Mundo ficciónIniciar sesiónNova York não pede licença. Ela invade. Pelos olhos, pelo som, pelo ritmo que não desacelera nem quando você claramente precisa de um minuto para respirar. Há tanto que eu não me sinto deslocada no meio disso tudo. Eu me sinto à altura. Talvez porque, pela primeira vez, eu não esteja tentando me encaixar. Estou entrando com um propósito.
— Ainda dá tempo de desistir — digo, apoiada na bancada da cozinha do apartamento que Joseph alugou, observando ele ajustar o relógio no pulso com a calma de quem nunca parece abalado. Ele nem levanta o olhar. — Você não quer desistir. — Não — concordo, pegando a taça de vinho. — Mas eu gosto de testar suas reações. Ele finalmente me encara. — E? Eu dou um meio sorriso. — Você continua impossível de ler. — Ótimo. Eu reviro os olhos. — Insuportável. Não gosto de ficar tentando adivinhar, Joe. — Não fique. Reviro os olhos novamente. Ele sempre tem um resposta pronta. O plano era simples. O que, na prática, significava que tinha tudo para dar errado. Joseph se aproximaria de Andrew primeiro. Negócios, contatos, promessas — tudo aquilo que homens como ele adoram. Enquanto isso, eu ficaria… invisível, por enquanto. Até o momento certo, e o impacto vale mais do que qualquer preparação. Li em uma coluna de revista de negócios que haverá um evento filantrópico, que reunirá toda a elite executiva de Nova York. Procuramos saber se Andrew apareceria. — Ele vai estar lá — Joseph diz, alguns dias depois, jogando o celular sobre a mesa. — Confirmado. Sinto meu estômago se revirar. De nervosismo e ansiedade. De tudo. — Eu te disse — respondo, cruzando os braços. — Andrew nunca perde a chance de ser o centro das atenções. — Ele está interessado. — Em você? — Em dinheiro — corrige, seco. — Eu sou só o caminho. Eu rio baixo. — Pelo menos ele mantém a coerência. Joseph se aproxima um pouco mais, a expressão mais séria agora. — Esse evento é a sua entrada. Eu assinto. — Eu sei. — E a sua saída também, se algo sair errado. — Não vai sair. Ele inclina levemente a cabeça. — Confiança ou teimosia? Eu sustento o olhar. — Sobrevivência. O silêncio vem, e com ele uma certa familiaridade no olhar perdido de Joseph. Eu o observo, mas tenho consciência de que não conseguirei saber o que ele está pensando. Ele nunca diz com todas as letras o que se passa na mente dele, e eu já me acostumei com isso. *** O vestido azul turquesa abraça meu corpo. O tecido desliza com perfeição, marcando curvas que eu levei meses para conquistar e anos para aceitar. O decote é elegante, calculado — o suficiente para chamar atenção, não o bastante para parecer desesperado. Eu observo meu reflexo no espelho por alguns segundos. Cabelo alinhado, maquiagem perfeita, postura confiante. Não há vestígio da mulher que eu fui. E, ainda assim… ela está aqui. — Se eu não soubesse — a voz de Joseph surge atrás de mim —, eu diria que você nasceu para isso. Eu encontro o olhar dele pelo espelho. — Para fingir? — Para comandar. Eu viro de frente. — Não confunde as coisas. Ele dá um passo mais perto. — Eu não estou confundindo. Só estou sendo sincero. Você está fazendo isso muito bem. O jeito como ele me olha não ajuda. — Vamos — digo, desviando antes que aquilo vire outra coisa. — Antes que eu perca a coragem. — Só confie em você mesma. — Eu estou tentando, Joe. Estou tentando. *** O evento é exatamente como eu imaginei. Luxuoso, barulhento na medida certa, cheio de pessoas que se cumprimentam com sorrisos calculados e olhares que avaliam mais do que palavras. Eu seguro o braço de Joseph com naturalidade, como se já tivesse feito isso a vida inteira. Talvez eu esteja aprendendo rápido demais. — Relaxa o ombro — ele murmura, quase sem mexer os lábios. — Eu estou relaxada. — Parece que você está pronta para fugir. — Eu sempre estou pronta para fugir. Ele solta um sopro quase imperceptível. — Hoje não. Eu não respondo, porque ele está certo. Hoje não. Entramos, e eu sinto os olhares, Primeiro discretos. Depos, nem tanto. Homens que antes não perceberiam minha presença agora acompanham cada passo. Alguns tentam disfarçar. Outros nem se dão ao trabalho. Eu quase rio por dentro, porque isso nunca aconteceu antes. — Está se divertindo? — Joseph murmura, inclinando levemente o rosto na minha direção. — Um pouco — respondo, mantendo o sorriso. — É curioso. — O quê? — Ser vista. Ele não comenta, mas aperta levemente meu braço. E isso diz o suficiente. Caminhamos mais um pouco, cumprimentando pessoas, trocando frases vazias que significam muito mais do que parecem. E então... eu o vejo. Não está tão perto, nem tão longe. Mas o suficiente para me sentir sufocada. Andew. Do outro lado do salão, acompanhado pela sua... esposa atual. Ele está impecável com erno sob medida, postura confiante, rodeado por um pequeno grupo que claramente gira em torno dele como planetas em órbita. Nada mudou. Por que mudaria? Ele venceu. Aprendi com Joseph que em eventos como esse, é preciso fazer algum teatro e não mostrar fraquezas. Sorrir mesmo sem vontade. Cumprimentar mesmo sem conhecer. Manter a postura mesmo estando nervoso. Tudo é um jogo de cartas na mesa de pôquer. Você brefa para convencer de que está confiante e seguro no ambiente, e que nada é capaz de derrubar suas defesas. Vejo Estelle, com uma barriguinha mais saliente que expõe sua gravidez, que deve estar no quinto ou sexto mês. Pelas minhas contas, pelo menos. Pelas contas de Joseph também. Eu sinto algo frio subir pelo meu corpo. Não é raiva. É uma mágoa sufocante, latente, que seria capaz de me fazer ir até ele e esmagá-lo como se esmaga um inseto. — Joe — murmuro, sem tirar os olhos dele. — Eu sei — ele responde, baixo. — Ele está exatamente como eu lembrava. — E você não. Eu finalmente desvio o olhar para ele. — Ainda não. Joseph se inclina um pouco mais, o rosto próximo ao meu ouvido. — Você está pronta para o show? Eu volto a olhar para Andrew. Para o homem que tentou me matar. Para o homem que enterrou meu nome. E sorrio, devagar e sem pressa. Porque a pressa sempre foi inimiga da perfeição. Em algum lugar do meu passado, me disseram uma vez que para algo sair perfeito, era preciso se despir de expectativas. Pensar nisso me faz questionar sobre o que espero de Andrew, e de mim. — Mais do que pronta.






