Mundo ficciónIniciar sesiónHelena Azevedo
Acordei antes do despertador.
O quarto ainda estava mergulhado na penumbra suave da manhã, mas o meu coração já batia apressado, como se tivesse corrido durante a noite inteira. Levei a mão ao peito, tentando entender aquela sensação estranha — um misto de inquietação, calor e uma saudade que não fazia sentido algum.
E então, como se fosse inevitável, o rosto dele surgiu na minha mente.
Arthur.
Os olhos escuros, profundos. A voz grave dizendo meu nome. O jeito sério, contido… e, ainda assim, carregado de algo que eu não sabia definir. Virei-me na cama, tentando afastar os pensamentos, mas quanto mais resistia, mais nítida a imagem ficava.
Era como se ele tivesse deixado uma marca em mim.
Levantei-me devagar, sentindo o corpo diferente, sensível, atento demais a tudo. No espelho do banheiro, encarei meu próprio reflexo e quase não me reconheci. Meus olhos pareciam mais brilhantes, as bochechas levemente coradas. Eu parecia… desperta. Não apenas do sono, mas de algo dentro de mim que sempre esteve adormecido.
Enquanto me arrumava para ir trabalhar, cada gesto simples — escovar os dentes, prender o cabelo, escolher uma roupa — vinha acompanhado de pensamentos que eu não conseguia controlar. A lembrança do olhar dele me acompanhava como uma sombra silenciosa. Não era desejo puro. Não era só curiosidade.
Era algo mais fundo.
No caminho para a escola, o céu claro da manhã contrastava com o turbilhão dentro de mim. As ruas conhecidas da cidade pareciam diferentes, como se tudo tivesse mudado sem que eu percebesse. Meu coração acelerava sem motivo aparente, e, ao mesmo tempo, uma estranha calma me envolvia — como se eu estivesse exatamente onde deveria estar.
Ao entrar na sala de aula, cercada pelas vozes alegres das crianças, senti um aperto doce no peito. Por um instante, tive a absurda certeza de que ele voltaria. E essa certeza não vinha da lógica, mas de um lugar muito mais íntimo, quase instintivo.
Eu não sabia explicar o que sentia.
Só sabia que, desde o dia anterior, algo em mim tinha sido tocado. Despertado. Como se uma parte da minha alma tivesse se lembrado de algo que a minha mente ainda não alcançava.
E, sem entender o porquê, tive certeza de uma coisa:
Meu mundo nunca mais seria o mesmo.
Tentei concentrar-me nas crianças, nos seus risos soltos e perguntas curiosas, mas havia algo diferente naquele dia. Cada vez que a porta da sala rangia, meu coração dava um pequeno salto, como se esperasse vê-lo ali outra vez. Era ridículo, eu sabia. Ele era apenas o tio de um aluno. Um homem distante da minha realidade. Ainda assim, a sensação persistia, firme, quase teimosa.
Enquanto ajudava Miguel a guardar os brinquedos, senti um arrepio inesperado percorrer-me a espinha. Não foi frio. Foi lembrança — embora eu não soubesse de quê. Uma imagem confusa passou pela minha mente: mãos entrelaçadas, um olhar intenso, uma promessa silenciosa. Pisquei algumas vezes, respirando fundo, tentando afastar aquela estranheza que insistia em me acompanhar.
No intervalo, sentei-me sozinha por alguns minutos. O barulho do pátio parecia distante. Levei a mão ao peito e senti o coração bater num ritmo diferente, como se estivesse respondendo a um chamado invisível. Não era paixão. Não ainda. Era algo mais profundo, mais antigo, como uma saudade sem nome.
Perguntei-me se ele também sentia aquilo. Se, em algum lugar da cidade, Arthur Montenegro tinha acordado com o mesmo peso doce no peito, com a mesma inquietação que me impedia de seguir o dia como antes. A ideia me assustou… e, estranhamente, me confortou.
Quando a manhã chegou ao fim, percebi que eu já não era exatamente a mesma de antes. Algo tinha mudado, mesmo que de forma sutil. Eu não entendia, não sabia explicar, mas sentia com clareza: havia um fio invisível ligando o meu destino ao dele.
E, pela primeira vez, não tentei cortá-lo.







