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Capítulo 8 - Tensões Não Ditas

O convite chegou de forma inesperada, mas não surpreendente. Um jantar informal promovido por parceiros estratégicos da empresa de Diogo, em um restaurante discreto, frequentado por pessoas que sabiam exatamente o quanto podiam aparecer. Não era um evento oficialmente público, mas suficientemente próximo disso para exigir cuidado.

Melina leu a mensagem duas vezes antes de erguer o olhar para Diogo.

— Você vai — disse ele, direto, como se fosse óbvio.

— Você sempre começa assim — respondeu ela. — Afirmando.

— Estou apenas antecipando a decisão lógica.

— A lógica não considera vontades — ela rebateu.

Ele respirou fundo.

— Considere um teste — disse. — Um ambiente controlado. Poucas pessoas. Sem exposição direta.

— Você transforma tudo em experimento — comentou.

— Funciona — respondeu ele.

Ela hesitou. Parte dela queria recusar apenas para manter o território. Outra parte reconhecia que fugir constantemente não ajudaria.

— Um jantar — disse por fim. — Nada além disso.

— Combinado.

O restaurante era elegante sem ser ostentoso. Iluminação baixa, mesas bem espaçadas, conversas medidas. Melina sentiu os olhares assim que entrou ao lado de Diogo. Não eram curiosos, eram avaliativos.

Ela se manteve ereta, consciente de cada gesto. Diogo parecia confortável naquele ambiente, movendo-se com naturalidade entre cumprimentos e sorrisos controlados.

— Você está indo bem — ele murmurou em determinado momento.

— Isso soa como avaliação — ela respondeu.

— É observação — corrigiu.

Em uma mesa próxima, uma mulher se aproximou. Alta, segura, sorriso fácil.

— Diogo — disse ela. — Quanto tempo.

— Helena — respondeu ele, com familiaridade.

Melina sentiu algo estranho no peito ao perceber a intimidade no tom. Nada que quisesse admitir.

— Não sabia que você estava acompanhado — Helena continuou olhando para Melina. — Prazer.

— Melina — disse, estendendo a mão.

— Esposa — completou Diogo, sem hesitar.

A palavra ecoou de forma inesperada. Melina manteve o sorriso, mas sentiu o impacto.

— Claro — disse Helena, analisando-a rapidamente. — Combina com você.

— Isso é um elogio? — Melina perguntou, gentil, mas firme.

Helena riu.

— Depende de quem escuta.

O clima ficou estranho. Diogo percebeu.

— Vamos nos sentar — disse ele, encerrando o encontro.

Durante o jantar, Melina observou Helena interagir com Diogo de longe. Conversas rápidas, risos contidos, gestos que sugeriam intimidade antiga. Nada explícito, mas o suficiente para incomodar.

Ela não entendia por quê.

Não fazia sentido. Era um contrato. Nada além disso.

Ainda assim, quando Diogo se afastou por alguns minutos para atender uma ligação, Melina sentiu um vazio desconfortável.

— Está tudo bem? — perguntou uma mulher da mesa.

— Está — respondeu Melina. — Apenas observando.

Quando Diogo voltou, percebeu a mudança sutil em sua postura.

— Aconteceu alguma coisa?

— Nada — ela disse. — Apenas me lembrando onde estou.

— E onde está? — ele perguntou.

— No seu mundo — respondeu.

Ele franziu o cenho.

— Você parece distante.

— Talvez eu esteja vendo com mais clareza — ela disse.

O retorno para casa foi silencioso. No carro, a tensão era quase palpável. Diogo finalmente quebrou o silêncio.

— Você ficou desconfortável com Helena.

— Não — Melina respondeu rápido demais. — Eu fiquei desconfortável com o teatro.

— Não houve teatro.

— Houve sim — ela disse. — Sorrisos calculados. Palavras medidas. Pessoas que fingem intimidade porque convém.

— Helena faz parte do passado profissional — explicou ele.

— Profissional — Melina repetiu. — Claro.

Ele suspirou.

— Isso não é ciúme, é? — perguntou.

Ela o encarou.

— Não se dê tanta importância.

— Então por que está tão irritada?

— Porque eu não gosto de me sentir deslocada — respondeu. — Principalmente quando percebo que você pertence completamente a esse lugar.

— E você não? — ele perguntou.

— Ainda não sei — ela admitiu.

Ao chegarem em casa, Melina seguiu direto para o quarto. Precisava ficar sozinha. Precisava organizar pensamentos que não queria ter.

Diogo permaneceu na sala por alguns minutos, refletindo. Ele conhecia aquele incômodo. Já sentira antes, em negociações importantes, quando algo saía do controle.

Mas aquilo não era um negócio.

No quarto, Melina se sentou na cama, respirando fundo. A imagem de Diogo sorrindo para Helena insistia em voltar. Não era raiva. Era algo mais sutil. Algo que ela se recusava a nomear.

Ela se levantou e foi até a janela. Observou o jardim iluminado.

— Isso não significa nada — murmurou para si mesma.

Mas significava.

E ambos sabiam, mesmo sem admitir, que a linha entre o acordo e os sentimentos começava a se desfazer.

Ainda havia negação.

Mas também havia desejo, mesmo que enterrado sob cláusulas e silêncio.

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