Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu passei o resto do dia tentando fingir que minha vida ainda era normal.
Não estava funcionando.
O escritório Duarte & Associados sempre foi pequeno, mas organizado. Três salas, uma recepção, uma pequena sala de reuniões e uma copa que cheirava permanentemente a café forte. Eu conhecia cada canto daquele lugar como se fosse uma extensão da minha própria mente.
E talvez fosse.
Durante anos, aquele escritório tinha sido minha maior conquista.
Agora eu estava sentada atrás da mesa tentando me concentrar em um contrato empresarial enquanto uma única frase continuava voltando para minha cabeça.
Amanhã à tarde você vai se tornar minha esposa.
— Dra. Helena?
Levantei os olhos.
Clara estava parada na porta.
Minha assistente há quatro anos.
E provavelmente a única pessoa que conseguia perceber quando algo estava errado comigo.
— Sim?
Ela franziu levemente a testa.
— Você está lendo a mesma página há vinte minutos.
Fechei o documento lentamente.
— Apenas pensando.
Clara entrou na sala.
— Isso nunca é um bom sinal.
Inclinei-me na cadeira.
— Desde quando você virou psicóloga?
— Desde que comecei a trabalhar com advogados.
Não consegui evitar um pequeno sorriso.
Ela sentou na cadeira diante da minha mesa.
— Então… qual é o problema?
Hesitei.
Eu não costumava falar da minha vida pessoal no escritório.
Mas aquilo… não era exatamente pessoal.
Era um contrato.
Um acordo.
Uma loucura.
— Se alguém oferecesse muito dinheiro para você fazer algo completamente absurdo…
Clara cruzou os braços.
— Quanto dinheiro?
— Muito.
— Tipo… comprar um apartamento?
— Mais.
Ela estreitou os olhos.
— Helena.
Suspirei.
— Dois milhões de dólares.
Clara ficou completamente imóvel.
— Você está brincando.
— Não.
Ela piscou algumas vezes.
— O que você teria que fazer?
Olhei para o teto por um segundo.
Depois voltei o olhar para ela.
— Casar.
O silêncio que se seguiu foi tão pesado que eu quase consegui ouvi-lo.
Clara abriu a boca.
Fechou.
Depois abriu novamente.
— Casar?
— Sim.
— Com quem?
Peguei a caneta da mesa e comecei a girá-la entre os dedos.
— Arthur Valente.
O efeito foi imediato.
— O Arthur Valente?
— Existe outro?
Clara levantou da cadeira.
— O CEO da Valente Tech?
— O próprio.
Ela começou a andar pela sala.
— Isso é… isso é completamente insano.
— Eu mencionei isso.
— Ele é bilionário.
— Eu também mencionei isso.
Clara parou diante da minha mesa.
— Por que ele quer casar com você?
— Contrato.
— Como assim contrato?
— Casamento por contrato.
Ela ficou me encarando por alguns segundos.
— Isso é tipo… aqueles romances estranhos da internet?
— Aparentemente.
Clara colocou as mãos na cabeça.
— Helena.
— Sim?
— Você vai aceitar?
Eu não respondi imediatamente.
Porque aquela era exatamente a pergunta que eu vinha evitando o dia inteiro.
Clara me observava com atenção.
— Você já aceitou.
Não era uma pergunta.
— Ainda não.
— Mas vai.
Suspirei.
— Talvez.
Clara voltou a sentar.
— Qual é a pegadinha?
— Dezoito meses de casamento.
— Só isso?
— Aparições públicas.
— Ok.
— Eventos.
— Certo.
— Residência compartilhada ocasional.
Clara inclinou a cabeça.
— Isso não parece tão ruim.
— Exclusividade.
Ela piscou.
— Exclusividade?
— Nenhum relacionamento com outras pessoas.
Clara cruzou os braços.
— Isso começa a parecer estranho.
— E tem mais.
— Claro que tem.
Respirei fundo.
— A empresa dele está sendo sabotada.
— O quê?
— Ele acha que alguém próximo está tentando destruí-lo.
Clara ficou em silêncio por alguns segundos.
— E você vai se meter nisso?
— Eu não pretendo.
— Mas vai acontecer.
Provavelmente.
Passei a mão pelos cabelos.
— O casamento seria amanhã.
Clara quase caiu da cadeira.
— AMANHÃ?
— Sim.
Ela ficou me encarando como se estivesse tentando decidir se eu estava delirando.
— Helena… isso é loucura.
— Eu sei.
— Você nem conhece esse homem.
— Eu conheço o suficiente.
— O suficiente para casar?
Olhei para a mesa.
Para os papéis.
Para os anos que eu tinha passado construindo aquele escritório.
— O suficiente para salvar isso.
Clara seguiu meu olhar.
— Você realmente está pensando em aceitar.
— Estou pensando em sobreviver.
O silêncio voltou à sala.
Depois de alguns segundos, Clara suspirou.
— Ele é bonito pelo menos?
Levantei os olhos.
— O quê?
— Eu só estou tentando encontrar algum ponto positivo nessa história completamente maluca.
Não consegui evitar uma pequena risada.
— Sim.
— Muito?
Pensei em Arthur parado diante da janela, os olhos cinzentos, a postura perfeitamente controlada.
— Infelizmente.
Clara bateu as mãos na mesa.
— Então pronto.
— Isso não ajuda.
— Ajuda sim.
— Como?
— Porque se você vai se meter em um casamento absurdo com um bilionário misterioso…
Ela deu de ombros.
— Pelo menos ele é bonito.
Balancei a cabeça.
— Você é impossível.
— Eu sou prática.
— Eu achei que essa fosse minha função.
Clara sorriu.
— Então seja prática.
Ela apontou para mim.
— Você precisa do dinheiro.
— Sim.
— Ele precisa de uma esposa convincente.
— Sim.
— Vocês dois são adultos.
— Sim.
Clara abriu os braços.
— Parece um contrato perfeito.
Fiquei em silêncio.
Porque a lógica dela era desconfortavelmente convincente.
Clara levantou-se.
— Você já decidiu.
— Ainda não.
— Já sim.
Ela caminhou até a porta.
Antes de sair, virou-se para mim.
— Só tem uma pergunta que você precisa responder.
— Qual?
Clara sorriu levemente.
— Você confia nele?
Fiquei olhando para a porta depois que ela saiu.
A pergunta ficou girando na minha cabeça.
Você confia nele?
Não.
Claro que não.
Mas confiança nunca fez parte daquele contrato.
Peguei meu telefone.
Olhei para o número que Arthur tinha usado mais cedo.
Fiquei alguns segundos observando a tela.
Depois disquei.
Ele atendeu antes mesmo do segundo toque.
— Helena.
A voz dele parecia quase satisfeita.
— Eu tenho uma condição.
— Estou ouvindo.
Respirei fundo.
— Se vamos fazer isso…
— Vamos.
— Então eu quero total transparência.
— Já temos essa cláusula.
— Não estou falando do contrato.
Silêncio.
— Estou falando de você.
Arthur demorou alguns segundos para responder.
— O que exatamente você quer saber?
Olhei pela janela do meu escritório.
A cidade começava a escurecer novamente.
Minha vida estava prestes a mudar completamente.
— Tudo.
A resposta dele veio baixa.
Quase calma demais.
— Então acho melhor você vir aqui.
— Por quê?
Arthur fez uma pequena pausa.
E então disse:
— Porque minha família acabou de descobrir que eu vou me casar.
Meu coração bateu mais forte.
— E isso é um problema?
A resposta veio imediatamente.
— Muito.







