Mundo de ficçãoIniciar sessão
Cada passo sobre o mármore negro do saguão do Edifício Ravelli custava a Lara Ventura um esforço imenso. Os saltos baixos que usava eram o único par apresentável que lhe restava, mas pareciam feitos de chumbo. O tailleur cinza, comprado em uma brechó três anos antes, estava limpo e bem passado — ainda assim, gritava pobreza naquele lugar onde até o ar cheirava a dinheiro velho e poder absoluto.
Ela apertava a alça da bolsa contra o peito como se fosse um escudo. Mais uma entrevista. Mais uma chance de não voltar para casa de mãos vazias. Em casa, a mãe certamente andava de um lado para o outro na sala apertada, fumando um cigarro atrás do outro, enquanto Mateus... Mateus provavelmente ainda dormia ou planejava novos golpes.
O elevador chegou. Lara entrou junto com outras candidatas, todas vestidas com roupas que deviam custar mais do que seu aluguel mensal. Uma delas olhou de cima a baixo para seu tailleur. Lara ergueu o queixo, fingindo não notar, mas o rubor subiu pelo seu pescoço mesmo assim.
Eles não sabem, pensou. Não sabem que vendi o colar da vovó para pagar a conta de luz. Não sabem que minha mãe finge crises cardíacas para me manipular. Não sabem que meu irmão me ameaçou de novo ontem.
A mensagem de Mateus ainda queimava em sua memória:
“Mãe falou que se você não arrumar dinheiro hoje, vamos te vender pros Ortega.”
Lara fechou os olhos por um segundo. O nome Ortega bastava para lhe causar náuseas.
No vigésimo terceiro andar, a sala de espera era um monumento ao luxo: sofás de couro italiano, obras de arte originais e uma parede de vidro com vista para toda São Paulo. Oito candidatas já esperavam, todas com currículos impecáveis e sorrisos treinados. Lara sentou-se no canto mais afastado, cruzando as pernas com cuidado para esconder o pequeno descosturado na barra da saia.
Foi então que sentiu.
Um olhar.
Pesado. Intenso. Quase violento.
Lentamente, ergueu a cabeça.
Enzo Ravelli estava parado no corredor, conversando com uma mulher mais velha, mas seus olhos — negros, afiados, sem piedade — estavam cravados nela. Não era um olhar casual. Era um olhar que despia, que avaliava, que reivindicava.
Lara sentiu o ar escapar dos pulmões. O coração disparou com tanta força que ela temeu que ele pudesse ouvir do outro lado da sala. Havia algo de primal naquela forma como ele a observava. Como se já a conhecesse. Como se já tivesse decidido algo sobre ela.
“Quem é você?” pensou, desviando o olhar rapidamente.
A voz da assistente soou:
— Lara Ventura?
Ela se levantou depressa, alisando a saia com as mãos úmidas. Ao passar pelo corredor, sentiu o peso daquele olhar acompanhando cada movimento seu. Enzo não disfarçou. Continuou de braços cruzados, seguindo-a com os olhos como um predador que acabara de encontrar a presa.
Quando Lara passou por ele, ousou erguer o rosto por um breve instante.
O impacto foi brutal.
Alto, de ombros largos e postura dominante, Enzo Ravelli vestia um terno preto feito sob medida que não conseguia esconder a musculatura por baixo. O maxilar era anguloso, os traços duros, quase cruéis. Mas foram os olhos que a prenderam. Escuros como breu e, ao mesmo tempo, queimando.
Ele não sorriu. Apenas inclinou a cabeça de leve, como se confirmasse para si mesmo algo que só ele entendia.
Lara entrou na sala de entrevistas com as pernas trêmulas.
As perguntas da assistente eram previsíveis. Ela respondeu no automático, a mente ainda presa no homem do corredor. Dez minutos depois, a porta se abriu sem aviso.
Enzo Ravelli entrou.
O ar na sala pareceu rarear. Ele ocupou o espaço como se o mundo inteiro lhe pertencesse — e, de certa forma, pertencia. Sentou-se na cadeira principal, do outro lado da mesa, e cruzou as mãos sobre o tampo de vidro. Seus olhos voltaram a se fixar em Lara com a mesma intensidade sufocante.
— Deixe-nos a sós — ordenou à assistente, sem desviar o olhar.
Quando ficaram sozinhos, o silêncio caiu como uma sentença.
— Você está exausta — disse ele por fim, a voz grave e baixa. — Dá para ver nos seus ombros. No jeito como segura essa bolsa como se fosse a única coisa que ainda te mantém de pé.
Lara sentiu a garganta fechar. Não era uma pergunta.
Enzo inclinou-se ligeiramente para frente, os olhos perfurando os dela.
— Sua família está te matando aos poucos, Lara. E você ainda tenta salvá-los. Por quê?
Ela abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Ninguém nunca havia falado com ela de forma tão direta. Ninguém nunca havia visto tão fundo.
— Porque são minha família — respondeu por fim, a voz rouca. — Não tenho mais ninguém.
Algo mudou no olhar dele. Por uma fração de segundo, a máscara fria rachou e Lara vislumbrou algo perigoso por trás dela. Algo parecido com dor. Ou possessão.
Enzo se levantou. Caminhou até a porta, abriu-a e chamou a assistente.
— Demita a secretária atual. Contrate a senhorita Ventura. Salário inicial será o triplo do anunciado. Ela começa amanhã.
Lara ficou paralisada.
Quando Enzo voltou para dentro e fechou a porta, parou diante dela. De perto, era ainda mais intimidante. Ele estendeu uma pasta preta.
— Leia com atenção. Mas saiba de uma coisa — disse, a voz baixa e carregada de uma promessa sombria: — Você não vai mais carregar o peso dessa família sozinha.
Lara pegou a pasta com as mãos trêmulas. Seus olhos se ergueram e encontraram os dele mais uma vez. Havia algo solene e definitivo naquele olhar.
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, seu celular vibrou dentro da bolsa. Com o coração na garganta, ela leu a mensagem.
Era de Mateus.
“Mãe falou sério. Se não tiver dinheiro até hoje à noite, vamos te entregar pros Ortega.”
O sangue de Lara gelou.
Quando ergueu os olhos novamente, Enzo a observava com o cenho franzido, como se pudesse sentir que algo estava terrivelmente errado.
— O que foi? —ele perguntou, inclinando o corpo para frente.
Lara apertou o celular contra o peito como se pudesse esconder o veneno que acabara de entrar em seu sangue. O ar pareceu ficar mais denso, mais quente. Ela tentou disfarçar, tentou respirar, mas era tarde.
Enzo Ravelli não era homem que deixava passar detalhes.
Num movimento fluido, ele contornou a mesa e parou diante dela. Tão perto que Lara podia sentir o calor que emanava de seu corpo.
— Me dê o celular.
Não era um pedido, mas sim, uma ordem dita em tom baixo que não admitia desobediência. Com os dedos trêmulos, Lara entregou o aparelho. Enzo leu a mensagem. Uma, Duas vezes. Seu maxilar travou com força que fez com que seus dentes rangerem.
Um arrepio desceu pela coluna de Lara não foi de medo, ela não soube discernir o que era exatamente, mas tinha a certeza de ser algo doentio. Porque quando Enzo ergueu os olhos do celular, o homem que a encarava não era mais apenas o bilionário frio que a havia contratado. Era um predador que acabara de descobrir que alguém queria roubar sua presa.
— Ortega… — ele murmurou, como se o nome fosse uma blasfêmia. Sua voz saiu grave, quase um rosnado contido. — Eles ousaram colocar seu nome na boca deles.
Lara sentiu os joelhos fraquejarem.
Enzo deu mais um passo. Agora não havia mais espaço entre eles. Com o polegar, ele ergueu seu queixo com uma delicadeza perigosa, a obrigando a encará-lo. Seus olhos negros pareciam queimar cada camada de proteção que ela ainda tentava manter.
— Escute com atenção, Lara Ventura — disse ele, com a voz baixa. — A partir de hoje, você não tem mais família. Tem a mim. E eu não compartilho o que é meu.
O polegar dele deslizou lentamente pelo contorno de seu lábio inferior, um toque possessivo que contradizia a frieza de sua expressão.
— Sua mãe, seu irmão… eles vão aprender, da pior forma possível, o que acontece quando se ameaça o que me pertence.
Lara abriu a boca, mas não saiu som algum. Seu coração batia tão forte que ela tinha certeza de que ele conseguia sentir.
Enzo se inclinou até que seus lábios quase roçassem o lóbulo de sua orelha, a voz reduzida a um sussurro:
— Bem-vinda à Ravelli, princesa. Reze para que eu seja o monstro menos cruel entre todos que te querem.
Ele se afastou apenas o suficiente para que ela visse o sorriso que curvou lentamente seus lábios, um sorriso bonito e absolutamente aterrorizante.
O celular vibrou novamente na mão dele e dessa vez, Enzo atendeu sem pedir permissão. Colocando no viva-voz logo em seguida.
A voz de Mateus soou do outro lado, agressiva:
— Então, vadia? Já arrumou o dinheiro ou vamos te entregar pro Ortega hoje à noite?
Enzo olhou diretamente nos olhos de Lara enquanto respondia, a voz calma.
— Diga aos Ortega que o produto deles agora tem novo dono e que se tentarem tocar no que é meu… eu termino o que meu pai começou anos atrás.
O silêncio do outro lado da linha foi ensurdecedor. Ele encerrou a chamada e devolveu o celular para Lara como se nada tivesse acontecido. Seus olhos, porém, carregavam uma promessa sombria e irrevogável.
— Amanhã você se muda para o meu apartamento. Esta noite… você dorme na minha cobertura.
Ele inclinou a cabeça, observando o tremor que ela não conseguia mais esconder.
— E antes que pergunte… não. Você não tem escolha, Lara.
Pela primeira vez em anos, alguém havia prometido protegê-la. O problema era que o homem que acabara de declarar guerra por ela não parecia um salvador. Ele parecia o próprio demônio que acabara de comprar sua alma e que pretendia cobrá-la com juros muito altos.







