Mundo de ficçãoIniciar sessãoMelina Carvalho nunca fora boa em aceitar imposições. Desde cedo aprendera que, quando alguém decidia por você, geralmente era porque não pretendia arcar com as consequências. Talvez por isso o contrato sobre a mesa da pequena sala de reuniões parecesse tão ofensivo, mesmo antes de ser oficialmente apresentado.
Ela cruzou as pernas, apoiou as mãos sobre a pasta de couro e respirou fundo. O ambiente era sofisticado demais para o seu gosto. Tudo ali parecia caro, silencioso e estrategicamente pensado para intimidar. Não funcionaria com ela.
O advogado pigarreou antes de começar a falar, como se estivesse prestes a anunciar algo grandioso demais para ser contestado.
— Como a senhorita já deve ter lido, trata-se de um acordo civil com validade determinada, visando benefícios mútuos entre as partes envolvidas.
Melina ergueu o olhar lentamente, expressão firme.
— Benefícios mútuos costumam ser mais equilibrados do que isso — disse, apontando para o contrato. — Aqui parece que eu estou resolvendo problemas que não criei.
O homem sorriu de forma profissional, mas havia um leve desconforto em seu olhar.
— Entendo sua colocação, mas precisamos considerar o contexto familiar e empresarial.
Ela conteve um suspiro impaciente. Contexto. Sempre essa palavra usada para justificar decisões questionáveis.
— O contexto não muda o fato de que estão me pedindo para casar com um desconhecido — respondeu. — Um CEO que eu nunca vi pessoalmente e que, ao que tudo indica, trata pessoas como extensões dos próprios negócios.
O advogado ajeitou os óculos, claramente treinado para lidar com objeções.
— O senhor Diogo Moretti também assumirá obrigações claras. O contrato protege ambos.
Protege. Melina quase riu.
Protegia reputações, acordos financeiros, alianças antigas. Mas não protegia vontades. Nem sonhos. Nem a liberdade que ela tanto prezava.
Horas depois, já em casa, Melina andava de um lado para o outro, o celular pressionado contra o ouvido.
— Você não pode estar falando sério — disse, sem esconder a indignação.
— É uma solução temporária — respondeu a voz do outro lado. — Precisamos disso agora.
— Precisamos? Ou você precisa? — retrucou. — Porque quem vai assinar esse contrato sou eu.
Houve silêncio. Um silêncio pesado, carregado de coisas não ditas.
— Pense no que está em jogo, Melina — insistiu a voz. — Não é só sobre você.
Ela fechou os olhos, sentindo o peso daquela frase se acomodar no peito. Sempre havia algo maior. Sempre havia alguém pedindo que ela cedesse um pouco mais.
Quando desligou, sentou-se no sofá e encarou o contrato novamente. Leu cada cláusula com atenção quase obsessiva. Horários. Aparições públicas. Convivência sob o mesmo teto. Nenhuma exigência emocional explícita, mas uma expectativa implícita de perfeição social.
O nome dele surgia repetidamente: Diogo Moretti.
Frio. Calculista. Poderoso.
Exatamente o tipo de homem que ela não tolerava.
No dia seguinte, Melina chegou ao prédio empresarial com passos firmes. Não se vestira para impressionar. Usava roupas sóbrias, elegantes, mas que refletiam quem ela era — alguém que não se moldava facilmente.
A recepcionista a conduziu até o último andar. As portas do elevador se abriram revelando um espaço amplo, silencioso e intimidante. Ela foi guiada até uma sala de reuniões envidraçada.
E então o viu.
Diogo Moretti estava de pé, de costas para ela, observando a cidade pela janela. Alto, postura impecável, presença que ocupava o ambiente sem esforço. Ele se virou lentamente ao perceber sua chegada.
Os olhares se cruzaram pela primeira vez.
Melina sentiu um leve choque, não de atração, mas de reconhecimento instintivo. Aquele homem era exatamente como imaginara. Controlado demais. Seguro demais. Frio demais.
— Senhorita Carvalho — ele disse, com voz firme e contida. — Obrigado por ter vindo.
Ela não sorriu.
— Não tive muita escolha — respondeu.
Diogo arqueou levemente a sobrancelha, como se aquela resposta tivesse despertado algum tipo de interesse calculado.
— Prefiro pensar que estamos aqui por racionalidade — disse ele, indicando a cadeira à frente da mesa.
Melina sentou-se sem hesitar.
— Racionalidade costuma ser uma palavra bonita para justificar decisões egoístas — rebateu.
Por um breve instante, o silêncio se instalou entre eles. Diogo apoiou as mãos sobre a mesa, avaliando-a com atenção.
— Não estou interessado em conflitos desnecessários — disse. — Este acordo é funcional. Nada mais.
— Funcional para você — Melina respondeu. — Para mim, soa como abrir mão da própria vida por conveniência alheia.
Ele manteve o olhar firme, impenetrável.
— Ninguém está pedindo que você finja sentimentos — afirmou. — Apenas compromisso com o que foi acordado.
Ela se inclinou levemente para frente.
— Então deixe-me ser clara — disse, com a voz controlada, mas carregada de desafio. — Se eu aceitar isso, não será porque você mandou. Será porque eu decidi. E não espere submissão.
Por um segundo, algo mudou no olhar de Diogo. Não era irritação. Era curiosidade.
— Não espero submissão — respondeu. — Espero cumprimento de cláusulas.
Melina se recostou na cadeira, cruzando os braços.
— Ótimo. Porque eu não costumo assinar nada sem saber exatamente com quem estou lidando.
Eles se encararam em silêncio. Dois mundos opostos, duas vontades fortes, unidos por um acordo que nenhum dos dois realmente desejava.
E, naquele momento, ambos compreenderam a mesma coisa, mesmo sem dizer em voz alta: aquela convivência não seria fácil.
Nem um pouco.







