Capítulo 2

Capítulo 2

Os passos de Lara sobre o mármore negro da cobertura pareciam anunciar sua própria rendição. Cada clique dos saltos ecoava como um veredito. O contrato que acabara de assinar ainda queimava em sua bolsa, mas eram as palavras de Enzo que realmente a marcavam na pele: “Você não vai mais carregar o peso dessa família sozinha.”

Ninguém nunca havia dito isso a ela sem querer algo em troca. E Enzo Ravelli, ela sabia, queria tudo.

O elevador privativo a deixou diretamente no quadragésimo segundo andar. Quando as portas se abriram, o ar mudou. Luxo frio, impessoal e absurdamente masculino. Vidros do chão ao teto, mármore negro, um perfume amadeirado e caro pairando como uma assinatura invisível. Lara sentiu-se uma intrusa. Uma mancha num quadro que não fora feito para ela.

Enzo estava de costas, junto à parede de vidro, observando São Paulo sangrar em tons de laranja e vermelho. Mesmo imóvel, ele dominava o ambiente inteiro.

— Entre — ordenou, sem se virar. — E feche a porta.

O clique da porta soou no ambiente e Lara parou no centro da sala, coluna rígida, dedos brancos ao redor da alça da bolsa. Enzo virou-se devagar. O mesmo olhar de antes, aquele que não pedia permissão, que media, que marcava território. Seus olhos desceram por ela com uma lentidão deliberada, quase indecente, demorando-se no tailleur gasto, no descosturado da saia, nos ombros tensos que carregavam anos de exaustão.

Ele não disse nada por quase um minuto. Apenas observou. Como se já a estivesse saboreando.

— Sente-se.

Lara obedeceu, sentando na beirada do sofá de couro. Enzo tirou o paletó com um movimento fluido, a camisa branca colando nos ombros largos e no peito definido. Serviu dois copos de água, colocou um diante dela e sentou-se na poltrona à frente, invasivamente perto.

— Agora — disse ele, voz grave e baixa —, quero toda a verdade. Sem filtros. Sem vergonha.

As palavras saíram dela como sangue de uma ferida antiga. O pai morto. Os nove milhões em dívidas com os Ortega. A mãe manipuladora. O irmão que a ameaçava de vendê-la como se fosse mercadoria. Enquanto falava, Lara sentia a humilhação queimar sua garganta.

Enzo escutava em silêncio absoluto. Mas seus olhos... seus olhos escureciam a cada palavra.

Quando ela terminou, ele inclinou o corpo para frente, antebraços apoiados nas coxas, invadindo ainda mais seu espaço.

— Errado — rosnou baixinho. — Você não tem mais família, Lara. Agora você tem a mim.

O celular vibrou. “Mãe” brilhava na tela.

— Atenda — ordenou ele. — Viva-voz.

A performance de Helena foi impecável: voz fraca, gemidos de dor, culpa destilada, a ameaça velada dos Ortega. Quando a ligação terminou, o silêncio que ficou era pior do que qualquer grito.

Enzo não se alterou. Levantou-se, preencheu um cheque de dois milhões e quinhentos mil reais e o deslizou sobre a mesa como se fosse trocado.

— Isso resolve o imediato. O resto eu destruo pessoalmente nos próximos dias. Mas tem condições.

Lara ergueu os olhos, alarmada.

Enzo agachou-se diante dela. Segurou seu queixo com firmeza, o polegar acariciando o maxilar num contraste perigoso entre ternura e domínio absoluto.

— Você se muda hoje. Agora. Não vai voltar para aquela casa enquanto aqueles parasitas respirarem. Eles não vão mais te tocar. Nem com palavras, nem com culpa, nem com ameaças de merda. Entendeu?

Seu polegar deslizou até o lábio inferior dela, pressionando levemente.

— Eu cuido do que é meu. E você, Lara... você já é minha desde o momento em que entrei naquela sala de entrevista.

Horas depois, quando o elevador privativo se abriu novamente na cobertura, a mão de Enzo repousava firme na base de suas costas — um toque quente, inescapável, possessivo. Ele a guiou até um quarto amplo no final do corredor.

— Amanhã queimamos esse tailleur — murmurou ele antes de fechar a porta, deixando-a sozinha.

Lara soltou o ar preso nos pulmões. Caminhou até a cama king size e congelou.

Um envelope branco repousava perfeitamente sobre o travesseiro. A caligrafia era inconfundível. Com as mãos trêmulas, ela o abriu.

As palavras de Helena eram veneno puro:

Você sempre foi uma idiota ingênua. Acha que um homem como Enzo Ravelli te quer por bondade? Ele só quer te foder até se cansar. Já fechamos um acordo melhor com os Ortega. Se não estiver em casa amanhã cedo, eles virão te buscar à força. Nem seu bilionário vai conseguir te proteger quando decidirem cobrar a dívida com sangue.

Não me decepcione novamente.

Com amor, Mamãe.

A carta escorregou de seus dedos.

Lara sentiu o mundo inclinar. Suas pernas cederam e ela deslizou pela parede até cair sentada no chão frio, abraçando os joelhos. O peito doía. A dúvida doía mais.

Talvez ela não tivesse sido salva.

Talvez tivesse acabado de entregar sua vida nas mãos de um monstro ainda mais perigoso.

Do lado de fora da porta, três batidas firmes soaram.

— Lara.

A voz de Enzo estava mais baixa que o normal. Quase suave. Mas havia algo por baixo — algo afiado, violento, prestes a romper.

Ela não respondeu, imediatamente a maçaneta girou e Enzo entrou, seus olhos varreram o quarto, encontraram a carta no chão, depois pousaram nela, encolhida contra a parede, olhos vermelhos, respiração curta. Ele leu a carta em segundos. Seu rosto não se alterou. Mas o ar da sala pareceu gelar dez graus.

Ele amassou o papel lentamente na mão, como se estivesse esmagando a garganta de alguém. Quando falou, sua voz saiu calma. Perigosa. Definitiva.

— Eles acabaram de cometer o último erro da vida deles.

Enzo caminhou até ela, agachou-se e, sem pedir permissão, segurou seu rosto com as duas mãos, obrigando-a a encará-lo. Seus olhos negros queimavam com algo selvagem, quase insano.

— Amanhã de manhã sua mãe e seu irmão vão descobrir que não existe mais acordo com os Ortega. Porque eu acabei de comprar a dívida deles... junto com a cabeça dos dois.

Ele encostou a testa na dela, a voz descendo para um sussurro rouco:

— E você, minha Lara... vai assistir de camarote enquanto eu destruo cada pessoa que ousou te machucar. Depois disso, não vai restar mais nenhuma dúvida de quem você pertence.

Enzo roçou os lábios de leve na testa dela, um gesto quase carinhoso que contrastava terrivelmente com as palavras seguintes:

— Bem-vinda ao inferno, princesa.

O seu antigo demônio acabou de acordar o pior de todos.

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