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∴━━━ Voo alto ━━━∴

  Eu nunca gostei de teatro. Não no sentido literal — eu até acho peças interessantes, dependendo do nível de drama e da quantidade de gente bonita envolvida —, mas esse tipo de atuação… fingir sentimentos, construir gestos, ensaiar olhares… isso sempre me pareceu cansativo demais para alguém que já passou a vida tentando ser aceita.

  E, ainda assim, lá estava eu. Sentada à mesa com Margareth, segurando uma taça de vinho como se fosse a coisa mais natural do mundo jantar com a mãe do meu… namorado falso. A ironia não se perde em mim.

  Dessa vez, no entanto, era diferente. A primeira vez que a conheci, meses atrás, eu ainda era… eu. Ou, pelo menos, a versão antiga de mim. Desajeitada dentro do próprio corpo, insegura em espaços que pareciam grandes demais, e completamente desconfortável tentando convencer alguém de que eu e Joseph éramos um casal. E, sinceramente? Nem eu teria acreditado.

  Mas agora, eu cruzo as pernas com naturalidade, sustento o olhar, sorrio no tempo certo. 

  — Você está linda, Melinda — Margareth diz, apoiando o queixo na mão, me analisando sem o menor pudor. — E cada vez mais magra.

  Joseph nem espera dois segundos.

  — Mãe…

  O tom dele vem seco, um aviso claro. E ela nem pisca.

  — O quê? É um elogio. 

  Eu seguro um sorriso de canto, porque a situação é tão absurdamente familiar que chega a ser quase confortável.

  — Está tudo bem — digo, antes que ele transforme aquilo em um discurso. — Eu entendi como elogio.

  Margareth ergue uma sobrancelha, satisfeita.

  — Joseph sempre namorou mulheres lindas — ela continua, casual. — Mas também já trouxe umas bem… normais.

  Eu quase engasgo com o vinho.

  Joseph fecha os olhos por um segundo, claramente arrependido de ter saído de casa.

  — Mãe…

  — Estou sendo honesta.

  Eu apoio a taça na mesa com calma, limpando os lábios com o guardanapo antes de entrar no jogo.

  — Eu emagreci por saúde — digo, com naturalidade. — Estava começando a ter alguns problemas, e… — dou de ombros, leve — também não estava completamente satisfeita com a minha aparência.

  Faço uma pausa.

  — Mas eu era feliz — acrescento, olhando diretamente para ela. — Mesmo com o corpo cheinho.

  Margareth me observa com mais atenção dessa vez.

  — Eu também já fui uma garota corpulenta — ela diz, de repente, a voz mais baixa. — Quando era jovem.

  Aquilo me pega de surpresa. Joseph também parece não esperar.

  — Minha mãe implicava comigo o tempo todo — ela continua, girando o vinho na taça. — Dietas, críticas, comparações… até que eu emagreci. Do jeito que ela queria. E, por um tempo, eu achei que aquilo era o suficiente.

  O silêncio na mesa muda. Fica mais… íntimo.

  — Quando eu tive o Joseph — ela segue, sem olhar para ele —, meu corpo voltou. Não exatamente igual, mas… voltou. E eu não estava feliz. Não me sentia bonita. Não me sentia desejável.

  Ela toma um gole de vinho antes de completar:

  — E o pai dele começou a me trair. Eu me divorciei, mas o estrago… já estava feito.

  — Eu sinto muito — digo, sincera.

  Ela me encara por um segundo, e há algo ali que não estava antes.

  — Mulher precisa se abraçar do jeito que é — ela diz. — Mas também precisa se sentir confortável na própria pele para conseguir fazer isso.

  Joseph se mexe na cadeira, claramente incomodado com o rumo da conversa.

  — Eu não mudaria nada em você — ele diz, de repente, olhando para mim. — Você estava ótima antes.

  Eu viro o rosto para ele. E, por alguns segundos, o mundo inteiro parece… desaparecer. Porque o olhar dele não é casual, nem ensaiado. É direto. 

  Felizmente, Margareth decide salvar — ou atrapalhar — o momento.

  — Vocês pretendem se casar?

  Joseph solta um suspiro longo.

  — Mãe…

  — Eu só estou curiosa.

  — A gente nem falou sobre isso.

  — Ainda — ela corrige, animada.

  Eu sorrio, entrando no jogo antes que ele fuja.

  — Eu posso pensar no assunto — digo, leve. — O Joseph seria um ótimo marido.

  Joseph vira o rosto para mim, devagar. E, por algum motivo que eu ainda não decidi se é inteligência ou puro instinto de sobrevivência, eu não olho de volta.

  — Está vendo? — Margareth praticamente vibra. — Eu gosto dela.

  — Que bom — Joseph responde, seco.

  — Eu vou torcer por vocês.

  — Por favor, não.

  Eu rio baixo, tentando aliviar.  E, de alguma forma… funciona.

  O resto do jantar segue mais leve. Conversas aleatórias, histórias de viagens, comentários sobre Santorini — que, segundo Margareth, é “o único lugar no mundo onde o tempo respeita quem sabe aproveitar a vida”.

  Eu não discordo.

                   ***

  Quando entramos no carro, o silêncio vem diferente. De um jeito que nenhum de nós parece saber o que dizer sobre o jantar. 

  — Com quem sua mãe mora? — pergunto, olhando pela janela.

  Joseph mantém os olhos na estrada.

  — Com ninguém.

  Eu viro o rosto para ele.

  — Como assim? Ela não se casou de novo?

  — Depois do divórcio, ela teve alguns relacionamentos — explica. — Nenhum deu certo. A maioria queria mais o dinheiro dela do que… ela.

  Eu solto um “clássico” em voz baixa. Ele quase sorri.

  — No fim, ela decidiu ficar sozinha. Começou a viajar, conhecer lugares… até parar em Santorini.

  — E ficar rica com isso — completo.

  — Basicamente.

  — Eu não esperava.

  — Ninguém espera — ele diz.

  Eu encosto a cabeça no banco, pensativa. Margareth é muito mais do que parece. E isso… explica muita coisa.

  — E você? — ele pergunta de repente.

  — Eu o quê?

  — “Joseph seria um ótimo marido.”

  Ah. Ótimo.

  Eu sinto minhas bochechas esquentarem, o que é irritante, considerando todo o controle que eu venho mantendo nos últimos meses.

  — Era o que a sua mãe queria ouvir.

  — Só isso?

  Eu olho para ele.

  — Não é?

  Ele sustenta meu olhar por um segundo antes de desviar para a estrada.

  — Você acha que eu seria um bom marido?

  Eu solto um sopro curto.

  — Casamento não está nos seus planos. Foi o que você sempre me disse. 

  — Não está — ele confirma. — Mas planos mudam.

  Eu não respondo, porque isso abre portas que eu não posso atravessar agora.

  Quando chegamos, ele não vai direto para o quarto. Vai para o escritório. E volta com um envelope.

  — O que é isso? — pergunto, pegando.

  — Abre.

  Eu abro, sentindo minhas mãos um pouco trêmulas. 

  — Documentos novos — ele diz. — Nova identidade.

  Eu passo os dedos pelo papel, ainda processando.

  — E isso aqui?

  — Um contrato.

  Eu levanto os olhos.

  — Um contrato? De quê?

  — De casamento. 

  Eu solto uma risada curta.

  — Eu não achei que a gente fosse formalizar esse nível de loucura.

  — Eu achei melhor, para evitarmos problemas. E há um contrato de... convivência conjugal atrás. 

  Encontro outro contrato logo atrás e folheio. Há regras, cláusulas.

  Duração inicial: seis meses.

  — Não se envolver com outras pessoas — leio em voz alta. — Comparecer juntos a eventos. Não esconder informações relevantes. Não envolver o nome do outro em escândalos…

  Eu paro e olho para ele.

  — O que mais você quer, Joseph?

  Ele cruza os braços.

  — Lê até o final.

  Eu leio. E, quando termino, levanto o olhar devagar.

  — Você quer que eu não me apaixone por você.

  Ele não desvia o olhar.

  — Sim.

  Eu inclino a cabeça.

  — E que eu não te traia.

  — Mesmo sendo falso — ele completa.

  Eu fecho o contrato, apoiando na mesa.

  — Você nem precisava pedir isso.

  — Eu prefiro deixar claro.

  Eu me aproximo um pouco.

  — Eu já estava ciente dessas condições muito antes de você colocá-las no papel.

  O silêncio entre a gente muda. De novo.

  — Obrigada — digo, mais baixo. — Por ainda estar me ajudando.

  Joseph passa a mão pelo rosto, desviando o olhar por um segundo antes de voltar para mim.

  — Toda vez que eu penso no que você passou… — a voz dele fica mais dura — no que aquele homem fez… no fato de você quase ter morrido… — ele para e respira fundo. — Dá vontade de fazer a minha própria vingança.

  Eu observo, sem interromper.

  — Homens como o Andrew não merecem viver — ele completa, baixo.

  O jeito como ele diz isso, não soa como um simples exagero. 

  — Então é por isso que você quer tanto fazer parte? — pergunto.

  Ele me encara.

  — Isso… — faz uma pausa — e porque alguém precisava estar do seu lado.

  Eu seguro o olhar dele. E, por um segundo longo demais… Eu quase esqueço todas as regras que acabamos de assinar.

  — Eu posso assinar já? 

  Ele assente. 

  Pego uma caneta e assino, com o meu nome de batismo. E sei que em breve, preciso mudar minha assinatura para Carol Anne Peretti.   

  — Pronto. — digo, entregando os documentos devidamente assinados. 

  — Ótimo. Agora é darmos o voo alto e colocar os planos em ação. 

  — Quando partiremos?

  — Em dois dias. 

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