Capítulo 3

Capítulo 3

— O que é isso? — perguntou, a voz perigosamente baixa.

Lara não conseguiu falar. As palavras da mãe ainda pulsavam em sua cabeça como veneno: Ele só quer foder você até se cansar.

Enzo pegou a carta. Enquanto lia, o ar ao seu redor pareceu condensar. Seu maxilar travou. Quando terminou, amassou o papel com uma lentidão cruel, como se estivesse quebrando ossos.

— Eu sabia que sua mãe era uma cobra — murmurou. — Mas não imaginei que fosse burra a ponto de deixar provas.

Lara ergueu o olhar, atordoada.

— Você… sabia?

Enzo agachou-se diante dela. Dessa vez não havia nenhuma suavidade. Apenas posse pura. Ele segurou seu queixo com firmeza, obrigando-a a encará-lo.

— Eu investiguei cada membro da sua família antes mesmo de você entrar naquele elevador, Lara. Sua mãe desviou quase dois milhões do espólio do seu pai. Dinheiro que poderia ter quitado parte da dívida com os Ortega. Em vez disso, ela escondeu tudo em uma conta fantasma. Enquanto isso, te usava como escudo humano, te manipulava com crises falsas e permitia que seu irmão te ameaçasse.

Cada palavra era uma facada. Lara sentiu o peito rachar. Anos de sacrifício, de culpa, de noites sem dormir… tudo por nada.

— Por quê? — sussurrou, a voz embargada.

— Porque para ela você nunca foi uma filha. Foi uma ferramenta. — Enzo deslizou o polegar pelo lábio inferior dela, o toque ao mesmo tempo carinhoso e brutal. — E isso termina hoje. Agora.

Ele se levantou e começou a andar pelo quarto como um animal enjaulado. Parou de repente e virou-se para ela.

— Regras. Não são negociáveis. Você não fala com eles sem minha autorização. Não sai deste apartamento sem segurança armada. Não atende chamadas, não lê mensagens, não abre cartas sem me mostrar primeiro. Eles estão mortos para você, Lara. Mortos.

Ela sentiu um arrepio violento.

— Você está me prendendo.

Enzo aproximou-se em duas passadas largas. Seus olhos negros pareciam carvão em brasa.

— Estou te protegendo. E vou destruir qualquer um que tente te tocar novamente. Incluindo sua própria sangue.

O celular dele tocou. Enzo atendeu com visível irritação, mas sua expressão rapidamente se transformou em gelo puro.

— Theo — disse, o nome saindo como uma maldição. — Você realmente tem coragem de me ligar.

Lara observou, paralisada, enquanto Enzo ouvia. A conversa era curta, cortante. Quando ele falou novamente, sua voz estava carregada de promessa de violência:

— Ameaçe-me de novo e eu não vou apenas destruir sua empresa, Theo. Eu vou enterrar você e toda a sua linhagem. E depois vou mandar os restos para os Ortega como aviso.

Ele desligou.

— Theo Andrade — explicou, voltando o olhar para ela. — Um verme que quer engolir meu império há anos. Agora que farejou você, acha que encontrou minha fraqueza.

Antes que Lara pudesse responder, Enzo a puxou do chão com facilidade, segurando sua nuca com uma mão possessiva. Seus corpos colidiram. Ele não pediu. Não hesitou.

Beijou-a como se estivesse marcando território.

Não era um beijo romântico. Era fome. Raiva. Domínio absoluto. Sua língua invadiu sua boca com urgência, como se quisesse apagar cada palavra venenosa que a mãe havia escrito nela. Uma das mãos dele desceu até sua cintura, pressionando-a contra seu corpo duro, enquanto a outra mantinha sua nuca firme, impedindo qualquer recuo.

Lara soltou um gemido abafado, metade chique, metade rendição. O mundo desapareceu. Só existia o calor dele, o gosto de uísque e fúria, o coração dele batendo violentamente contra o dela. Por um segundo, ela se permitiu cair. Apenas sentir.

Quando Enzo se afastou, seus olhos estavam quase pretos.

— Você é minha agora, Lara Ventura. E eu queimo o mundo antes de deixar alguém te tirar de mim.

Do outro lado do corredor, escondida na penumbra da sala de estar, Camila baixou o celular. O vídeo que acabara de gravar era nítido, cruelmente claro: o beijo, o gemido, as mãos de Enzo marcando território.

Ela sorriu, um sorriso frio e enviou o arquivo.

Não apenas para Helena.

Enviou também para Theo Andrade e para o contato principal dos Ortega.

A mensagem que acompanhava o vídeo era curta e letal.

“Ele já está obcecado. A garota é a fraqueza dele. Quando ele vier atrás de nós, estará cego. É só esperar o momento certo.”

Camila guardou o celular, ajeitou o cabelo e saiu do apartamento em silêncio, como se nunca tivesse estado ali.

No quarto, Lara ainda tocava os lábios formigantes, o corpo traidor tremendo de desejo e medo. Ela olhou para Enzo, que a observava como se já a possuísse em todos os sentidos.

Por um instante, ela quase acreditou que estava segura.

Quase.

Porque do outro lado da cidade, dentro de um escritório luxuoso e mal iluminado, Helena Ventura assistia ao vídeo pela terceira vez. Ao seu lado, Theo Andrade sorria. E do outro lado da mesa, um homem com sotaque carregado dos Ortega acendia um charuto.

Helena ergueu os olhos, o rosto iluminado por um sorriso lento e venenoso.

— Perfeito — sussurrou ela. — Ele vai destruir tudo para protegê-la… e quando estiver mais vulnerável, nós vamos destruir ele. Com a própria filha dele como arma.

Ela olhou novamente para o vídeo, onde Enzo devorava a boca de Lara.

— Bem-vinda ao jogo, filha.  

Dessa vez, ninguém vai te salvar.

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