Mundo ficciónIniciar sesiónEu não sei quanto tempo fico ali. Horas, provavelmente. Talvez mais.
O sol muda de posição pela janela do escritório, deslizando devagar pela mesa, pela tela, pelo meu rosto, como se estivesse marcando o tempo que eu levo para desmontar — e me remontar — diante de uma versão da minha vida que eu nunca quis enxergar. As notícias não param. Uma após a outra. Cada clique é um novo corte. Cada linha, uma confirmação de que Andrew não apenas seguiu em frente. Ele prosperou. Fotos dele sorrindo em eventos, entrevistas cuidadosamente ensaiadas, declarações sobre “um período difícil” após o desaparecimento da esposa. Eu. Sempre no passado, sempre envolta em uma aura de tragédia conveniente. E então… o golpe final. O funeral. Eu fico encarando a tela por tempo demais, tentando entender como aquilo é possível. Como alguém pode enterrar uma pessoa sem ter certeza de que ela está morta. Como alguém pode discursar sobre perda, quando foi ele quem causou tudo. A matéria descreve tudo com uma delicadeza quase ofensiva. Flores. Discursos emocionados. Andrew visivelmente abalado. Amigos próximos oferecendo apoio. Eu aperto os dentes. Visivelmente abalado. Eu quase rio, mas o som não sai. O que vem é outra coisa. Raiva. Ela começa baixa, como um incômodo no fundo do peito. Algo novo, estranho, desconfortável. Eu nunca fui uma pessoa raivosa. Passei a vida inteira engolindo comentários desconfortáveis sobre o meu corpo, olhares tortos, risadinhas mal disfarçadas. Aprendi cedo que era mais fácil rir junto do que brigar. Mas isso aqui não cabe em silêncio. A raiva cresce e se espalha. Ela queima. Eu sinto meu peito subir e descer mais rápido, os dedos apertando o mouse com força demais, como se aquilo fosse segurar alguma coisa que já escapou há muito tempo. Ele ficou com tudo. A empresa. O cargo de presidente. O dinheiro. A herança dos meus pais. Tudo. E eu fui reduzida a uma nota de rodapé. Uma ausência elegante e uma memória conveniente. — Filho da mãe… — murmuro, a voz tremendo entre incredulidade e ódio. E então vem a lembrança. Não fragmentada como antes. Ela vem completa. Eu vejo. O corredor do hotel. O beijo com outra. A forma como ele nem tentou negar. O penhasco. As palavras sinceras e cruéis. A mão. O empurrão. Meu estômago revira, e eu levo a mão à boca, tentando segurar a náusea. — Você não devia ter visto. Eu fecho os olhos com força, mas agora não adianta. Eu lembro de tudo. E, pela primeira vez na vida eu quero machucar alguém de volta. *** — Melinda? A voz de Joseph me puxa de volta. Eu nem percebi quando ele chegou. Viro o rosto lentamente, sentindo os olhos arderem. Quando piscam, percebo o quanto estão inchados. Chorei. Muito. Mas, curiosamente, não me sinto mais fraca por isso. Me sinto afiada, como nunca senti antes na vida. Ele se aproxima devagar, observando o ambiente, a tela do computador ainda aberta, as abas de notícias escancaradas como provas de um crime que ninguém investigou direito. — O que aconteceu? Você está bem? Eu solto o ar, rindo para não chorar de novo. — Eu fui enganada, Joseph. — digo, simples. — Pelo meu marido. Ele não se assusta com a frase. Mas se senta ao meu lado, mais atento agora. — Por que você diz isso? Eu viro o monitor um pouco mais para ele, como se aquilo fosse suficiente para explicar tudo. Mas não é. Então eu falo. — Ele me empurrou — digo, encarando a tela, não ele. — Do penhasco. Ele queria... me matar. O silêncio se instala de forma densa, pesada. — Eu vi ele com a assistente — continuo, a voz firme apesar do caos interno. — Confrontei. Pedi o divórcio. — Dou uma pausa curta, engolindo seco. — E ele decidiu que precisava se livrar de mim para não perder tudo. Joseph não fala nada por alguns segundos. E isso me diz muito. — Você tem certeza? — ele pergunta, por fim, com cuidado. Eu viro o rosto para ele. — Eu lembrei — respondo. — Não foi um sonho. As lembranças vieram... como um carrosel, sem parar. Como um filme ruim, que se repete depois de assistir a uma primeira vez. Ele passa a mão pelo rosto, pensativo. — Isso muda tudo… — Muda nada — retruco, rápida demais. — Se eu aparecer agora, dizendo que ele tentou me matar, o que eu tenho? Memória? Trauma? — solto uma risada amarga. — Ele pode dizer que eu surtei, que inventei, que caí sozinha. Joseph não nega. — Vai ser um impacto enorme você aparecer viva — ele diz. — Isso por si só já vira tudo de cabeça para baixo. Eu o encaro. — Você já sabia, não sabia? Ele sustenta meu olhar por um segundo antes de responder. — Eu descobri algumas coisas quando pesquisei pelo seu nome — admite. — Mas… não sabia como te contar. Eu desvio o olhar, voltando para a tela. — Então me diz — falo, mais baixo. — O que eu faço? Ele hesita. — É complicado, Melinda — responde, escolhendo as palavras. — Isso é uma tentativa de assassinato. Ele pode… tentar de novo se souber que você está viva. Eu sinto algo endurecer dentro de mim. — Ele já tirou tudo de mim — digo, virando o corpo na direção dele. — Minha vida, meu nome, minha história… até a herança dos meus pais. — Minha voz falha por um segundo, mas eu continuo. — Eu não vou passar o resto da vida me escondendo como se eu tivesse feito algo errado. O silêncio se alonga. E então eu digo, com uma clareza que me surpreende: — Eu quero tudo de volta. Joseph ergue levemente as sobrancelhas. — E…? Eu sustento o olhar dele. — E quero me vingar. A palavra sai limpa. Sem hesitação. Sem culpa. Ele me observa como se estivesse tentando entender até onde eu iria. — Como você pretende fazer isso? Eu não sei. Ainda não. Mas sei por onde começar. Eu olho para ele. Direto nos olhos dele. — Vou precisar da sua ajuda. Ele solta um suspiro longo, apoiando as mãos nos joelhos. — Talvez… a gente possa se ajudar. Eu franzo a testa. — Como assim? E, pela primeira vez desde que o conheci, Joseph parece desconfortável. Ele passa a mão pela nuca, desviando o olhar por um segundo. — Minha mãe — começa. — Como eu já comentei, ela está obcecada com a ideia de me casar. Vive organizando jantares, encontros com mulheres que eu nem conheço. Eu não consigo evitar. Eu rio só de imaginar a mãe dele fazendo essa pressão toda. No meio do caos, da raiva, da dor… eu rio. — E onde eu entro nisso? Ele olha para mim de novo. — A gente poderia fingir que está junto. Por um tempo. Só até ela parar, sossegar e me deixar em paz, sabe. Eu inclino a cabeça, analisando. — Você quer que eu seja sua namorada de mentira? — Algo assim. Eu olho para mim mesma. Para o meu corpo. Para tudo o que sempre foi usado contra mim. — Você realmente acha que eu sou a melhor escolha pra isso? Ele não hesita. — Acho que você precisa parar de se subestimar. Eu solto um sopro. — Eu não me subestimo. Eu sou realista. Ele cruza os braços. — E o que exatamente você acha que precisa mudar? Eu me inclino um pouco na direção dele, apoiando os cotovelos na mesa. — Me transforme. Ele pisca. — Em quê? Eu sustento o olhar dele. — Em alguém que Andrew não reconheça. O silêncio se instala de novo. Mas agora é diferente. Joseph se levanta, começa a andar pelo escritório, passando a mão pelo cabelo, claramente processando. — Você tem certeza de que quer algo assim? — pergunta, sem me encarar. — Não — respondo, honesta. — Mas é o que eu tenho. Ele para e vira para mim. — Isso não é só sobre mudar aparência, Melinda. — Eu sei. — É sobre identidade. Vida. Risco. Eu dou um pequeno sorriso. — Eu já morri uma vez, lembra? Ele me encara. Por segundos longos e profundos. E eu não desvio. — Eu faço o que for preciso — continuo. — O que você quiser. Mas me ajuda a recuperar o que é meu. Ele respira fundo. — Então você aceita me ajudar com a minha mãe? Eu inclino a cabeça, um traço de ironia voltando ao meu tom. — Eu vou ser a melhor nora que aquela mulher já viu. Dessa vez, ele ri, de verdade. E, por um segundo, no meio de toda essa loucura, parece que a gente acabou de resolver todos os nossos problemas. Com um contrato verbal, sem papel. Sem testemunha. Mas com consequências grandes o suficiente para mudar tudo. Joseph fica de frente para mim, inclina a cabeça para o lado e pergunta e pergunta: — Por onde começamos?






