Mundo de ficçãoIniciar sessãoO silêncio da mansão era sufocante um peso vivo que esmagava o ar, os pulmões, o peito. Depois que a porta se fechou com aquele clique seco e definitivo, fiquei parada no centro da sala, braços cruzados como se pudessem me proteger do vazio que me devorava. O lugar era opulento demais: móveis de madeira escura polida que pareciam absorver a luz, tapetes persas grossos que abafavam qualquer som de passos, lustres de cristal jogando prismas frios pelo chão como lâminas de gelo. Tudo gritava riqueza. Poder. Controle absoluto.
Para mim, era só uma gaiola dourada. Um castelo cruel onde eu era a prisioneira mais nova.
Meu coração ainda martelava, raiva e medo entrelaçados em um nó que doía no peito. Eu deveria estar em casa agora terminando o jantar, revisando livros de anatomia, sonhando com o primeiro dia na faculdade. Aquela universidade era minha salvação, o único futuro que eu conseguia enxergar além das promessas quebradas dessa vida. Agora tudo foi arrancado. Eu era refém de um homem que me via como moeda de troca, como propriedade.
Caminhei até uma das janelas altas, dedos trêmulos afastando as cortinas pesadas de veludo. Do lado de fora, a escuridão engolia o jardim: árvores antigas como sentinelas, portões de ferro negro que pareciam dentes cerrados. Intransponíveis. Eu escapara por pouco da boate, mas aqui era outra coisa. Uma fortaleza. E eu não tinha a menor ideia de como sair.
Ainda assim, jurei em silêncio: eu encontraria um jeito. Dante Moretti não me conhecia. Não sabia do que eu era capaz quando encurralada.
Um rangido leve na porta me fez girar nos calcanhares, coração disparando de novo. Uma mulher de meia-idade entrou, avental impecável contrastando com o olhar firme e cansado. Cabelos grisalhos presos em coque apertado, expressão que misturava autoridade e uma suavidade que não combinava com o lugar.
— Você deve ser Emma — disse ela, voz calma mas com tom que não admitia contestação. — Sou Maria, a governanta. Dante pediu que eu garantisse que você tivesse tudo o que precisa.
— Tudo o que preciso? — retruquei, sarcasmo pingando. — O que eu preciso é da minha liberdade, Maria.
Ela suspirou, cruzando os braços.
— Entendo que esteja brava, menina. Mas brigar com o que não pode mudar só vai te esgotar mais rápido. Venha. Vou te mostrar seu quarto. Você precisa descansar.
— Eu quero ir para casa — implorei, voz mais baixa, quase quebrada. — Por favor.
Maria me olhou nos olhos castanhos olhos que pareciam ver demais.
— Dante disse que é para o seu próprio bem. Ele nunca traz ninguém para esta casa. Nunca. Devia se sentir... honrada. Ela começou a andar, como se a conversa tivesse acabado. — Aqui não vai te faltar nada. Exceto o que você mais quer, imagino.
Subimos a escadaria larga, corrimões esculpidos com detalhes que pareciam zombar da minha situação: vinhas entrelaçadas, flores que nunca murchavam. Maria me levou a um quarto no andar superior cama de dossel com lençóis de seda preta, móveis pesados, uma janela com vista para o mesmo jardim escuro. Lindo. Frio. Como tudo aqui.
— Se precisar de mim, é só chamar — disse ela na porta. — E, Emma... não tente nada estúpido. Esta casa é mais segura do que parece. E Dante não aceita insolência. Não confunda a gentileza dele com fraqueza.
Ela saiu. Clique da porta. Eco como sentença.
Sozinha, o nó na garganta apertou. Nem celular ele me deixara trazer. Nada. Sentei na beira da cama, corpo pesado, e fiz a única coisa que consegui: chorei até o cansaço me levar. Lágrimas quentes, silenciosas, até o sono me engolir.
Acordei com olhos inchados, pálpebras pesadas como chumbo.
Um som leve interrompeu o silêncio um risinho abafado, como alguém tentando se esconder.
Levantei de um salto, varrendo o quarto com os olhos.
— Quem está aí? — perguntei, voz firme apesar do susto.
Uma cabecinha surgiu de trás da cortina pesada: cabelos castanhos bagunçados, olhos negros brilhando com curiosidade pura. Um menino, não mais que seis anos, magro, sorriso travesso que parecia deslocado naquele lugar sombrio. Ele saiu do esconderijo segurando um carrinho de brinquedo vermelho.
— Você é a Emma? — perguntou, voz aguda e cheia de energia. — Vai morar aqui com a gente agora?
Pisquei, confusa, tentando processar.
— Quem é você? — retruquei, ainda tensa.
— Meu nome é Luca — disse ele, dando um passo à frente, girando o carrinho entre os dedinhos. — Eu moro aqui. Quer brincar? Tenho um monte de carrinhos. Podemos fazer uma pista gigante!
A naturalidade dele me desarmou por um instante um raio de luz em meio à escuridão. Mas a desconfiança voltou rápido.
— Você mora aqui? — perguntei, franzindo a testa. — Com quem?
— Com meu pai — respondeu, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
Meu coração parou.
Dante Moretti tinha um filho?
Todo mundo na cidade conhecia a história: anos atrás, ele perdera a esposa e o filho em um acidente de carro. Era o único detalhe que humanizava o monstro sussurrado com pena até pelos que o temiam. Mas ali estava: um menino vivo, olhos negros idênticos aos dele, versão menor e inocente do homem que eu odiava.
— Dante é seu pai? — repeti, voz quase sussurro. — Mas... como?
Luca deu de ombros, alheio à minha confusão.
— Ele é meu pai. Sempre morei aqui. Só que ele não gosta que eu saia muito. Diz que é perigoso lá fora — explicou, fazendo careta como se perigo fosse só um incômodo chato. — Então... quer brincar ou não?
Eu o encarei, mente girando. Se Luca existia, por que ninguém sabia? Por que esconder uma criança? A história do acidente era mentira? Ou havia algo muito pior? Cada pergunta abria um abismo maior, e a imagem de Dante cicatriz cruel, olhos impenetráveis ficava ainda mais enigmática. E perigosa.
— Talvez mais tarde, Luca — respondi, forçando um sorriso. — Eu gostaria de tomar um ar.
Ele fez beicinho, mas assentiu.
— Tá bom. Mas acho que só pode ir no jardim. Meu pai não gosta que a gente saia da casa. Vou avisar a Maria que você acordou disse, correndo para a porta com pés leves, e desapareceu pelo corredor, deixando um rastro de inocência que doía no peito.
Sozinha de novo, sentei na cama, peso da descoberta misturando-se à raiva e ao medo. Dante Moretti escondia um filho. Um menino vivo, esperto, cheio de vida que não se encaixava na narrativa trágica que todos repetiam.
O que mais ele escondia?
Não demorou para Maria entrar.
— Perdoe Luca — disse ela, olhando-me com algo que parecia pena. — O pai disse que tínhamos uma nova moradora. Ele ficou ansioso. Dante disse que você agora vive aqui. Ele vai explicar as regras no café da manhã. Ele já te espera.
Senti um arrepio descer pela espinha.
O que ele queria comigo?
Ele aceitara a proposta do meu pai. Alguém assim era capaz de qualquer coisa.
E eu estava prestes a descobrir o quê.







