Leandra Felix
O tempo deixou de obedecer às regras assim que a porta da sala de pré-parto se fechou atrás de mim.
Não havia relógio que desse conta do que acontecia dentro do meu corpo. As contrações começaram a ganhar forma, não mais como avisos espaçados, mas como ondas que vinham decididas, empurrando tudo para fora do lugar. Eu respirava como tinha aprendido, contava mentalmente, tentava me agarrar à lógica de que aquilo era natural, necessário, passageiro.
Mesmo assim, havia medo.
Um medo silencioso, pesado, que se escondia nos intervalos entre uma dor e outra. Medo de não dar conta. Medo de algo sair do controle. Medo por mim. Medo por elas.
As meninas.
A enfermeira entrou mais uma vez, verificou os sinais, sorriu com profissionalismo treinado e disse que estava tudo dentro do esperado. “Dentro do esperado” passou a ser minha expressão favorita e mais odiada ao mesmo tempo. Porque o esperado parecia amplo demais para caber conforto.
— Qualquer coisa, me chama — ela disse, antes