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∴━━━ O resgate ━━━∴

  A primeira coisa que sinto não é dor. É sede.

  Uma sede absurda, daquelas que arranham por dentro, como se minha garganta tivesse sido revestida com areia. Tento engolir, mas o movimento falha no meio do caminho, e a ardência vem logo depois, me fazendo franzir a testa antes mesmo de conseguir abrir os olhos de verdade.

  Quando consigo, a luz me acerta sem aviso. Branca demais e forte demais. Tão crua que parece querer me engolir. 

 Levo alguns segundos — ou minutos, não sei — para entender que estou deitada. Há um peso no meu corpo que não parece meu, como se alguém tivesse me trocado por uma versão mais lenta e  pesada, menos funcional. Tento mexer a mão, e o simples esforço já parece um projeto ambicioso demais para alguém que acabou de reaprender a existir.

  — Ela acordou. — alguém diz. 

  A voz vem de algum lugar à minha direita. Feminina. Parece surpresa, depois apressada.

  Eu viro o rosto com dificuldade, sentindo uma pontada aguda atravessar minha cabeça, como se meu cérebro estivesse reclamando da movimentação. Tudo em mim parece atrasado. Como se as coisas levassem mais tempo para chegar onde deveriam.

  — Pode me ouvir?

  Eu tento responder, mas minha voz não sai. Só um som rouco, quase um sopro, escapa. A boca seca não ajuda em nada.

  Mais vozes surgem. Passos e movimento. De repente, estou cercada de mãos que me tocam com cuidado, ajustam algo nos meus braços, nos meus dedos. Sinto fios presos a mim, algo grudado na minha pele, um apito constante ao fundo que eu só percebo agora.

  Um homem aparece no meu campo de visão, de jaleco e olhos atentos.

  — Você consegue me dizer seu nome?

  A pergunta deveria ser simples. Mas ela ecoa dentro da minha cabeça como se fosse um enigma mal formulado.

  Meu… nome. Eu sei. Eu sei que sei. Só que ele não vem.

  — Eu… — tento, e a palavra sai quebrada, arranhando. — Eu… meu nome é... Melin...

  A frustração cresce rápido demais para alguém que mal acordou.

  — Calma — ele diz, com um tom firme, mas gentil. — Sem pressa. Você acabou de despertar.

  Eu fecho os olhos por um segundo, tentando organizar o caos que parece ter se instalado dentro de mim.

  — Onde eu estou? — consigo perguntar, dessa vez com um pouco mais de som, embora ainda pareça que estou falando através de uma garganta que não me pertence.

  O médico troca um olhar rápido com alguém atrás dele antes de voltar a me encarar.

  — Você está em um hospital — responde. — Na Grécia.

  Grécia.

  A palavra acende algo. Uma imagem. Branco. Azul. Mar. Santorini.

  Meu coração dá um salto descompassado, e isso parece acionar uma dor surda na minha cabeça.

  — O que… aconteceu comigo?

  Ele hesita, só por um segundo. 

  — Você sofreu um acidente — diz, escolhendo as palavras com cuidado. — E ficou em coma.

  Coma.

  Eu solto uma risada fraca, quase inaudível. 

  — Por quanto tempo?

  — Dois meses.

  Dessa vez, o silêncio que vem depois não é só externo. É interno. É como se tudo dentro de mim tivesse parado para processar aquela informação e, sinceramente, não estivesse dando conta. Dois meses.

  Eu tento me sentar, mas o mundo gira de um jeito agressivo, e as mãos ao meu redor me impedem com cuidado, me pressionando de volta contra o colchão.

  — Devagar — alguém diz. — Seu corpo ainda está se recuperando.

 Sou examinada de novo. Luz nos olhos. Perguntas que eu respondo pela metade. Minha idade vem, meio hesitante, mas vem. Algumas coisas parecem intactas. Outras… não.

  Minha cabeça dói. Não é uma dor insuportável, mas é constante, insistente, como um lembrete de que algo ali dentro foi bagunçado.

  Depois de um tempo — que eu não consigo medir — eles me levam para fazer mais exames. O teto branco passa por cima de mim enquanto a maca se move, e eu fico encarando as luzes como se elas pudessem me dar alguma resposta. Elas não dão.

  Quando volto para o quarto, o silêncio é diferente. Emtão eu o vejo.

  Ele está encostado perto da janela, mas não parece confortável ali. Alto, postura firme, mas com um tipo estranho de inquietação nos ombros, como se não soubesse exatamente o que fazer com as próprias mãos.

  Quando nossos olhares se encontram, algo muda no rosto dele. Surpresa e alívio. E uma espécie de incredulidade.

  — Você acordou — ele diz, dando um passo à frente.

  A voz é grave e controlada. Mas há algo por baixo dela que não está tão bem contido assim.

  Eu o encaro por alguns segundos, tentando puxar da memória qualquer traço de reconhecimento. Nada.

  — Quem é você? Nós nos conhecemos?

  A pergunta sai direta. Sem rodeios.

  Uma das enfermeiras se aproxima de mim, ajustando os fios nos meus braços, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.

  — Foi ele quem te salvou.

  Eu viro o rosto lentamente para ela, depois de volta para ele.

  — O que aconteceu comigo para eu precisar ser salva? Disseram que eu sofri um acidente... mas até agora não sei nenhum detalhe. 

  Ele se aproxima mais, agora parando ao lado da cama. De perto, fica ainda mais evidente que ele é… bonito. Não de um jeito óbvio ou forçado. Mas de um jeito que chama atenção sem esforço, como se ele nem estivesse tentando. O que, sinceramente, só piora tudo. Porque eu definitivamente não estou no meu melhor momento para avaliar homens atraentes.

  — Você não se lembra de nada? — ele pergunta, os olhos fixos nos meus.

  Eu respiro fundo, sentindo a cabeça pesar contra o travesseiro.

  — Minha mente está… confusa — admito, com uma honestidade que me irrita. — Eu me lembro de estar em lua de mel. Depois disso… nada.

  Ele assente devagar, como se já esperasse por isso.

  — Eu te encontrei no mar — diz. — Aparentemente, você caiu de um penhasco, em Santorini.

  As palavras caem pesadas. Penhasco. Mar. Queda.

  Algo dentro de mim se mexe. Não é uma lembrança completa. É mais como uma sensação, um frio repentino na pele. Um vazio no estômago.

  — Eu ainda estou na Grécia? — pergunto.

  — Está, sim. 

  Eu passo a língua pelos lábios, sentindo a secura persistente.

  — Dois meses… — repito, mais para mim mesma do que para ele. — Onde está o meu marido?

  A pergunta sai automática, quase natural. Como se fosse óbvia. Mas a reação dele não é.

  Ele franze levemente o cenho, surpreso.

  — Eu não faço ideia — responde, direto. — Eu nem sabia que você era casada. Não sabíamos quem você era. 

  Aquilo… não encaixa. Nada encaixa.

  — Eu… — começo, mas paro. Porque eu não sei exatamente o que dizer. — Ninguém… me procurou?

  Ele solta um suspiro baixo, passando a mão pela nuca antes de responder.

  — Eu tentei te identificar de todas as formas possíveis. Mas você estava muito machucada. Seu rosto… — ele hesita, escolhendo as palavras — estava difícil de reconhecer. Provavelmente você bateu nas pedras antes de cair no mar.

  Eu levo a mão ao rosto por impulso, sentindo curativos, uma leve rigidez na pele.

  — Então ninguém veio atrás de mim? Ninguém me procurou?

  Minha voz falha de novo, mas dessa vez não é por fraqueza física. É outra coisa.

  Ele balança a cabeça.

  — Eu esperei que você acordasse para poder ajudar a encontrar sua família.

  Família. Marido. Qualquer pessoa. Mas ninguém apareceu.

  Passei a vida inteira achando que não era a primeira escolha de ninguém. Mas isso aqui… isso eleva o conceito a um nível quase irônico. 

  Fico em silêncio, encarando um ponto qualquer no teto, tentando não deixar a ideia tomar forma completa na minha cabeça.

  Ele percebe.

  — Meu nome é Joseph Peretti — diz, finalmente, como se estivesse me dando um ponto de apoio. — E você? 

  Eu viro o rosto para ele outra vez.

  — Melinda — respondo, e dessa vez o nome vem fácil. — Melinda Grant.

  Algo passa pelo rosto dele. Rápido, quase imperceptível. E, por algum motivo, isso me incomoda.

  Ele disfarça bem, endireitando a postura.

  — Eu te dei um nome. Carol Anne — comenta. — Foi o nome que colocaram no seu registro provisório.

  Eu arqueio uma sobrancelha, mesmo com a cabeça doendo.

  — Carol Anne? — repito, com um sopro de riso. — Não sei se fico ofendida ou grata.

  Ele quase sorri. Quase...

  — Parecia combinar com você.

  — Espero que eu seja mais interessante do que isso — murmuro, e pela primeira vez desde que acordei, sinto um traço de mim mesma ali.  — Obrigada por… Por não me deixar morrer.

 Agora ele sorri de verdade. Pequeno, contido.

  — Você fez a parte difícil. 

  Duvido muito. Mas não tenho energia para discutir.

  — Eu vou deixar você descansar — ele diz, recuando um passo. — Volto amanhã.

  Eu assinto, cansada demais para qualquer coisa além disso.

  — Obrigada, Joseph.

  — Me chame de Joe. Se cuide, Carol Anne. 

  Eu sorri. 

  Ele segura meu olhar por um segundo a mais do que o necessário. E então vai embora.

  O quarto fica silencioso de novo, mas agora o silêncio é diferente, mais pesado. Mais cheio de perguntas.

  Eu fecho os olhos, tentando puxar qualquer lembrança. Qualquer detalhe. O rosto dele — do meu marido — deveria estar claro na minha mente, mas não está. Só uma sensação. Algo frio e errado. 

  Penso em ligar para ele, mas não faço ideia do número dele. Imagino que tenha perdido o celular no mar. Perfeito.

  Horas depois — ou talvez minutos — passo por mais exames. Um neurologista me explica, com a calma de quem já disse aquilo mil vezes, que a confusão é normal. Que dois meses em coma não são exatamente férias. Que meu cérebro está se reorganizando, tentando reconectar coisas que foram interrompidas.

  — É um milagre você não apresentar sequelas graves — ele diz.

  Milagre.

  Eu olho para minhas pernas pesadas e distantes.

  — Elas parecem… chumbo.

  Ele sorri, compreensivo.

  — É esperado. Seu corpo ficou inativo por muito tempo. Pense em astronautas voltando do espaço. Leva um tempo para o corpo se adaptar novamente à gravidade.

  Ótimo. Virei uma versão de baixo orçamento de um astronauta.

  — Então eu não vou ficar assim para sempre?

  — Não — ele garante. — Com fisioterapia, tudo deve voltar ao normal. O exame de reflexo que fizemos mais cedo, nos seus pés, mostraram sinais de atividade motora, mesmo que lenta, o que é normal no seu estado. 

  Normal. Outra palavra que parece distante demais.

  Quando finalmente sou deixada em paz, o cansaço me engole de um jeito inevitável. A medicação ajuda. Meu corpo desiste antes mesmo que minha mente consiga acompanhar. Eu durmo.

  E, pela primeira vez desde que acordei, eu lembro. Não como um filme completo, mas como um corte brusco.

  O vento. A borda. A mão dele no meu braço. E o olhar. Frio. Vazio.

  — Você não devia ter saído do quarto. 

  Eu acordo com um sobressalto, puxando o ar com força, como se ainda estivesse caindo.

  O quarto volta aos poucos. As máquinas, a luz fraca, o silêncio. Mas a sensação fica. 

  Agora eu sei. Aquilo não foi um acidente. Eu não caí. Eu fui empurrada.

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