Mundo de ficçãoIniciar sessãoMelina chegou ao endereço indicado exatamente às nove da manhã. Não porque estivesse ansiosa, mas porque se recusava a dar a Diogo Moretti qualquer motivo para questionar sua postura. O portão automático se abriu lentamente, revelando uma casa ampla demais, silenciosa demais, organizada demais.
Ela respirou fundo antes de descer do carro.
Aquela não era uma casa. Era uma extensão do escritório dele.
Linhas retas, tons neutros, vidro, concreto e uma ausência quase agressiva de qualquer sinal de vida pessoal. Tudo parecia escolhido para impressionar, não para acolher. Melina sentiu um incômodo imediato, como se estivesse entrando em um espaço onde não havia lugar para improvisos ou para ela.
Um funcionário a conduziu até a sala principal e indicou que aguardasse. Melina deixou a bolsa sobre o sofá e começou a observar o ambiente, analisando cada detalhe com um olhar crítico. Não demorou muito para ouvir passos firmes se aproximando.
Diogo entrou vestindo camisa social impecável, mangas dobradas na medida exata. Parecia recém-saído de uma reunião importante, como se aquela casa fosse apenas mais um cenário de compromissos.
— Vejo que chegou no horário — disse.
— Eu costumo cumprir o que está acordado — respondeu ela.
Ele assentiu levemente.
— Ótimo. Assim evitamos conflitos desnecessários.
Melina cruzou os braços.
— Evitar conflitos não significa fingir que eles não existem.
Diogo ignorou o comentário e fez um gesto em direção ao corredor.
— Seu quarto fica no segundo andar. À esquerda. Há um escritório ao lado, caso precise trabalhar.
— E o seu? — ela perguntou.
— Do outro lado do corredor.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Separados, como previsto no contrato.
— Exatamente.
Melina subiu as escadas sem pedir permissão. O quarto era grande, claro e tão impessoal quanto o resto da casa. Havia espaço demais para alguém que não planejava ficar ali por vontade própria.
Ela abriu a mala e começou a guardar as roupas com movimentos firmes, quase agressivos. Aquilo não era um lar. Era um acordo temporário. E ela precisava se lembrar disso.
Mais tarde, na cozinha, o primeiro choque real aconteceu.
Melina entrou decidida a preparar um café forte. Precisava daquilo para manter o mínimo de sanidade. Encontrou Diogo já ali, concentrado no celular, enquanto uma cafeteira moderna operava sozinha.
Ela pegou a xícara errada. Pelo menos, errada aos olhos dele.
— Essa é a xícara de uso diário — disse ele. — As outras ficam na prateleira superior.
Melina o encarou.
— Desculpe, não sabia que até o café tinha hierarquia nesta casa.
— Organização evita problemas — respondeu ele.
— Controle cria outros — retrucou.
Ela serviu o café do jeito que quis e se sentou à mesa sem pedir permissão. O silêncio entre eles era espesso, carregado de tensão.
— Precisamos alinhar algumas regras básicas — Diogo disse, após alguns segundos.
— Já não existem regras suficientes em um contrato de vinte páginas? — ela perguntou.
— Existem cláusulas — respondeu. — Convivência exige ajustes.
— Ajustes funcionam quando ambos cedem — disse Melina. — Ou você espera que eu me adapte completamente ao seu modo de vida?
Ele apoiou a xícara na bancada.
— Espero respeito mútuo.
— Respeito não é obediência — rebateu.
Diogo respirou fundo, claramente testando os próprios limites.
— Não estou tentando controlar você — disse. — Apenas garantir que isso funcione.
— Funcione para quem? — ela perguntou.
Ele a encarou por alguns segundos, como se estivesse escolhendo cuidadosamente a resposta.
— Para todos.
Melina sustentou o olhar, mas algo ali a incomodou. Pela primeira vez, percebeu que por trás da postura rígida havia uma tensão diferente. Não era só frieza. Era responsabilidade. Peso.
Ela afastou o pensamento imediatamente. Não queria começar a justificar atitudes que claramente a irritavam.
Ao longo do dia, pequenas situações se transformaram em conflitos silenciosos. O volume da música. A forma de organizar a geladeira. O uso dos espaços comuns. Nenhuma briga explícita, mas uma sucessão de atritos sutis.
À noite, já exausta, Melina encontrou Diogo na sala, revisando documentos no tablet.
— Você trabalha o tempo todo? — perguntou, antes de pensar.
Ele levantou o olhar, surpreso pela pergunta.
— O necessário.
— E quando é suficiente? — ela insistiu.
— Quando os problemas estão resolvidos.
Ela soltou um suspiro curto.
— Você não parece perceber que algumas coisas não se resolvem assim.
— Você não parece perceber que algumas coisas exigem disciplina — ele respondeu.
O silêncio voltou a se instalar, mas dessa vez era diferente. Menos hostil. Mais denso.
Melina caminhou até a escada.
— Boa noite, Diogo.
— Boa noite, Melina.
No quarto, ela fechou a porta e se apoiou nela por alguns segundos. Aquilo seria mais difícil do que imaginara. Não apenas pela convivência forçada, mas porque, apesar de tudo, Diogo não era exatamente o vilão que ela havia construído na própria mente.
No andar de baixo, Diogo permaneceu sentado, olhando para o tablet sem realmente enxergar as palavras. Melina não se encaixava em nenhuma das categorias que ele conhecia. Não era submissa. Não era previsível. Não era fácil de ignorar.
E isso era um problema.
Sob o mesmo teto, duas vontades fortes começavam a colidir. E aquele era apenas o primeiro dia.







