Mundo ficciónIniciar sesiónErick Narrando
Há algum tempo, o RH veio até mim com uma proposta. Um projeto social, segundo eles. Parceria com instituições, oportunidade para jovens entre 18 e 23 anos, primeiro contato com o mercado corporativo. Estagiários. — Precisamos da sua autorização final, Erick — disseram. Assenti sem dar muita atenção. Sinceramente, aquilo não estava no topo das minhas prioridades. Estágio nunca foi algo que me interessasse acompanhar de perto. Para mim, resultado sempre falou mais alto do que discurso bonito. O problema é que o RH voltou. Uma vez. Duas. Três. — A empresa vai concorrer a uma premiação estadual com esse projeto — explicaram, insistentes. Foi aí que aceitei. Não por caridade. Por estratégia. A primeira etapa ficou totalmente nas mãos deles: análise de currículo, perfil psicológico, entrevistas iniciais. A segunda etapa, no entanto, seria comigo. Do meu jeito. No fim da tarde, deixaram uma pasta sobre minha mesa. Currículos impressos, relatórios anexados, avaliações detalhadas. Abri por obrigação. Passei o olho por cima. Rapidamente. Tudo igual. Mesmas palavras bonitas. Mesmas promessas. Mesmos objetivos genéricos. Papel não me diz nada. Nunca disse. Eu gosto de pressionar olhando nos olhos. Ver quem sustenta o olhar, quem treme, quem mente, quem aguenta. É ali que eu decido se alguém me serve ou não. Currículo não define caráter. Nem resistência. Fechei a pasta e fiz o que sempre faço: escolhi de forma aleatória. Cinco garotas. Cinco nomes. Cinco horários. Uma delas trabalhará diretamente comigo. Isso não estava no plano inicial do RH, mas eu decidi. Quero ver quem aguenta a rotina. Quem sobrevive à pressão. Espero que dure pelo menos um mês. A maioria não passa da primeira semana. Quando já estava pronto para encerrar o dia, recebi uma ligação. — Erick, preciso te avisar de uma mudança em um dos projetos institucionais — disse o diretor de comunicação, cauteloso demais. — Fala. — A Fundação D'Ávila decidiu o rosto da Campanha. — Quem? — perguntei, sentindo um incômodo estranho no estômago. Houve um segundo de silêncio antes da resposta. — Angel. O nome bateu como um soco. — Como é que é? — minha voz saiu baixa, perigosa. — Ela vai estar na cidade nos próximos meses. É a cara do projeto. A decisão já foi aprovada. A decisão. Sem me comunicar. Sem me consultar. — Se não fosse a reputação da Corsan, eu tiraria o patrocínio agora mesmo. — rosnei. — Vocês têm ideia do que estão fazendo? — Erick. — Não. Chega. Desliguei. — Desgraçada maldita — murmurei, fechando os punhos. Saí da empresa batendo a porta do escritório. Os corredores ficaram em silêncio. Não me importei. Entrei no carro com a cabeça em ebulição. Só de pensar que, em poucos meses, eu estaria no mesmo ambiente que Angel, meu corpo reagia. O sono simplesmente não veio naquela noite. Rolei na cama. Levantei. Sentei. Deitei de novo. A imagem dela insistia em aparecer. O sorriso falso. A traição pública. A humilhação que quase me quebrou anos atrás. Quando finalmente o dia clareou, eu me sentia exausto. Levantei com o corpo pesado, a mente lenta. Tomei a medicação indicada pelo médico para noites mal dormidas. Cochilei em intervalos curtos. Nada profundo. Nada reparador. Decidi nadar. A piscina estava fria. Do jeito que eu gosto. Entrei sem pensar. A água gelada despertou meus músculos, trouxe o foco de volta. Cada braçada era uma tentativa de expulsar pensamentos que não me serviam mais. Fiquei ali até o corpo reagir. Depois, banho. Demorado. Água quente. Silêncio. Vesti um terno escuro, simples. Sem excessos. Na cozinha, apenas um café preto. Forte. Amargo. Como eu. Peguei as chaves e saí. O caminho até a empresa foi automático. Quando cheguei, o prédio já estava em movimento. Entrei direto. Elevador. Último andar. Minha sala. Hoje não será um dia qualquer. Hoje eu escolherei minha nova assistente estagiária. Cinco garotas aguardavam em salas separadas. Cinco histórias que eu ainda não conhecia. Uma delas pisaria todos os dias no meu território. Trabalharia sob meu olhar. Sob minha cobrança. Ajustei os punhos da camisa, respirei fundo e me levantei. — Assim que as candidatas estiverem prontas, pode chamar uma por uma. O Dia passou corrido, e o almoço com a diretoria durou mais que o esperado. Assim que abri o meu computador, já tinha uma matéria, estampada. O evento beneficente da Fundação D’Avila, patrocinado pela empresa Corsan, anunciou sua presença na lista de convidados. Top model, capa da Vogue, palestrante sobre empoderamento feminino. Quase ri. A mulher que um dia me fez acreditar que o amor era um investimento seguro agora discursava sobre poder. Bonito isso. Cínico, mas bonito. E foi ali que decidi: se ela vai estar lá, eu também vou. Mas não sozinho. Nem por baixo. A diferença entre o homem que ela abandonou e o homem que vai aparecer naquele salão é simples: agora eu jogo com as cartas à mostra e com a vantagem de quem já não sente nada. — Senhor Ribeiro? — a voz da minha secretária me arrancou dos pensamentos. — Diga, Ananda. — A Última candidata, está disponível. Posso mandar entrar? Olhei para o relógio. Eram quase três da tarde. Eu já devia estar encerrando o expediente, já que amanhã eu viajo logo cedo, mas alguma parte de mim gostava de testar o nervosismo dos recém-chegados. As últimas quatro, foram uma negação. Vamos ver se essa semana escapa. — Mande entrar. Ouvi a porta se abrir com um estalo discreto. E, em seguida, passos leves, incertos. Quando ergui os olhos, vi uma garota parada à frente da mesa e por um instante, o contraste entre nós me arrancou um meio sorriso. Ela devia ter, no máximo, vinte e poucos anos. O cabelo castanho preso num coque desalinhado, e uma pasta contra o peito como se fosse um escudo. Vestia uma calça social simples e uma camisa branca que, claramente, não fora feita sob medida. Não havia nada de extraordinário nela. E, ainda assim, havia algo desarmante. — Boa tarde, senhor Ribeiro. — a voz saiu suave, trêmula. — Eu sou a Melanie. Melanie Duarte. — Eu sei quem é. — apoiei o cotovelo sobre a mesa, estudando-a como quem analisa uma equação complexa. — A nova aprendiz, certo? Ela assentiu, mordendo o lábio inferior. — Sim, senhor. É… é uma oportunidade incrível trabalhar aqui. Eu… agradeço muito por… — Respira. — interrompi, sem alterar o tom. — Está parecendo que vai desmaiar. Ela piscou rápido, surpresa. — Desculpe. É que… é o meu primeiro emprego de verdade. — E o primeiro susto também, imagino. — inclinei me ligeiramente para frente. — Dica profissional: não peça desculpas por respirar. Aqui, fraqueza tem cheiro, e quem sente esse cheiro, morde. Ela pareceu engolir as palavras, e por um segundo, percebi a pontada de medo misturada à determinação nos olhos dela. Interessante. Enquanto ela falava, sobre a faculdade, o estágio, os sonhos modestos de crescer na área, eu observava mais do que ouvia. Os gestos pequenos, as pausas, a forma como desviava o olhar e depois voltava, teimosa. Era o tipo de inocência que o mundo ainda não conseguiu corromper. E talvez por isso chamasse tanto atenção. Quando ela terminou, fiz um breve silêncio. — Está contratada. — Mas, o senhor nem me entrevistou direito. — Não preciso. — dei de ombros. — Já vi o suficiente. Ela arregalou os olhos, confusa. — O suficiente pra quê? — Pra saber que vai me ser útil. Ela piscou, desconcertada, e eu deixei o peso das palavras pairar no ar antes de continuar: — Relaxe, senhorita Duarte. Não é uma ameaça. É um elogio. — me levantei, contornando a mesa com calma. — Ananda vai te mostrar a área de projetos amanhã cedo. Hoje, quero que descanse. Amanhã será um dia longo. Ela assentiu, claramente aliviada, mas antes que virasse as costas, acrescentei: — Ah, Melanie… Ela parou na porta. — Sim, senhor? — Não se atrase. Odeio desperdício de tempo. Ela abriu um pequeno sorriso, tenso, e saiu. Melanie, gostei de você.






