Mundo de ficçãoIniciar sessãoA sala de reuniões parecia menor daquela vez. Ou talvez fosse apenas a sensação de estar cercada por decisões que Melina não queria tomar. O contrato estava novamente sobre a mesa, agora impresso em papel encorpado, com marcas coloridas indicando pontos revisados e ajustados. Nada ali era improvisado.
Diogo permanecia sentado à sua frente, postura reta, expressão neutra. Ele não parecia nervoso. Não parecia pressionado. Parecia exatamente como alguém acostumado a vencer negociações.
Melina, por outro lado, sentia o maxilar tenso.
O advogado pigarreou, quebrando o silêncio prolongado.
— Após as considerações de ambas as partes, ajustamos algumas cláusulas referentes à privacidade e à autonomia individual — explicou. — O prazo do casamento permanece em dois anos, com possibilidade de rescisão mediante acordo mútuo.
Melina folheou o documento com cuidado. Cada palavra parecia ter sido escolhida para limitar, não para proteger. Ainda assim, reconhecia que havia conseguido pequenas concessões. Um quarto separado. Liberdade de agenda quando possível. Nenhuma interferência direta em sua carreira.
Ela ergueu o olhar para Diogo.
— Isso aqui — disse, tocando o papel — ainda é uma prisão bem decorada.
— Discordo — ele respondeu, sem alterar o tom. — É um acordo claro. Prisões não costumam oferecer cláusulas de saída.
— Desde que você concorde com a saída — retrucou ela.
Diogo cruzou as mãos sobre a mesa, avaliando-a com atenção.
— Se chegarmos a esse ponto, significa que o acordo cumpriu sua função — disse. — Não vejo problema nisso.
A frieza da resposta fez Melina apertar os lábios. Para ele, tudo parecia simples demais. Funcional demais. Como se sentimentos fossem ruídos desnecessários em uma equação maior.
— Você fala como se isso fosse apenas mais um contrato milionário — disse ela.
— Porque é — respondeu ele. — Com a diferença de que o ativo, neste caso, somos nós.
Ela soltou uma risada curta, sem humor.
— Que romântico.
O advogado tentou intervir, mas Diogo ergueu a mão, pedindo silêncio. Seus olhos estavam fixos em Melina, atentos demais.
— Não estou aqui para fingir que isso é um conto de fadas — disse. — Estou aqui porque essa é a solução menos prejudicial para todos os envolvidos.
— Todos, menos nós dois — ela rebateu.
O silêncio voltou a se instalar. Do lado de fora, a cidade seguia seu ritmo caótico, completamente alheia ao fato de que duas vidas estavam prestes a ser rearranjadas à força.
Melina respirou fundo. Pensou na ligação da noite anterior. No tom cansado de quem pedia ajuda sem saber pedir. Pensou nas consequências de dizer não. No peso que carregaria sozinha.
— Se eu assinar isso — começou escolhendo as palavras —, preciso deixar algo claro.
Diogo inclinou levemente a cabeça, atento.
— Não vou desempenhar o papel de esposa obediente — continuou. — Não vou sorrir para fotos se estiver sendo desrespeitada. E não vou aceitar que você dite quem eu sou.
— Não tenho interesse em ditar nada — ele respondeu. — Apenas em manter a imagem que este acordo exige.
— Imagem também cansa — disse ela. — E cobra.
Ele sustentou o olhar dela por alguns segundos, como se estivesse medindo algo além da aparência.
— Você não parece alguém que foge de cobranças — afirmou.
— Nem você parece alguém que sabe ceder — respondeu.
Um leve traço de algo parecido com humor surgiu no canto da boca de Diogo, mas desapareceu tão rápido quanto veio.
— Talvez seja por isso que este acordo funcione — disse.
Melina fechou o contrato com firmeza, apoiando as mãos sobre ele. O gesto parecia definitivo demais.
— Funcionar não significa ser fácil — disse.
— Nunca disse que seria.
O advogado deslizou a caneta pela mesa, na direção dela.
Melina hesitou. Não por dúvida, mas por consciência. Sabia que, ao assinar, nada seria como antes. Não haveria como voltar atrás fingindo que aquilo fora apenas uma reunião ruim.
Ela pegou a caneta.
— Dois anos — disse, antes de assinar. — Nem um dia a mais.
— Dois anos — confirmou Diogo.
Ela assinou.
O som da caneta riscando o papel pareceu alto demais no silêncio da sala. Em seguida, Diogo assinou também, com um movimento seguro, quase automático.
Estava feito.
O advogado recolheu os documentos, visivelmente satisfeito.
— Parabéns aos dois — disse. — A partir de agora, algumas providências práticas precisarão ser organizadas.
Melina levantou-se da cadeira, sentindo o corpo mais pesado do que antes.
— Imagino que sim.
Diogo também se levantou.
— A convivência começa oficialmente em uma semana — informou. — Minha equipe cuidará da logística.
Ela o encarou, incrédula.
— Claro que vai.
Ele sustentou o olhar, firme.
— Não se preocupe — disse. — Não pretendo tornar isso mais difícil do que já é.
Melina deu um passo em direção à porta.
— Fique tranquilo — respondeu, sem olhar para trás. — Eu faço isso sozinha.
Quando saiu, o coração batia forte demais. Não de medo. De raiva. De incerteza. De algo que ela ainda não sabia nomear.
Diogo permaneceu alguns segundos parado, observando a porta fechada. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu algo fora de controle.
E isso o incomodou mais do que gostaria de admitir.
O acordo estava assinado.
E a verdadeira batalha estava apenas começando.







