Mundo de ficçãoIniciar sessãoLara não conseguia parar de tremer. Mesmo depois de Enzo ter ordenado que todos os seus aparelhos fossem trocados, o número antigo desativado e uma nova linha de segurança instalada, as palavras de Mateus ainda ecoavam como veneno puro em sua mente.
Vamos vender suas fotos íntimas.
A humilhação era tão profunda que ela sentia o ar raspar na garganta. Cada respiração doía.
— Eu preciso confrontá-los — disse ela de repente, a voz rouca, quase irreconhecível.
Enzo, que andava de um lado para o outro na sala como um predador enjaulado, parou bruscamente. Seus olhos negros fixaram-se nela com uma intensidade que quase a fez recuar.
— Não.
— Eu preciso, Enzo. — Lara ergueu o queixo, mesmo que suas pernas ameaçassem ceder. — Preciso olhar na cara deles quando disser que acabou. Que eu não sou mais o bode expiatório dessa família.
Ele a observou por longos segundos. A batalha interna era visível em seu maxilar travado. Por fim, cedeu, mas com condições.
— Na recepção. Com quatro dos meus seguranças. E eu estarei presente. Você não fica sozinha com nenhum dos dois nem por um segundo. Entendido?
Lara assentiu. Não tinha mais forças para lutar contra ele também.
Meia hora depois, Mateus foi escoltado até o saguão de mármore negro do Edifício Ravelli. Assim que o viu, Lara sentiu uma onda de nojo visceral subir pela garganta. A mesma jaqueta surrada, o mesmo olhar esquivo, o mesmo sorriso cínico que ele usava desde criança para manipular todo mundo.
— Veio pedir dinheiro pessoalmente agora? — perguntou ela, a voz mais firme do que esperava.
Mateus abriu a boca para responder, mas o sorriso morreu no instante em que Enzo deu um passo à frente, posicionando-se ligeiramente à frente de Lara como um escudo vivo. A temperatura no saguão pareceu cair dez graus.
— Irmãzinha… então é verdade? Você está mesmo morando com esse cara? — Mateus olhou Enzo de cima a baixo com desprezo. — Parabéns. Finalmente abriu as pernas pra alguém que pode pagar as contas da família.
Lara sentiu o estômago revirar.
— Como você pôde? — sussurrou ela, a voz falhando. — Fotos íntimas, Mateus? Eu sou sua irmã.
Ele deu de ombros, como se estivessem discutindo o almoço.
— Família falida, família unida. Todo mundo contribui como pode. Você agora tem um bilionário na cama. Arranja o dinheiro ou a gente vende tudo. Simples assim.
— Saia do meu prédio — ordenou Enzo, a voz baixa, controlada e mortal. — Agora.
Dois seguranças apareceram imediatamente. Mateus foi agarrado pelos braços e arrastado em direção à saída, esperneando e gritando:
— Ela ainda é nossa! O sangue é nosso! Vocês vão se arrepender, porra!
As portas de vidro se fecharam com um som pesado. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
Lara ficou parada no meio do saguão, abraçando o próprio corpo. Algo dentro dela havia se quebrado de vez. A família pela qual passara a vida inteira sangrando não existia. Nunca havia existido.
Foi então que o celular novo vibrou. Número desconhecido.
Ela atendeu.
A voz fraca, ofegante, quase moribunda do outro lado era inconfundível.
— Lara… meu coração… está doendo muito. Acho que… é o fim. Vem ver sua mãe antes que eu morra… por favor.
Mesmo sabendo que era manipulação, o reflexo condicionado de anos foi mais forte que a razão. A culpa apertou sua garganta como uma corda velha. Enzo tentou impedi-la. Ela insistiu. Precisava encerrar aquilo com os próprios olhos.
Quando chegou ao antigo apartamento, acompanhada de dois seguranças discretos que Enzo havia imposto, a cena era patética. Helena deitada no sofá velho, mão dramática sobre o peito, gemendo baixinho, suor falso na testa.
— Filha… você veio — sussurrou ela, estendendo a mão trêmula. — Eu sabia que você não me abandonaria…
Lara parou no meio da sala. Algo estava errado. O cheiro de cigarro ainda impregnava o ar. Os olhos de Helena, apesar do teatro, estavam atentos demais. Calculistas.
Foi quando ela viu.
Sobre a mesa de centro, meio escondido sob uma revista velha, um envelope amarelado. Lara o pegou antes que a mãe pudesse reagir.
Dentro estavam relatórios médicos falsificados, e-mails impressos entre Helena e um contato dos Ortega, e uma carta escrita à mão pelo pai, datada de dois meses antes de morrer.
Enquanto Helena começava a gemer mais alto, fingindo uma nova crise, Lara leu as palavras que destruíram o pouco que restava de seu mundo:
“Helena me pressionou para fazer mais um empréstimo. Disse que tinha um plano infalível com os Ortega. Agora eles querem meu sangue. Se algo acontecer comigo, saiba que sua mãe ajudou a cavar minha cova. Ela sabia que eles não perdoam dívidas. Ela escolheu o dinheiro.”
Lara sentiu o chão desaparecer.
Levantou os olhos lentamente.
Helena havia parado de gemer. Sentada ereta no sofá, o rosto completamente transformado, frio e sem um pingo de arrependimento.
— Você sabia — sussurrou Lara, a voz embargada de horror. — Você sabia que eles iam matar o papai. E mesmo assim continuou pedindo mais dinheiro. Você… você ajudou a matar ele.
Helena inclinou a cabeça, um sorriso amargo e cansado curvando seus lábios.
— Seu pai era fraco. Alguém precisava tomar as decisões difíceis nesta família. Eu fiz o que era necessário.
O envelope tremeu violentamente nas mãos de Lara. A traição era tão monstruosa, tão absoluta, que o ar parecia rarefeito demais para respirar.
Sua própria mãe não era apenas manipuladora. Era cúmplice de assassinato. Helena se levantou devagar, ajustando a blusa como se estivesse saindo para um almoço qualquer.
— Agora escute aqui, sua menina ingênua. Você tem duas opções: volta para casa hoje, traz todo o dinheiro que conseguir tirar daquele homem, e talvez a gente consiga negociar com os Ortega… ou continua brincando de casinha com o bilionário. Mas saiba de uma coisa.
Ela deu um passo à frente, os olhos brilhando com malícia pura.
— Enzo Ravelli não te escolheu por acaso naquela entrevista. Ele já sabia de tudo. Da dívida. Da minha conta secreta. Da morte do seu pai. Ele te quer por um motivo muito maior do que você imagina.
Helena sorriu, um sorriso lento, venenoso e vitorioso.
— E quando ele terminar de usar você… vai te descartar como eu descartei seu pai.
Do lado de fora, o som de pneus cantando quebrou o silêncio da rua.
Lara recuou até a porta, o coração martelando contra as costelas, o envelope apertado contra o peito como uma bomba-relógio.
Pela primeira vez, ela não sabia mais de quem tinha mais medo:
Da mãe que ajudara a matar seu pai…
Ou do homem que, aparentemente, sempre soubera de tudo e mesmo assim a havia prendido em sua jaula dourada.
E agora, enquanto descia as escadas correndo com os seguranças logo atrás, Lara só conseguia pensar em uma coisa:
Em qual dos dois monstros ela acabara de entregar o resto de sua alma?







