Mundo ficciónIniciar sesiónA primeira vez que eu disse em voz alta que precisava emagrecer, Joseph me olhou como se eu tivesse acabado de sugerir queimar um quadro valioso só porque a moldura não combinava com a sala.
— Isso não é necessário — ele disse, apoiado no encosto da cadeira, os braços cruzados, a expressão calma demais para o tamanho da decisão que eu estava tomando. Eu girei o copo entre os dedos, observando o líquido âmbar deslizar pelas laterais do vidro, como se estivesse tentando encontrar um argumento ali dentro. — Necessário não é — respondi, sem olhar para ele. — Estratégico, sim. Ele soltou um suspiro baixo, daqueles que vêm carregados de discordância contida. — Você acha mesmo que precisa chegar a esse ponto? Eu levantei os olhos devagar, sustentando o olhar dele. — Eu acho que qualquer detalhe que quebre o padrão ajuda. E, convenhamos… — inclinei levemente a cabeça, com um meio sorriso ácido — eu nunca fui exatamente… discreta. Joseph não riu. Só ficou mais pensativo. — Você está tentando apagar quem você é. — Não — rebati, firme. — Estou tentando sobreviver ao que fizeram comigo. O silêncio que veio depois não foi de derrota. Foi de aceitação. Ele sabia que não ia me convencer. E, no fundo, eu sabia que ele estava preocupado. Mas preocupação não paga o preço de ter sido empurrada de um penhasco. *** Os meses seguintes não foram bonitos. Não tiveram trilha sonora inspiradora, nem momentos cinematográficos de superação. Foram feitos de disciplina crua, de escolhas difíceis e de um tipo de cansaço que não aparece no corpo — aparece na cabeça. Viagens constantes, hotéis diferentes. Rotinas que mudavam conforme a cidade, mas com uma única constante: eu. Eu e a minha obsessão pela vingança. Eu acordava cedo, mesmo quando o fuso horário bagunçava tudo. Corria, treinava, comia o que precisava — não o que queria. Aprendi a dizer não para mim mesma com uma facilidade assustadora. E, aos pouco, meu corpo começou a mudar. Primeiro de forma sutil, depois inegável. Roupas que antes marcavam passaram a folgar. O espelho deixou de ser um inimigo e passou a ser um projeto. Mas não era sobre beleza, nunca foi. Era sobre desaparecer. Joseph me acompanhou em boa parte disso. Sempre presente, observando, sempre… controlado. Às vezes eu pegava ele me olhando de um jeito mais atento, como se estivesse tentando entender onde aquilo tudo ia dar. — Você não precisa ir tão longe — ele disse uma vez, encostado na porta do quarto de hotel enquanto eu verificava as roupas novas recém compradas em umas das lojas mais caras da cidade. — Eu preciso ir até onde for necessário — respondi, sem parar. — E se, no final, você não se reconhecer? Eu parei, por um segundo só. O suficiente para sentir o peso da pergunta. Então voltei para as roupas. — Melhor do que ser reconhecida por quem tentou me matar. Ele não respondeu. E eu não esperei que respondesse. *** Quase nove meses depois, eu já não era a mesma. Fisicamente, pelo menos. Mas, para mim, ainda não era suficiente. — Agora vem a parte divertida — falei, jogando a chave do quarto sobre a mesa. Joseph arqueou uma sobrancelha. — Cirurgias plásticas são a sua definição de diversão? — Não — respondi, pegando minha bolsa. — Mas são a parte que vai finalizar o trabalho. Ele ficou sério. Mais do que o normal. — Eu não posso ir com você dessa vez — disse, direto. — Tenho compromissos de trabalho. Já adiei o bastante e posso perder um contrato importante. Eu dei de ombros, como se aquilo não me afetasse. — Eu posso fazer isso sozinha, Joseph. Você já está me ajudando demais. Acho que nunca vou te agradecer o suficiente. — Eu gostaria mesmo de ir com você — ele respondeu. — Queria te acompanhar nessa loucura toda... e toda a sua mudança. Aquilo me pegou desprevenida por meio segundo. — Eu vou me sair bem — falei, abrindo a porta. — Vai se orgulhar de mim. Ele não sorriu, só balançou a cabeça, como se finalmente estivesse aceitando os fatos. — Eu já me orgulho. Eu não respondi. Porque, por um instante, aquilo quase soou… diferente. *** O processo foi doloroso. Literalmente. Não tem glamour em se reconstruir. Tem inchaço, hematoma, desconforto, noites mal dormidas e aquela sensação estranha de não reconhecer o próprio reflexo por dias. Mas, aos poucos, a nova versão começou a aparecer. Meu rosto ganhou novos contornos. Meu corpo, já transformado pelo esforço, agora parecia lapidado. Finalizei tudo com um corte de cabelo que eu nunca teria coragem de fazer antes. Mais curto, mais moderno, mais eu, de um jeito que eu nunca tinha sido. As roupas finais vieram depois. E, pela primeira vez na vida, vestir algo não era um desafio. Era natural e simples. Eu me olhei no espelho do quarto em Santorini quando finalmente voltei. E, por um segundo, eu não me reconheci. Mas não foi tão assustador. Foi libertador. Estava deixando para trás uma versão antiga, que nunca me orgulhava, apesar de ter aceitado quem eu era. *** Joseph chegou dois dias depois. Eu estava sentada na varanda, observando o mar, quando ouvi a porta abrir. — Melinda? A voz dele veio cautelosa. Eu me levantei devagar, virando na direção dele. E assisti, em tempo real, o momento exato em que o cérebro dele falhou. Os olhos passaram por mim. Ignoraram, depois voltaram. Pararam. Se arregalaram. — …Melinda? Eu sorri. — Em carne, osso… e algumas pequenas melhorias. Ele ficou em silêncio por alguns segundos, me analisando de cima a baixo, como se estivesse tentando encaixar aquela imagem na memória antiga. — Isso é… — ele passou a mão pelo cabelo, claramente impactado — você é mesmo você? — Espero que sim — respondi, dando uma voltinha leve, quase teatral. — Ou eu passei esses meses todos sofrendo à toa. Ele soltou uma risada baixa, ainda incrédulo. — Eu definitivamente não teria te reconhecido. — Ótimo — falei, satisfeita. — Esse era o plano. Ele me olhou de novo, mais atento dessa vez. Mais cuidadoso. — Você merece um jantar — disse, por fim. — Para comemorar essa… transformação. Eu cruzei os braços, erguendo uma sobrancelha. — Está me chamando para um encontro, Joseph? — Estou dizendo que você não passou por tudo isso para comer sozinha. Eu sorri. — Aceito. — Ótimo, porque eu tenho notícias pra você. *** O restaurante era sofisticado na medida certa, com vista para o mar e luz baixa o suficiente para esconder pensamentos perigosos. Eu girei a taça de vinho entre os dedos, observando Joseph do outro lado da mesa. — Então — comecei — você disse que tinha notícias. Ele assentiu, apoiando os cotovelos na mesa. — Tenho. Algo no tom dele me fez ficar mais atenta. — Andrew se casou. Eu não reagi de imediato. Só levei o vinho aos lábios, tomando um gole pequeno. — Rápido — comentei, seca. — Com aquela... assistente. Eu soltei um riso curto. — Pelo menos ele é consistente. Joseph me observou por um segundo antes de continuar. — Ela está grávida. Dessa vez, eu pausei. Não por tristeza. Mas por algo mais frio. — Claro que está — murmurei, apoiando a taça na mesa. — O pacote completo. Como você…? — Descobri? — ele completou. Eu assenti. — Encontrei ele em uma das minhas viagens — explicou. — Evento de negócios. Ele estava entre os contatos. Acabamos jantando com outros executivos. Meu estômago revirou, mas eu mantive a expressão neutra. — E? — Ele comentou. Disse que tinha se casado recentemente e que seria pai. — Joseph fez uma pausa breve. — O clima ficou estranho. Tenhon certeza de que… pensaram em você. Eu inclinei a cabeça. — Da esposa morta. — É. Eu dei um meio sorriso, sem humor. — Ele soube jogar bem, me tirando de tudo. Agora isso. Joseph não discordou. — Você parece… tranquila demais. Eu dei de ombros. — Eu já espero qualquer coisa dele. Andrew não tem limites. Nunca teve. — olhei diretamente para Joseph. — Ele faz o que for preciso para conseguir o que quer. O silêncio se instalou por alguns segundos. E então ele perguntou: — Você está pronta? Eu ergui a taça, girando o vinho mais uma vez. — Para quê? — Para o primeiro ato. Eu levei o vinho aos lábios, tomando um gole mais demorado dessa vez. Sentindo, pensando. Decidindo. Quando abaixei a taça, meus olhos encontraram os dele. — Eu já fiz todas as mudanças necessárias — disse, calma. — Agora vem a parte mais divertida. Ele inclinou levemente a cabeça. — Que seria? Eu sorri. — Aparecer. O olhar dele… escureceu. — E confundir ele — completou.






