miserável folga.

Em pensamento, o xinguei de absolutamente tudo o que meu cérebro cansado conseguiu produzir.

Parasita corporativo.

Vampiro de CLT.

Demônio do RH.

Mas no fim… fiquei calada.

Eu precisava daquele emprego.

Precisava comer, pagar aluguel e, claro… precisava daquela maldita promoção.

Soltei um longo suspiro derrotado.

— …Tá. Pode mandar para o meu e-mail. Eu dou uma olhada em casa.

O alívio na voz dele foi tão grande que me irritou ainda mais.

— Sério? Nossa, Ada, você é minha salvadora. Muito obrigado mesmo.

— Tudo bem…

— Vou mandar daqui a pouco. Ah… e tenta descansar também, viu? Você merece.

Parei na entrada do prédio lentamente.

Descansar?

Aquele cretino tinha literalmente acabado de me dar trabalho extra pra fazer em casa.

— Boa noite, senhor James.

Desliguei antes que acabasse sendo demitida por desacato.

Fiquei encarando a tela apagada do celular por alguns segundos.

— “Descansa.”

Idiota sanguessuga.

Subi pro apartamento já sentindo meu raro tempo livre evaporando diante dos meus olhos.

Assim que abri a porta, foi como se o de casa me abracasse.

Joguei a bolsa no sofá, tirei os sapatos e fui direto pro banho.

A água quente ajudou um pouco a aliviar a tensão acumulada nos meus ombros.

Um pouco…

Quando saí do banheiro, coloquei uma camiseta larga e um short confortável, prendi o cabelo ainda úmido e me joguei no sofá com o notebook no colo.

Trabalho.

Que novidade.

Peguei uma das cervejas.

— Só uma não vai dar problema.

Abri a lata enquanto ligava o notebook.

Assim que a tela acendeu, a primeira coisa que apareceu foi a aba ainda aberta de “A Santa e o Dragão”.

Suspirei imediatamente.

Tinha até esquecido daquela porcaria.

A protagonista do livro estava ajoelhada numa ilustração cheia de flores brancas enquanto o príncipe dragão segurava a cintura dela com aquela típica expressão de homem traumatizado e perigosamente bonito.

Sinceramente…

Eu tinha perdido meu tempo.

Encarei a tela por alguns segundos, ou melhor…encarei o protagonista masculino que estava com a expressão obcecadamente apaixonada.

Suspirei desanimada.

Nem cheguei perto do final.

Será que a história iria ficar melhor depois?

Serio…que desperdicio de personagem gostoso.

Talvez os próximos capítulos finalmente explicassem por que metade do continente aceitava entrar em guerra por causa de uma garota chorando em jardins.

Talvez as cenas quentes viriam logo nos próximos capítulos ou…

Talvez continuasse ruim até o fim.

Antes que eu decidisse se daria outra chance ao jogo ou não, o notebook começou a apitar sem parar.

Os e-mails.

Claro.

A realidade me puxando de volta pela garganta.

Deixei a aba do jogo aberta em segundo plano e abri os documentos enviados pelo James.

Análises de seguro.

Fraudes.

Relatórios.

Solicitações.

Comecei a ler enquanto bebia um pouco da cerveja.

O ambiente estava até silencioso, tirando o som do teclado, da chuva fraca do lado de fora e das notificações irritantes de novos e-mails chegando.

Quem eu estava tentando enganar? estava tudo um caos.

Tentei me manter focada, mas então, depois de alguns minutos, senti algo estranho.

Franzi a testa, encarando a lata de cerveja.

Uma leve tontura.

Que estranho.

Eu literalmente estava na primeira cerveja.

Apoiei a lata na mesa devagar.

Talvez fosse só cansaço.

Passei tanto tempo olhando para a tela durante o dia que meus olhos ardiam.

Bocejei e voltei aos documentos.

Mas então as letras começaram a parecer… embaralhadas.

Minha cabeça latejou de repente.

Forte.

— Ah… qual foi agora…?

Fechei os olhos por um instante, passando a mão no rosto.

A tontura piorou.

Meu estômago embrulhou violentamente.

Então pensei ter ouvido algo.

Uma voz, fraca e distante.

Como um sussurro abafado.

“...por favor…”

Meu corpo inteiro gelou de medo e eu travei.

Levantei a cabeça rapidamente, olhando em volta.

O apartamento continuava vazio.

Só tinha eu ali. daonde aquela voz tinha vindo?

Meu coração começou a bater mais rápido.

— Tá legal… isso tá esquisito pra caramba.

Outra pontada atravessou minha cabeça.

Mais forte dessa vez.

E então percebi.

A luz do notebook estava estranha.

Virei lentamente o rosto para a tela.

A aba de “A Santa e o Dragão” brilhava.

Não brilho de tela.

Brilhava MESMO.

Uma luz branca intensa escapava pelas bordas da janela aberta do navegador.

Meu cérebro simplesmente parou por alguns segundos.

— …Que porra e essa…?

A voz surgiu novamente.

Mais clara e nitidamente desesperada.

“Por favor… me ajude…”

A luz aumentou violentamente.

Meu peito apertou.

A tontura de repente virou vertigem e tudo começou a girar.

Tentei me levantar do sofá, mas minhas pernas falharam.

A última coisa que vi foi a tela brilhando forte o suficiente para engolir toda a sala.

Então tudo ficou preto.

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