Mundo de ficçãoIniciar sessãoSofisticada, porém marcada por cicatrizes do passado, Isadora, 29 anos, vive uma vida solitária em uma cidade litorânea, tentando escapar de um trauma amoroso. Quando Lorenzo, um arquiteto introvertido e emocionalmente fechado, retorna à cidade após anos, seus caminhos se cruzam de forma inesperada. Ambos carregam feridas que não cicatrizaram. Mas e se a cura estivesse exatamente no confronto entre suas dores?
Ler maisEnquanto caminha em direção à padaria dos pais, localizada ao lado de sua casa, Marina ajusta sua camisa branca social. Por mais que sua aparência transmita confiança, ela não pode negar que, por dentro, está nervosa. E não é para menos, afinal, este dia marca o início de sua carreira.
Apesar de ser filha de pais humildes, ela estudou com afinco para não seguir o mesmo caminho. Formou-se em Direito e agora está prestes a trabalhar em um dos escritórios mais renomados do país. Embora ainda não seja advogada, o cargo de assistente jurídica é um excelente começo para sua trajetória.
— Bom dia, pai — cumprimenta Marina, ao avistar José, que está do outro lado do balcão, reabastecendo o estoque de pães.
— Bom dia, Mari. Você está linda, minha querida — responde ele, admirando o modo como ela está vestida. — Sente-se, sua mãe já vai servir o seu café.
— Tudo bem.
Marina se senta em uma das mesas próximas à porta. Dali, ela pode observar a rua e os clientes que entram na padaria. O local está cheio, e uma fila começa a se formar no balcão. Normalmente, ela auxiliaria os pais naquele horário, mas hoje, não pode arriscar sujar sua roupa.
Daniela, sua mãe, se aproxima com um copo de suco e uma coxinha de frango.
— Aqui está, Mari — diz ela, dando um beijo carinhoso na testa da filha. — Coma bem e vá logo, senão perderá o ônibus.
— Tudo bem, mãe — responde Marina, mordendo um pedaço do salgado.
Enquanto sua mãe volta a atender os clientes, Marina olha pela janela e vê um carro luxuoso parar em frente à padaria. Seus olhos brilham. Não é segredo que Marina tem grandes ambições e que possuir um carro como aquele é um de seus sonhos.
Do carro, desce um homem alto e bem-vestido, com uma expressão impaciente. Ao entrar na padaria, ele mapeia rapidamente o ambiente com os olhos, até que, por um instante, seu olhar negro encontra os olhos azuis de Marina, que o observa com curiosidade. Ela nunca viu aquele homem por ali.
Ignorando Marina, o homem se aproxima do balcão e, com impaciência, ordena:
— Ei, você aí! — ele chama, em tom ríspido. — Quero um refrigerante e um pedaço de torta para a viagem, seja rápida! Não tenho o dia todo!
Daniela, sempre gentil, mantém a calma. Ela está acostumada a lidar com clientes rudes ocasionalmente, mas aquele homem é diferente, sua arrogância parece quase intocável. — Um momento, senhor, estamos atendendo outro cliente — responde ela com um sorriso educado.
O homem ofega, impaciente, e b**e com força no balcão, fazendo um estrondo que atrai a atenção de todos.
— Eu disse que estou com pressa! — ele vocifera, com a voz ecoando pelo pequeno ambiente. — Vocês precisam aprender a atender mais rápido do que ficar conversando fiado.
Marina, que assiste à cena em silêncio, sente o sangue ferver. Ver sua mãe sendo tratada daquela maneira faz a indignação crescer dentro dela. Aquela atitude é intolerável, ainda mais em um local onde sempre prevalecem o respeito e a cordialidade. Sem hesitar, Marina se levanta e caminha decidida até o homem. Sua postura firme chama a atenção de todos. Até mesmo José, que normalmente evita conflitos, observa a filha com preocupação.
— Com licença, senhor — interrompe Marina, sua voz é firme e controlada. O homem se vira para ela, surpreso com o confronto. — Parece que você não aprendeu o que é respeito, não é mesmo?
— E quem você pensa que é para falar comigo assim? — retruca, com um olhar carregado de desdém.
— Sou alguém que não vai tolerar grosseria e desrespeito com pessoas trabalhadoras e honestas — responde Marina, sem se deixar intimidar. — Se está com pressa, deveria ter planejado melhor seu tempo, em vez de descontar sua frustração em quem está apenas fazendo seu trabalho. O homem abre a boca para responder, mas Marina não lhe dá espaço. — E a propósito, o senhor não é o único cliente aqui. Todos estão esperando pacientemente, porque entendem que educação e paciência são valores básicos em uma sociedade civilizada. Se quer ser atendido, sugiro que espere sua vez, como qualquer outra pessoa decente faria. — Marina se aproxima mais, seus olhos estão fixos nos dele. — E se não consegue fazer isso, a porta está logo ali. Tenho certeza de que existe algum lugar onde a grosseria é tolerada, mas aqui não é esse lugar.
O homem, confrontado por Marina, não demonstra o menor abalo. Ele cruza os braços devagar e um sorriso enviesado, carregado de ironia cruel, surge no canto de seus lábios.
— Ah, então é isso? — diz ele, com a voz transbordando sarcasmo, olhando para Marina de cima a baixo, como se ela fosse um incômodo menor. — Você saiu do seu lugar para me dar uma lição de moral? — Ele ri, um som baixo e desdenhoso, claramente apreciando seu próprio escárnio.
— Por favor, não se alterem — interrompe José, tentando evitar o pior. Ele embala o pedaço de torta e pega o refrigerante. — Aqui está, senhor. Espero que entenda, todos têm suas responsabilidades, e acredito que o senhor também tenha compromissos importantes.
José entrega o pedido ao homem, que tira algumas notas de dinheiro do bolso e as j**a no balcão, olhando diretamente para Marina com um sorriso de vitória.
— Pode ficar com o troco — diz ele, virando as costas e saindo, ignorando os olhares dos clientes que aguardam pacientemente na fila e, principalmente, o olhar indignado de Marina.
Sentindo sua raiva aumentar, Marina segue o homem até o lado de fora, impedindo-o de entrar em seu carro.
— Escuta aqui, seu mal-educado — ela declara, em voz alta. O homem, ainda sorrindo, se vira lentamente, arqueando uma sobrancelha. — É melhor não aparecer mais por aqui ou farei questão de furar os pneus de seu carro, está me ouvindo?
O sorriso desaparece dos lábios do homem, que agora se aproxima lentamente. Sua expressão se torna assustadoramente fria.
— Acha mesmo que eu gostaria de frequentar uma espelunca como essa? — retruca com desdém. — Mas se eu quiser voltar, eu volto. Ninguém me diz o que fazer — conclui, sua voz gélida demonstra total desprezo pelas palavras de Marina.
Ele entra em seu carro e sai, deixando Marina parada o observando partir.
— Quem esse idiota pensa que é para falar desse jeito?
A folha de papel continuava no chão como um segredo maldito que se recusava a desaparecer.Isadora encarava aquelas palavras como se fossem um eco de um tempo que lutara tanto para esquecer. O nome “Gabriel”, escrito com precisão e calma, a atingia com força crua, como se cada letra rasgasse um pedaço da segurança que ela vinha construindo dia após dia.Não havia sinal de quem a deixara ali. Nenhuma pegada, nenhum som. Apenas aquele aviso sutil: ele sabia onde ela estava.Tentou inspirar fundo, mas o ar parecia mais denso. Pegou o envelope com dedos trêmulos e o colocou debaixo de uma pilha de livros no balcão, como se o peso da ficção pudesse proteger a realidade de entrar em colapso.Tomou o chá quase frio da manh
O som das ondas quebrando nas pedras abaixo do farol era o único ruído constante naquela noite úmida.Isadora ainda estava ao lado de Lorenzo, sentada com os joelhos abraçados contra o peito, olhando o mar como se ele pudesse oferecer respostas. O vento do alto do penhasco era mais frio ali, trazendo com ele memórias que insistiam em doer.Ela notou a mudança sutil no rosto dele assim que a notificação do celular apareceu. Era quase imperceptível — um leve tensionar da mandíbula, o olhar que se desviava, o corpo que enrijeceu. Mas ela conhecia aquele tipo de silêncio.— Lorenzo... quem é "G"?Ele demorou a responder. A tela do celular continuava acesa, revelando apenas o nome da pessoa e o trecho da mensagem.“Precisamos
A noite caiu como um véu denso sobre Arraial da Costa. A cidade parecia mais silenciosa do que o normal, como se até as ondas tivessem decidido respeitar os pensamentos de Isadora.Ela sentou-se na poltrona da sala, o envelope de Lorenzo sobre a mesinha, ao lado de uma caneca de chá já esquecida. A foto que ele deixara havia sido colocada em um pequeno porta-retrato improvisado, ao lado do livro que ele não levara.Aquela memória — os três juntos no farol — ainda latejava. Elisa, com seus cabelos cacheados voando ao vento. Lorenzo, com um sorriso que raramente mostrava agora. Ela mesma, com olhos que ainda não conheciam o gosto da decepção.Quando o celular vibrou sobre a mesa, o som abrupto a fez estremecer. Era tarde. O número era desconhecido.Atendeu hesitante.
O céu estava cinzento naquela manhã, como se o próprio tempo hesitasse em recomeçar.Lorenzo caminhava devagar pela orla, os sapatos sujos de areia molhada e as mãos enterradas nos bolsos da calça. O vento do mar soprava com umidade e sal, bagunçando ainda mais seus cabelos já desordenados. Havia algo de cruel em voltar — como pisar em ruínas que você mesmo ajudou a erguer e depois abandonou.Ele passou em frente ao antigo mercado municipal, que agora funcionava como um café-restaurante com fachada azul claro. Reconhecia cada esquina, cada farol enferrujado, cada banco de praça. Mas tudo parecia menor — ou talvez fosse ele que tivesse crescido torto demais.A conversa com Isadora o acompanhava como um eco. Ela estava... diferente. Mais contida, mais forte — e ao mesmo tempo, mais frágil nas bordas. Como se o silênci





Último capítulo