Gael Lubianco
O som da caneta deslizando pelo papel sempre teve algo de definitivo para mim. Um risco simples, aparentemente banal, mas que carregava decisões, destinos, números altos demais para serem ignorados. Eu estava exatamente nisso quando a imagem de Leandra atravessou minha mente sem pedir licença.
A assinatura ficou suspensa no ar.
Não era a primeira vez que isso acontecia. Desde a tentativa de sequestro, ela ocupava meus pensamentos de uma forma quase obsessiva. Não como fraqueza, mas como prioridade. Como alerta constante. Como amor que não permite distração completa.
Abaixei a caneta lentamente e encostei as costas na cadeira de couro do escritório. O contrato à minha frente era importante, estratégico, fruto de meses de negociação. Ainda assim, por alguns segundos, tudo o que consegui pensar foi no jardim, na piscina, no jeito cansado que ela tentava disfarçar, na mão pousada sobre a barriga como se protegesse o mundo inteiro ali.
Peguei o celular, já decidido a ligar.
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