Capítulo 08

Ada Williams

Minha voz saiu mais firme dessa vez.

Ou talvez só desesperada.

Ele me encarou pela fresta estreita.

Então deu um passo para trás lentamente.

E sorriu.

Aquele sorriso falso e educado demais.

O tipo de sorriso que clientes manipuladores davam antes de tentar te ferrar.

— Calma, Ada…

Ele levou a mão até o bolso do casaco e puxou um papel dobrado e meio amassado.

Um selo vermelho marcava a parte inferior.

Ele estendeu o documento em direção à fresta.

Engoli seco.

— Eu só vim entregar isso.

Mantive uma mão firme na porta enquanto via ele estender a mão com o papel, esperando eu pegar.

Não confiava nele nem por um segundo.

Foi então que ele voltou a falar.

A voz mais baixa, mais ameaçadora.

— Então… você pensou no que eu te propus?

Meu cérebro travou.

Propôs?

Droga.

O que aquele cara tinha proposto pra Ada fictícia mesmo?

Forcei a mente imediatamente.

E então vieram os flashes.

Rápidos.

Duene segurando flores.

Ada desviando dele na cidade.

O pai dela fechando a porta na cara dele.

A mãe dizendo para ela nunca ficar sozinha perto daquele homem.

E então…A proposta, o casamento.

Meu estômago embrulhou.

Claro.

O nojento queria um relacionamento com ela.

Mais memórias surgiram lentamente.

Os pais de Ada estavam com medo por conta da influência que Duene tinha, por causa de seus contatos.

Ele tinha prioridade sobre os camponeses.

Se quisesse ferrar alguém…

conseguia.

Engoli seco novamente.

Então era isso.

Respirei fundo antes de responder:

— Eu… já lhe disse. Sou comprometida.

Vi algo escuro passar pelos olhos dele.

Mas continuei.

As memórias ainda vinham aos poucos.

O pai da Ada original sempre mandava ela dizer aquilo.

Que estava prometida desde pequena.

Que o noivo tinha ido para a guerra.

Que logo retornaria.

Mentira.

Tudo mentira criada para manter aquele homem afastado.

Então repeti exatamente aquilo, como a Ada fictícia fazia.

— Ele vai voltar em breve.

Duene perdeu a paciência imediatamente.

O sorriso sumiu.

Ele avançou contra a porta outra vez.

A madeira estremeceu violentamente.

— Isso de novo?!

Meu corpo inteiro congelou.

— Esse homem provavelmente já morreu! Você não entende?!

Ele empurrou a porta outra vez.

Mais forte.

— Uma jovem como você não pode ficar sozinha esperando um cadáver!

O medo subiu pela minha garganta como gelo; me encolhi dando passos para tras.

A corrente da porta rangeu perigosamente.

— E-Eu já disse! Ele vai voltar! — Gritei com a voz trêmula.

Droga!

Eu precisava fazer ele parar ou aquela porta acabaria cedendo.

Pensa.

PENSA!

E então falei a primeira coisa desesperada que veio à mente.

— Eu recebi uma carta!

Ele parou.

Instantaneamente.

— O quê?

Estava com tanto medo que meu corpo estava quase entrando em pane.

— Ele… ele chega semana que vem!

Silencio pesado do lado de fora.

Consegui ver perfeitamente a expressão dele pela fresta estreita.

Aquele olhar…

Quase animalesco e possesso.

— Mentindo agora, Ada?

Ele deu outro passo em direção à porta.

Seus olhos me cansando do lado de dentro, como se fosse um animal raivoso.

— Você não faz ideia do erro que está cometendo!

Empurrou novamente.

Eu gritei ainda mais alto antes mesmo de pensar:

— ELE VAI CHEGAR SEMANA QUE VEM!

Minha voz ecoou pela casa inteira.

— E se você não parar com isso… eu vou contar tudo pra ele!

Silêncio novamente.

Duene ficou congelado do lado de fora, pensativo e confuso, hesitante.

Tentando decidir se eu estava blefando ou não.

Meu peito subia e descia rápido demais.

Então ele jogou a carta pela fresta com brutalidade.

O papel caiu no chão.

Ele me encarou por mais alguns segundos.

Completamente fora de si, então sorriu novamente.

Só que daquela vez…

O sorriso parecia diferente, pior que antes, mais assustador.

— Veremos se essa história é verdade mesmo…

Meu sangue gelou.

Ele começou a se afastar lentamente da porta.

— Se ele não aparecer até o fim da semana que vem…

A luz da lua iluminou parcialmente o rosto dele.

— Nosso casamento será no final do mês.

Meu corpo inteiro congelou.

Então ele virou as costas e foi embora.

Só quando os passos desapareceram completamente percebi que minhas pernas tremiam.

Soltei a madeira da mão.

Ela caiu no chão com um barulho seco.

E eu deslizei sentada contra a parede em frente à porta.

Minha respiração estava completamente descontrolada.

— Que… porra foi essa…?

Minhas mãos tremiam enquanto pegava o papel jogado no chão.

Abri rapidamente e comecei a ler.

A cada linha…meu desespero aumentava.

[Nova Ordem Imperial]

[Toda mulher sem marido ou representante masculino responsável que possua terras deverá oficializar casamento ou tutela administrativa.]

[Mulheres desacompanhadas não possuem autorização legal para administrar propriedades rurais independentemente.]

[O não cumprimento resultará em confisco imediato das terras pelo senhor local.]

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