Melanie

Melanie Narrando

Me chamo Melanie Duarte, tenho 21 anos e moro em Osasco, São Paulo. Sou nascida e criada aqui, conheço cada rua, cada barulho de ônibus passando cedo demais, cada vizinho que fala alto demais. Minha vida nunca foi fácil, mas também nunca foi vazia. Foi dura. E, muitas vezes, injusta.

Eu não tenho pai. Ou melhor tive.

Meu pai morreu de câncer quando eu tinha treze anos. Meus irmãos tinham sete e três. Até hoje dói lembrar disso. Ele era tudo pra mim. Meu porto seguro. Meu abrigo. Ele me chamava de Melzinha, dizia que eu era o pote de mel dele. Quando ele sorria, parecia que o mundo ficava menos pesado.

Quando ele ficou doente, a casa mudou. O silêncio tomou conta. As contas aumentaram. O medo passou a morar com a gente. Eu via minha mãe tentando ser forte, mas chorando escondida no banheiro. Eu vi meu pai emagrecer, perder a força, mas nunca perder o carinho.

— Cuida da sua mãe e dos seus irmãos pra mim, Melzinha — ele disse uma vez, segurando minha mão.

Eu prometi. E promessa, pra mim, é coisa séria.

Depois que ele morreu, minha mãe teve que assumir tudo sozinha. Virou doméstica, saía cedo, voltava cansada, com as mãos cheirando a produtos de limpeza e o corpo moído. Eu virei adulta antes do tempo. Enquanto outras meninas da minha idade pensavam em festas, eu pensava em horário de creche, lanche, uniforme e tarefa de casa.

De manhã, eu acordava cedo. Arrumava meus irmãos. Dava café. Vestia o mais novo.

— Anda, vem logo, senão a gente se atrasa — eu dizia, tentando manter a paciência.

Deixava o menor na creche. Ia pra escola com o do meio. Assistia aula pensando se tinha comida suficiente em casa. Quando a aula acabava, eu buscava os dois e voltava pra casa. Todos os dias. Essa foi minha adolescência.

Não reclamo. Fiz o que precisava ser feito.

Fiz alguns cursos, tentando melhorar minha situação. Entre eles, secretariado. Sempre gostei de organização, de papel, de arquivo, de tentar fazer tudo certinho. Quando fiz dezoito anos, consegui um trabalho na escolinha do meu irmão mais novo, ajudando nos arquivos.

Era simples, mas eu me sentia útil. Até ouvir comentários.

— Você é lenta, menina.

— Presta atenção, Melanie.

— Parece que não pensa.

Eu engolia seco. Precisava do emprego.

Depois, trabalhei em um restaurante, como caixa. Foi pior. Cliente acha que pode falar o que quiser quando vê alguém pobre atrás do balcão.

— Anda logo, garota.

— Você errou de novo?

— Gente assim nem devia estar aqui.

Eu sorria. Sempre sorria. Porque precisava do salário.

Sei que a humilhação vai me acompanhar em muitos lugares. Não sou ingênua. Sou pobre. Não tenho sobrenome importante. Não tenho quem me indique. E ainda por cima sou atrapalhada. Tropeço nas minhas próprias pernas, literalmente. Já caí sozinha no meio da rua, já deixei bandeja cair, já derrubei copo, já me embolei com palavras simples.

— Meu Deus, Melanie, você é um desastre — já ouvi rirem.

Sou. Às vezes sou mesmo.

Mas também sou a menina que segurou a família quando tudo desabou. Sou a irmã que virou mãe cedo demais. Sou a filha que cumpriu a promessa feita diante da cama de um pai doente.

Às vezes, chego em casa cansada, sento na cama e olho pro teto. Penso no meu pai. No jeito que ele me chamava.

— Minha Melzinha, meu pote de mel.

Fecho os olhos e deixo uma lágrima cair. Não de fraqueza. De saudade.

Minha mãe ainda luta todos os dias. Meus irmãos estão crescendo. Um deles já fala em faculdade. Quando ouço isso, meu coração aperta e sorri ao mesmo tempo. Talvez tudo tenha valido a pena.

Eu sei que o mundo não é gentil com gente como eu. Sei que vou tropeçar mais vezes. Sei que vou ouvir risadinhas, olhares de cima pra baixo, palavras duras.

Mas também sei quem eu sou.

E enquanto eu tiver força nas pernas, mesmo tropeçando nelas, eu continuo andando.

Porque eu aprendi cedo que parar nunca foi uma opção.

Eu só tive um namorado na vida. Um único. E foi ele quem acabou com toda a minha ilusão de amor.

O nome dele era Alan.

Meu vizinho. Conhecido no bairro, popular, daqueles que todo mundo elogia. Ele sempre aparecia com uma bala pro meu irmão, um chocolate pra mim, um sorriso fácil. Eu achava aquilo bonito. Atenção. Cuidado. Hoje sei que não era.

Alan era um pouco mais velho. Já tinha morado no exterior, gostava de contar histórias, fazia questão de parecer interessante. Um dia, do nada, ele disse que estava apaixonado por mim.

— Eu gosto de você, Mel.

Eu fiquei boba. De verdade. Ninguém nunca tinha me olhado daquele jeito. Ou pelo menos eu achei que era daquele jeito. Pensei que finalmente alguém tinha me escolhido.

Começamos a namorar. Coisa simples. Conversa na porta, sentar no sofá, filme, risada baixa pra não chamar atenção. Eu acreditava. Acreditava mesmo.

Até aquele domingo.

Minha mãe foi para a casa da minha avó com meus irmãos. Eu trabalhei só até o horário do almoço no restaurante. Quando saí, Alan já estava me esperando com a moto.

— Eu te levo pra casa — ele disse.

Aceitei. Como sempre.

Entramos. Sentamos no sofá. Tudo normal. Conversa boba, televisão ligada. Até que o clima mudou. Ele ficou mais perto. Falou em dar um passo a mais.

— A gente já namora, Mel. — ele disse, sorrindo de um jeito diferente.

Antes que eu entendesse, a mão dele estava no meu corpo. Nos meus seios. Meu coração disparou. Eu me afastei na mesma hora.

— Não, Alan. Para.

— Qual é!

— Eu não quero. Eu não penso em fazer nada antes de casar.

Era meu sonho. Sempre foi. Casar virgem. Ele riu. Um riso frio.

— Eu nunca vou casar com você.

— Então por que tá comigo? — perguntei, confusa.

Ele respondeu sem hesitar, como se não fosse nada.

— Porque você é bonitinha.

Foi ali que tudo desmoronou. Eu tentei levantar. Tentei me afastar. Disse não. Disse várias vezes. Mas ele não ouviu. Ele me segurou. Tapou minha boca. Meu corpo travou. Minha cabeça gritava, mas minha voz não saía.

Alan me violentou no sofá da minha casa.

Quando acabou, ele se levantou, ajeitou a roupa e foi embora como se nada tivesse acontecido. Como se não tivesse arrancado algo de mim que eu guardava para um momento especial.

Eu fiquei ali. Parada. O corpo doendo. A alma em pedaços.

Levantei devagar. Peguei um pano molhado e limpei o sofá. Ainda bem que era de couro. Esse pensamento me envergonha até hoje, mas foi o que passou pela minha cabeça naquele momento. Eu só queria apagar qualquer vestígio. Qualquer prova. Qualquer lembrança.

Depois, fui pro banho. A água caía e eu chorava em silêncio. Chorava de vergonha. De medo. De nojo. De culpa, mesmo sabendo, lá no fundo, que eu não tinha culpa nenhuma.

Me olhei no espelho e quase não me reconheci.

— Fica quieta — eu disse pra mim mesma. — Ninguém precisa saber.

E decidi. Naquele dia, naquele banheiro, eu decidi não contar a ninguém. Nem pra minha mãe. Nem pra amigas. Pra ninguém. Decidi também que nunca mais deixaria outro homem chegar tão perto de mim.

Alan não levou só minha ilusão de amor.

Ele levou minha confiança.

Meu sonho.

Uma parte de quem eu era.

E desde então, eu carrego isso sozinha. Em silêncio. Como aprendi a fazer desde muito cedo. E nunca mais deixei homem nenhum, chegar tão perto de mim.

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