Mundo ficciónIniciar sesiónÉ tudo muito barulhento.
Ou talvez aquele fosse apenas o som comum da cidade, o tipo de ruído que as pessoas escutam todos os dias e, com o tempo, deixam de perceber. Para elas, buzinas, motores, pessoas conversando nas calçadas, vendedores anunciando seus produtos e o constante movimento dos carros faziam parte da rotina. Mas, para mim, cada som parecia exageradamente alto, como se meus ouvidos estivessem reaprendendo a existir fora das paredes daquele bordel. Fazia tanto tempo que eu não saía para a rua que já não sabia mais como aquele mundo funcionava. Meu corpo permanecia rígido contra o banco de couro macio do carro, enquanto meus olhos percorriam tudo o que conseguiam alcançar através da janela. Crianças corriam pela calçada segurando balões coloridos. Um casal caminhava de mãos dadas, sorrindo um para o outro como se o restante do mundo tivesse desaparecido. Um senhor passeava tranquilamente com seu cachorro, enquanto uma mulher carregava sacolas de supermercado e conversava ao telefone. Eram cenas tão comuns... tão simples. Mas, para mim, pareciam pertencer a outro universo. Passei tantos anos presa naquele lugar que quase havia me esquecido de como era ver pessoas vivendo sem medo. Sem máscaras. Sem precisar fingir um sorriso para sobreviver. Ao meu lado, Dominic permanecia em absoluto silêncio. Sua postura continuava impecável, as mãos repousadas sobre as pernas e o olhar fixo na estrada à nossa frente. Nem mesmo os buracos ocasionais da pista pareciam afetar sua tranquilidade. Havia algo extremamente controlado em cada movimento seu, como se estivesse acostumado a manter a calma independentemente da situação. À frente, o motorista conduzia o veículo com a mesma serenidade. O carro deslizava pelas ruas sem qualquer pressa, enquanto eu continuava completamente fascinada pelo mundo do lado de fora. Nem percebi quanto tempo havia passado. — Chegamos, senhor. — anunciou o motorista. Pisiquei algumas vezes, como se despertasse de um transe. A viagem havia durado cerca de quarenta minutos. Quando meus olhos voltaram para a janela... Meu fôlego desapareceu. À nossa frente erguia-se uma propriedade tão imponente que, por um instante, pensei estar olhando para um palácio. Um enorme muro de pedras claras cercava toda a extensão do terreno, alto o suficiente para impedir qualquer visão do interior. No centro dele havia um portão monumental de ferro negro trabalhado com detalhes elegantes. Bem no meio das duas folhas metálicas, destacava-se um brasão dourado formado pelas letras D.A., entrelaçadas com perfeição. Aquelas iniciais não pareciam apenas um símbolo. Eram uma assinatura. Uma declaração silenciosa de poder. Um aviso para qualquer um que ousasse atravessar aqueles limites sem permissão. O motorista abaixou o vidro. Sem dizer uma palavra, colocou a mão para fora do carro sobre um pequeno sensor embutido ao lado do portão. Um sinal luminoso percorreu o equipamento. Poucos segundos depois, ouvi um mecanismo pesado entrar em funcionamento. Os enormes portões começaram a se abrir lentamente. Meu coração acelerou. Então era assim que funcionava. Apenas pessoas previamente autorizadas podiam entrar ali. Nem mesmo chaves pareciam suficientes para acessar aquele lugar. Assim que atravessamos o portão, meus olhos se arregalaram ainda mais. Uma longa avenida pavimentada com pedras claras conduzia até a residência principal, ladeada por fileiras perfeitamente alinhadas de ciprestes e jardins impecavelmente cuidados. Fontes de mármore espalhavam o som delicado da água pelo ambiente, enquanto esculturas elegantes ornamentavam os gramados. Tudo parecia ter sido planejado nos mínimos detalhes. No centro do terreno erguia-se a mansão. Ela era gigantesca. Construída em um estilo clássico, com enormes colunas de mármore sustentando a entrada principal, janelas que se estendiam do chão ao teto e varandas ornamentadas por guarda-corpos de ferro trabalhado. A fachada mesclava tons claros de pedra natural com detalhes em preto, transmitindo elegância e imponência ao mesmo tempo. Cada detalhe parecia carregar a identidade de Dominic Ackles. As iniciais D.A. apareciam gravadas discretamente em diferentes lugares: no grande brasão acima da porta principal, nas luminárias de ferro espalhadas pela fachada, nas grades das varandas e até mesmo no centro da fonte circular que ocupava o jardim frontal. Não era exagero. Era território. Uma forma silenciosa de lembrar a qualquer visitante quem era o dono daquele lugar. Enquanto o carro diminuía a velocidade, pude perceber dezenas de homens espalhados pela propriedade. Alguns caminhavam pelos jardins usando ternos escuros e discretos fones de ouvido. Outros permaneciam imóveis próximos às entradas, atentos a qualquer movimentação. Todos pareciam treinados. Todos demonstravam absoluto respeito quando o carro de Dominic passava. Ninguém ousava sequer olhar diretamente para ele. Engoli em seco. Aquilo não era apenas uma casa. Era uma fortaleza. E, pela primeira vez desde que saí daquele bordel... Comecei a entender o verdadeiro significado do sobrenome Ackles. — Siga-me. — Dominic disse em seu tom calmo e autoritário. Obedeci sem questionar. Subimos uma escadaria ampla, cujos degraus eram revestidos por um mármore claro e impecavelmente polido. Sob nossos pés, o som dos passos ecoava suavemente pelo espaço, misturando-se ao silêncio quase absoluto da casa. O corrimão de madeira escura era liso sob meus dedos, e pequenas luminárias douradas, fixadas nas paredes, espalhavam uma iluminação quente pelo caminho. Chegamos ao andar superior, onde um longo corredor se estendia diante de nós. O piso era coberto por um tapete espesso em tons neutros, que abafava nossos passos, e nas paredes havia quadros elegantes, paisagens e retratos antigos em molduras douradas. Algumas portas se espalhavam pelos dois lados do corredor, todas iguais por fora, mas nenhuma delas parecia ter sido aberta ao acaso. Dominic caminhou até a terceira porta à direita e parou diante dela. Girou a maçaneta e abriu. Então deu um passo para o lado, deixando espaço para que eu entrasse primeiro. Fiquei parada na porta por alguns segundos. Meu cérebro simplesmente não conseguia processar o que estava vendo. O quarto era enorme. Muito maior do que qualquer espaço que eu já tivesse chamado de meu. As paredes eram pintadas em um tom claro e delicado, que fazia o ambiente parecer ainda mais amplo, enquanto cortinas longas de tecido pesado cobriam as enormes janelas. A luz suave do dia atravessava pequenas frestas do tecido e se espalhava pelo quarto, deixando tudo com uma aparência acolhedora. No centro havia uma cama grande, coberta por lençóis impecavelmente brancos e uma colcha macia em tons claros. Diversas almofadas estavam organizadas sobre ela, e uma cabeceira alta de madeira escura ocupava boa parte da parede atrás da cama. Ao lado, duas mesas de cabeceira combinavam com a decoração, cada uma acompanhada por uma luminária elegante. Havia uma poltrona confortável perto da janela, acompanhada por uma pequena mesa redonda. Um tapete felpudo cobria parte do piso, fazendo com que o ambiente parecesse ainda mais aconchegante. Em uma das paredes, uma enorme estante ocupava quase todo o espaço. Alguns livros já estavam organizados nela, misturados a pequenos objetos decorativos. Em outra, havia uma penteadeira com um grande espelho cercado por pequenas lâmpadas, acompanhada de uma cadeira estofada. Meu olhar percorreu cada detalhe lentamente. Tudo parecia novo. Limpo. Intocado. E, principalmente, meu. — Este é o seu quarto. — Dominic falou atrás de mim. Virei-me para ele. Ele apontou para uma das portas. — Ali fica o banheiro. Já deixei tudo preparado. Escova de dentes, toalhas, produtos de higiene, secador, chapinha... tudo o que você precisar. Depois apontou para outra porta, mais ao fundo. — O closet fica ali. Tem roupas para dormir, ficar em casa, sair, festas... praticamente tudo o que uma mulher pode precisar. Se estiver faltando alguma coisa, basta pedir. Mordi o lábio inferior, tentando assimilar todas aquelas informações. Era tanta coisa. Tanta gentileza. E eu simplesmente não sabia como receber aquilo. — Sinta-se em casa. — completou. As palavras ficaram ecoando dentro da minha cabeça. Casa. Eu não sabia mais como aquela palavra deveria soar. — Ainda preciso me acostumar com tudo isso. — murmurei. Dominic me observou por alguns segundos. — Você vai ter tempo suficiente para se acostumar. Quando terminar de tomar banho, estarei na sala de jantar. Vamos comer e conversar sobre algumas coisas importantes que você precisa saber sobre mim. Assenti lentamente. — Tudo bem. Ele fez um pequeno movimento com a cabeça e saiu do quarto. A porta se fechou atrás dele. E, pela primeira vez desde que saí do bordel, fiquei completamente sozinha. Olhei ao redor mais uma vez. Não havia vozes atravessando as paredes. Nenhum homem esperando do outro lado da porta. Nenhuma ordem de Madame Delaflor. Nenhuma música alta vindo do salão. Nenhum perfume forte impregnando o ar. Apenas silêncio. Um silêncio tranquilo. Passei os dedos lentamente sobre a colcha da cama, sentindo a maciez do tecido sob minha pele. Eu não estava mais no bordel. Estava em uma casa de verdade. Em um quarto que alguém havia preparado especialmente para mim. E, pela primeira vez, havia um homem ao meu redor que não tinha pagado para exigir alguma coisa de mim. Dominic Ackles havia me levado para sua casa para cuidar de mim. A ideia ainda parecia absurda. Quase impossível. Respirei fundo e caminhei até o banheiro. Assim que abri a porta, meus olhos se arregalaram novamente. O espaço era tão grande quanto o quarto. Mármore claro revestia boa parte das paredes e do piso, enquanto metais dourados davam um toque sofisticado ao ambiente. Havia uma enorme bancada com duas cubas, um espelho largo ocupando quase toda a parede e diversos produtos organizados cuidadosamente sobre ela. Mas foi a banheira que roubou minha atenção. Era grande, branca e profunda, posicionada próxima à janela. Um sorriso involuntário surgiu em meus lábios. Eu nem me lembrava da última vez em que tive a oportunidade de tomar um banho sem precisar olhar para o relógio ou ouvir alguém batendo na porta. Aproximei-me e abri a torneira. O som da água começando a cair preencheu o banheiro. Fiquei observando enquanto a banheira lentamente começava a se encher. O vapor quente logo começou a se espalhar pelo ambiente, criando uma sensação confortável que fez meus ombros relaxarem pela primeira vez naquele dia. Enquanto esperava, tirei lentamente a roupa que usava. Não havia ninguém me observando. Ninguém esperando alguma coisa de mim. Pela primeira vez, meu corpo não precisava pertencer ao olhar de outra pessoa. Entrei na água quente e fechei os olhos. Um suspiro profundo escapou dos meus lábios. O calor envolveu meu corpo, levando embora parte da tensão acumulada durante os últimos anos. Afundei um pouco mais na banheira e deixei a cabeça repousar contra a borda. Talvez aquilo fosse liberdade. Talvez liberdade não fosse apenas atravessar uma porta. Talvez fosse poder finalmente fechar uma porta atrás de si... e saber que ninguém tinha o direito de entrar.






