Erick

Erick Narrando

Meu nome é Erick Ribeiro, tenho 37 anos e chego à empresa todos os dias às oito da manhã, sem um minuto de atraso. Não por obrigação. Por disciplina.

O prédio ainda está despertando quando meu carro para na vaga reservada. O segurança se endireita no mesmo instante.

— Bom dia, senhor Erick.

Não respondo com palavras. Um aceno curto é suficiente. Aqui dentro, respeito não se pede. Se impõe.

O elevador sobe em silêncio. Meu reflexo no espelho devolve a imagem de um homem que não nasceu pronto, mas foi moldado na dor, no esforço e na perda. Quando as portas se abrem no último andar, o andar inteiro entra em alerta. Teclados param por um segundo. Conversas morrem no meio da frase. Cabeças se erguem.

— Bom dia, doutor Erick — dizem em coro contido.

Passo reto. Meus passos ecoam no piso de mármore como um aviso. Sou o CEO. O dono. O homem que começou pequeno e hoje comanda tudo isso.

Entro na minha sala e deixo o paletó sobre a cadeira. A parede de vidro me permite ver cada movimento lá fora. Gosto disso. Controle começa pela observação. Minha assistente b**e duas vezes antes de entrar.

— Sua agenda está cheia hoje. Reunião com o conselho às nove, videoconferência às onze e o contrato internacional chegou para assinatura.

— Café preto. Sem açúcar. E traga o contrato agora — digo, sem tirar os olhos do tablet.

— Sim, senhor.

Ela sai rápido. Aqui ninguém demora. Aprenderam cedo que tempo comigo é coisa séria.

Enquanto analiso números, minha mente volta para um lugar que nunca me abandona. A vida não foi fácil comigo. Sou o mais novo de cinco irmãos, criado na pobreza, onde faltar era regra e sonhar era luxo. Minha mãe. Respiro fundo.

Ela tinha a saúde frágil. Precisava de tratamento. De médico. De dinheiro que a gente não tinha. Eu era jovem demais para entender, mas velho o suficiente para sentir a injustiça rasgar por dentro. Vi minha mãe definhar porque o sistema não perdoa quem nasce pobre.

No dia do enterro, diante do caixão dela, eu fiz uma promessa. Não chorei. Cerrei os punhos.

— Eu nunca mais vou perder ninguém que eu amo por falta de dinheiro — murmurei, só pra mim e pra ela.

E cumpri.

Dos cinco irmãos, fui o único que estudou. Trabalhei de dia, estudei à noite, virei madrugada. Enquanto muitos dormiam, eu estava acordado planejando como sair do lugar onde a vida tentou me enterrar. Não foi talento. Foi garra. Persistência. Raiva canalizada.

Hoje, sou o pilar da minha família. Sustento meu pai, ajudo meus irmãos, pago estudos para os meus sobrinhos, resolvo problemas. Eles sabem: quando precisam, me ligam. Mesmo morando sozinho, mesmo prezando minha privacidade, eu estou presente. Sempre estive.

Meu telefone vibra sobre a mesa. Nome do meu pai na tela. Atendo na hora.

— Fala, pai.

— Só liguei pra saber se você tá bem, meu filho.

— Tô sim. Já resolvi a consulta de amanhã, o motorista passa aí às sete.

— Você não esquece de nada.

— Não posso esquecer. O que aconteceu com a mãe não vai se repetir.

Silêncio do outro lado. Depois, um suspiro carregado de emoção.

— Tenho orgulho de você.

Encerro a ligação e volto ao trabalho. Emoção guardada. Aqui fora, ela não manda.

Às nove em ponto, entro na sala de reuniões. Todos já estão sentados. Ninguém ousa chegar depois de mim.

— Vamos direto ao ponto — digo, apoiando as mãos na mesa. — Não estou aqui para ouvir desculpas. Quero soluções.

Um dos diretores engole seco antes de falar.

— Tivemos um atraso no setor logístico.

— Atraso não é problema — corto, firme. — Falta de preparo é. Corrija ou será substituído.

O silêncio pesa. Eles anotam. Eu decido.

Ser temido não é sobre gritar. É sobre coerência. Sobre cumprir o que se promete. Sobre não abrir exceções.

Quando a reunião termina, todos saem mais rápidos do que entraram. Fico sozinho, observando a cidade lá embaixo. Lembro do garoto pobre que fui. Do homem que enterrou a própria mãe sem poder salvá-la. Do juramento feito em voz baixa.

Hoje, eu mando. Hoje, eu protejo os meus.

E ninguém, absolutamente ninguém, tira isso de mim.

Fui casado por dois anos com Angel. A mulher mais linda que eu já tinha visto na vida. Daquelas que entram em um ambiente e faz todo mundo parar pra olhar. Elegante, sorriso perfeito, aparência de capa de revista.

Por fora, um sonho.

Por dentro, um diabo disfarçado.

No começo, eu acreditei. Acreditei no amor, na parceria, no crescer juntos. Eu ainda não era quem sou hoje. Naquela época, eu era apenas um diretor, alguém em ascensão, mas sem o poder que carrego agora. E isso, pra ela, nunca foi suficiente.

Quando aquela maldita me largou, não houve conversa, nem respeito. Em poucos dias, Angel já estava estampando capas de sites e colunas sociais, assumindo um romance público com outro CEO. Um homem que, na visão dela, valia mais.

Enquanto eu juntava os cacos, ela brindava champanhe.

Virei piada.

Meu nome foi mastigado por jornalistas de fofoca, por comentários maldosos, por gente que nunca fez nada da vida, mas adora ver alguém cair.

— Erick Ribeiro foi trocado por um nome maior do mercado — diziam.

— Ambição demais e poder de menos — escreviam.

Aquilo quase me destruiu. Não vou mentir. Teve noite em que cheguei em casa, larguei o terno no chão e fiquei encarando o vazio. Não por saudade dela. Mas pela humilhação. Pela sensação de ser descartável.

Mas eu sobrevivi a coisa pior.

Sobrevivi à pobreza.

Sobrevivi à perda da minha mãe. Não seria uma mulher que ia me quebrar.

Transformei a dor em combustível. Trabalhei como nunca. Assumi projetos que ninguém queria. Fiquei até depois da meia-noite. Dormi pouco. Pensei grande. Fui estratégico.

Enquanto ela sorria para as câmeras, eu construía meu nome nos bastidores.

Até que o dia chegou.

Reunião do conselho. Sala cheia. Clima pesado. O então CEO estava desgastado, decisões erradas, números caindo. Eu permaneci em silêncio, como sempre. Observando.

Um dos conselheiros quebrou o gelo.

— Precisamos falar sobre sucessão.

Outro completou:

— O nome do Erick Ribeiro vem sendo citado com frequência.

Levantei o olhar. Não disse nada.

— Resultados sólidos, liderança firme, visão de longo prazo — continuaram.

Quando a votação aconteceu, não houve discussão. Unânime.

Meu nome ecoou naquela mesa como sentença.

Hoje, faz cinco anos que estou à frente da empresa. Uma empresa sólida, forte, com sede em São Paulo e atuação em nível nacional. Crescemos, expandimos, conquistamos respeito no mercado. Hoje, meu nome não é mais nota de rodapé em site de fofoca. É referência.

E Angel? Virou passado.

Mas eu não esqueci.

Um dia, e esse dia vai chegar, eu vou mostrar, não pra ela, mas pro mundo inteiro, que eu sou melhor do que qualquer homem pelo qual ela achou que valia a pena me trocar.

E quando esse dia chegar, eu não vou dizer uma palavra.

Os status falaram por mim.

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Larissa De JesusCada livro uma superação amo, fiquei emocionada com esse capítulo lindo ...
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