Capítulo 04

 Dante 

O ronco do carro se afastando cortou o silêncio da noite como uma lâmina. Emma estava indo embora daquela casa miserável  para a minha. Fiquei parado na sala fedendo a álcool rançoso e medo, o charuto ainda queimando entre os dedos, fumaça subindo em espirais preguiçosas enquanto o peso do que eu acabara de fazer se assentava no peito. Não era culpa. Culpa era para homens que ainda tinham alma. Eu a perdera há anos. Mas havia algo... uma inquietação crua, uma sombra que aqueles olhos castanhos dela haviam cravado em mim como ferro quente.

Virei-me devagar, encarando o verme que ainda tremia no canto. Jorge Almeida. Encolhido contra o sofá como um rato acuado, rosto pálido, suor escorrendo, olhos arregalados me fitando como se eu fosse o próprio diabo. Talvez eu fosse. Mas se eu era o diabo, ele era algo pior: um covarde que vendia a própria filha como carne barata para ganhar mais um dia de vida.

— Levante-se — ordenei, voz baixa, mas carregada de raiva que eu mal continha.

Ele obedeceu cambaleando, mãos trêmulas se apoiando no braço do sofá sujo.

— Dante, eu... eu não queria... — começou, voz rouca e patética.

Levantei a mão. Corte seco.

— Não me venha com desculpas imundas. — Dei um passo à frente. O fedor de álcool velho e medo dele me acertou como soco no estômago. Nojo subiu pela garganta. — Eu sei do seu acordo com Salazar. Acha que não tenho olhos em cada esquina dessa cidade? Você ofereceu sua filha para aquele animal. Achou que eu não descobriria, seu filho da puta?

Ele abriu a boca. Nada saiu. Apenas um gemido baixo, animalesco.

Joguei o charuto no chão. Esmaguei com o calcanhar. Som seco ecoando na sala como osso quebrando.

— Você me enoja — rosnei, voz caindo para um tom quase animal. — Um homem que entrega a filha para um monstro como Salazar não merece respirar o mesmo ar que ela. Eu te recusei naquela noite porque achei que você não podia cair mais baixo. Mas você caiu. E caiu fundo.

— Dante, por favor... — implorou, olhos marejados, voz quebrada.

— Chega. — Apontei o dedo para ele, perto o suficiente para que sentisse o calor da minha raiva. — Vim aqui para te dar uma chance de pagar sua dívida comigo. Mas você não merece nem isso. Escute bem: Emma está sob minha proteção agora. Ela é minha responsabilidade. Você perdeu qualquer direito no momento em que abriu essa boca podre para negociá-la.

Ele piscou, confuso, como se as palavras não fizessem sentido.

— Mas... ela é minha filha...

— Queria que ela se prostituísse para bancar seus vícios, não é? — cuspi, enojado só de imaginar. — Não acho que sua filha sirva como puta. Não para você. Nem para ninguém.

Ele baixou o olhar para o chão, um lixo humano.

— O que vai fazer com ela? — perguntou, voz quase inaudível.

— Saia desta cidade — respondi, cada palavra afiada como navalha. — Pegue o que sobrou dessa vida miserável e suma. Não volte. Nunca. Se eu te vir perto dela de novo, eu acabo com você. E não vai ser rápido. Nem limpo.

Ele me encarou, rosto desmoronando em lágrimas silenciosas. Não senti pena. Apenas desprezo puro. Virei as costas, ajustei o casaco e caminhei para a porta sem olhar para trás. O ar frio da noite me envolveu lá fora  cortante, mas não tão gelado quanto o vazio que aquele homem deixara no meu peito.

A viagem de volta foi silenciosa. O ronco do motor preenchia o espaço que meus pensamentos se recusavam a ocupar. Quando os portões da mansão se abriram automaticamente, o carro deslizou até a entrada principal. A casa estava quieta, luzes suaves nas janelas contrastando com a escuridão que sempre a cercava. Subi os degraus, eco dos meus passos reverberando no salão de mármore frio.

Maria apareceu no corredor, avental impecável, mas testa franzida — sinal raro de preocupação.

— Senhor Dante — começou ela, cruzando os braços. — A garota. Instalei-a no quarto do andar de cima, como mandou. Mas... ela não está bem. Não parou de chorar desde que chegou. Tentei acalmá-la, mas está muito aflita.

Parei. As palavras me acertaram como parede. Emma chorando. Claro que estava. Eu a arrancara da vida dela, jogara-a no meu mundo sombrio. Mas imaginar aqueles olhos castanhos cheios de lágrimas, rosto molhado, corpo pequeno tremendo... mexeu comigo de um jeito que eu não esperava. Uma pontada no peito — algo que eu odiava admitir. Culpa? Não. Algo pior: desejo misturado com necessidade de proteger.

Balancei a cabeça, afastando a imagem.

— Ela vai se acostumar — murmurei, mais para mim mesmo. — Não tem escolha.

Maria me olhou de lado, aquele olhar que dizia que ela via através de mim.

— Não sei o que espera, Dante, mas vai ter trabalho com ela. Muito trabalho.

— Eu sei — respondi, voz mais dura do que pretendia. — Pode ir descansar, Maria. Eu cuido disso.

Ela assentiu, hesitante, e se retirou pelo corredor. Fiquei sozinho no hall, silêncio da casa me engolindo como sempre. Emma estava lá em cima, chorando por minha causa. Presa. Minha.

E mesmo assim... eu não conseguia me arrepender. Ela estava segura comigo. Longe de Salazar. Longe daquele pai inútil. Longe de qualquer um que pudesse machucá-la.

Mas enquanto subia as escadas devagar, o som imaginário dos soluços dela ecoava na minha cabeça. E eu sabia que Maria estava certa. Emma me daria trabalho. Muito.

E, no fundo  bem no fundo, onde eu não admitia nem para mim mesmo , uma parte sombria queria exatamente isso. Queria que ela lutasse. Que me enfrentasse. Que me desafiasse com aqueles olhos de fogo. Porque quanto mais ela resistisse... mais eu ia querer dobrá-la. Devagar. Até que ela se rendesse. Até que gritasse meu nome não de ódio... mas de outra coisa.

Parei no topo da escada, mão no corrimão frio. Olhei para o corredor escuro que levava ao quarto dela.

Ela era minha agora.

E eu ia provar isso para ela. Para mim. Para o mundo.

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