Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu não saí do escritório imediatamente.
Minha mão ainda estava na maçaneta quando as palavras de Arthur terminaram de ecoar no silêncio da sala.
Alguém está tentando destruir minha empresa.
Lentamente, virei o corpo de volta para ele.
Arthur ainda estava sentado atrás da mesa, como se tivesse acabado de comentar algo trivial, como o clima ou o trânsito da cidade.
Mas os olhos cinzentos estavam atentos.
Observando cada reação minha.
Caminhei alguns passos de volta.
— Você pretende explicar isso melhor?
Arthur apoiou as mãos sobre a mesa de mármore.
— Eu acabei de explicar.
— Não.
Cruzei os braços.
— Você lançou uma frase dramática e espera que eu simplesmente aceite.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Você é advogada.
— Exatamente.
— Então sabe que algumas informações precisam ser reveladas no momento certo.
Soltei uma pequena risada sem humor.
— Não quando estou assinando um contrato de casamento com um homem que aparentemente tem inimigos suficientes para justificar esse tipo de frase.
Arthur levantou-se.
Ele era mais alto do que eu tinha percebido na noite anterior.
Ou talvez fosse apenas a proximidade.
Caminhou lentamente até a janela, as mãos nos bolsos do terno.
— A Valente Tech cresceu rápido demais nos últimos anos.
— Isso acontece quando se cria uma empresa bilionária.
— Também acontece quando se cria inimigos.
A chuva lá fora tinha ficado mais forte. Pequenas gotas escorriam pelo vidro enorme que ocupava toda a parede do escritório.
Arthur continuou olhando a cidade.
— Nos últimos seis meses, alguns contratos desapareceram.
— Desapareceram?
— Empresas que estavam prestes a fechar negócios conosco simplesmente… desistiram.
— Concorrência.
— Não.
Ele virou o rosto para mim.
— Sabotagem.
Fiquei em silêncio por alguns segundos.
— E você acha que casar comigo vai resolver isso?
Arthur caminhou de volta até a mesa.
— Não.
Ele pegou o contrato.
— Mas ajuda.
— Como?
— Estabilidade.
— Estabilidade?
— Investidores gostam de estabilidade.
Balancei a cabeça.
— Investidores gostam de lucro.
Arthur deu um pequeno sorriso.
— Você realmente é difícil de impressionar.
— Eu sou difícil de convencer.
Ele parou diante de mim novamente.
Perto.
Perto demais.
— É exatamente por isso que eu escolhi você.
Meu olhar estreitou.
— Você continua dizendo isso como se eu devesse me sentir honrada.
— Não é honra.
— Então o que é?
Arthur não respondeu imediatamente.
Os olhos dele pareciam analisar algo no meu rosto.
— Confiança.
A palavra ficou suspensa entre nós.
— Você disse que não confia em ninguém.
— Eu disse que não confio facilmente.
— Isso não explica por que eu.
Arthur pegou a pasta que tinha me mostrado mais cedo.
Folheou alguns documentos.
Depois retirou um recorte de jornal.
Colocou na mesa entre nós.
Olhei para o papel.
Era uma reportagem antiga.
De três anos atrás.
Meu processo contra a Valente Tech.
Reconheci imediatamente.
— Esse foi o primeiro processo que alguém ganhou contra sua empresa.
— Sim.
— Você perdeu milhões.
— Sim.
Levantei os olhos.
— E mesmo assim quer casar comigo.
Arthur assentiu lentamente.
— Porque você ganhou de forma limpa.
Franzi a testa.
— Eu sempre ganho de forma limpa.
— Nem todos os advogados fazem isso.
Silêncio.
Ele continuou.
— Você recusou um acordo milionário.
— Porque meu cliente tinha razão.
— Exatamente.
Arthur cruzou os braços.
— Você não é manipulável.
— Isso deveria me tornar uma péssima escolha para um casamento falso.
— Ou a melhor possível.
Eu ainda estava tentando entender a lógica dele.
— Você poderia contratar qualquer atriz, modelo ou socialite desta cidade.
— Poderia.
— Então por que não fez isso?
Arthur pegou o contrato novamente.
Passou os dedos lentamente pelas páginas.
— Porque eu preciso que as pessoas acreditem.
— Acreditem em quê?
— Que esse casamento é real.
O silêncio voltou.
Meu olhar caiu para o documento.
Senhora Valente.
Ainda parecia estranho pensar nisso.
Arthur observava cada reação minha.
— Está arrependida?
— Não.
Levantei os olhos novamente.
— Ainda não.
Ele deu um pequeno sorriso.
— Bom.
— Mas isso não significa que eu não tenha perguntas.
— Faça.
— Quem exatamente está tentando destruir sua empresa?
Arthur ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois respondeu:
— Ainda não sei.
— Isso é reconfortante.
— Mas tenho suspeitas.
— Quais?
Ele apoiou as mãos na mesa novamente.
— Pessoas muito próximas.
Meu estômago apertou levemente.
— Família?
Arthur não respondeu.
E o silêncio dele respondeu tudo.
Respirei fundo.
— Então deixe-me ver se entendi.
Comecei a contar nos dedos.
— Você precisa de um casamento convincente para manter investidores tranquilos.
— Correto.
— Sua empresa está sendo sabotada.
— Sim.
— E o possível responsável pode estar dentro da sua própria família.
Arthur assentiu.
Inclinei a cabeça.
— E você acha que casar comigo vai ajudar a resolver isso.
— Eu acho que você vai perceber coisas que eu talvez não perceba.
— Eu não trabalho para você.
— Não.
Ele apontou para o contrato.
— Você é minha esposa.
— Por dezoito meses.
— Tempo suficiente.
Suspirei.
Aquilo estava ficando cada vez mais complicado.
— Existe mais alguma coisa que eu deveria saber?
Arthur pensou por um momento.
— Sim.
— Ótimo.
— O casamento precisa acontecer rápido.
— Quão rápido?
Ele pegou o celular sobre a mesa.
Olhou a tela.
Depois voltou o olhar para mim.
— Amanhã.
Fiquei olhando para ele por alguns segundos.
Esperando que ele estivesse brincando.
Ele não estava.
— Você enlouqueceu.
Arthur parecia perfeitamente tranquilo.
— O cartório já está reservado.
— Você reservou um cartório antes mesmo de eu aceitar.
— Eu estava confiante.
— Isso não é confiança.
— O que é então?
Cruzei os braços novamente.
— Prepotência.
Ele sorriu.
Dessa vez sem tentar esconder.
— Talvez.
Caminhei alguns passos pelo escritório, tentando organizar meus pensamentos.
— Amanhã é impossível.
— Não.
— Eu tenho uma vida.
— Ainda terá.
— Eu tenho um escritório.
— Ainda terá.
— Eu tenho clientes.
— Eles continuarão existindo.
Parei de andar.
— Você não entende.
— O quê?
— Casamento não é algo que você simplesmente agenda entre duas reuniões.
Arthur inclinou a cabeça.
— Para mim é.
Aquilo me fez rir.
De verdade dessa vez.
— Você é inacreditável.
— Isso é um sim?
Voltei a encará-lo.
Arthur Valente estava ali, perfeitamente calmo, como se estivesse discutindo a compra de uma empresa, não um casamento.
Meu coração ainda estava acelerado.
Mas não de medo.
Era outra coisa.
Desafio.
— Isso é um talvez.
Ele assentiu lentamente.
— Para alguém que não mistura sentimentos com negócios…
Arthur fez uma pequena pausa.
— Você parece bastante envolvida.
Peguei minha bolsa da cadeira.
— Eu estou envolvida em um contrato.
Caminhei até a porta novamente.
Antes de sair, virei o rosto para ele.
— E contratos precisam de planejamento.
Arthur apoiou-se levemente na mesa.
— Então planeje rápido.
— Por quê?
Ele respondeu com a mesma calma de sempre.
— Porque amanhã à tarde…
Os olhos cinzentos se fixaram nos meus.
— Você vai se tornar minha esposa.







