Mundo de ficçãoIniciar sessãoSentada em uma poltrona de veludo, observava o movimento do salão. O ambiente era iluminado por lustres dourados que espalhavam uma luz quente pelo lugar, enquanto o cheiro intenso de perfumes caros se misturava ao álcool e à fumaça dos charutos. Risadas, conversas e o tilintar dos copos preenchiam o ar.
Não demorou para um homem se aproximar. Ele caminhou até mim com a confiança de quem acreditava que podia ter tudo o que desejasse e se acomodou ao meu lado. — O que uma moça tão bonita faz aqui sozinha? — perguntou com um sorriso que me causou a mesma repulsa de todos os outros homens que cruzavam aquele salão. Disfarçando meu incômodo, procurei Madame Delaflor com os olhos. Ela já me observava. Sua expressão séria era um lembrete silencioso de que eu deveria representar meu papel. Quanto mais convincente eu fosse, mais dinheiro entraria em seus cofres. Respirei fundo e forcei um sorriso. — Estou esperando um cavalheiro que tenha coragem de vir conversar comigo. — menti com suavidade. — Pelo visto, o senhor foi o primeiro. Ele sorriu, claramente satisfeito com a resposta. A forma como seus olhos me analisavam fez um arrepio de desconforto percorrer minha pele, mas permaneci imóvel. Eu havia aprendido, havia muito tempo, a esconder o medo atrás de uma expressão tranquila. — Então vamos resolver isso. Que tal conversarmos em um lugar mais reservado? — sugeriu, inclinando-se um pouco para mais perto. Era exatamente a oportunidade que Madame Delaflor esperava. Ela surgiu ao nosso lado com um sorriso elegante e uma postura impecável. — Receio que não seja tão simples, senhor. Molly é o maior tesouro desta casa. Para ter o privilégio de passar um tempo com ela, primeiro é preciso aceitar uma condição especial. O homem arqueou uma sobrancelha, interessado. Madame sorriu de maneira calculada. — Passe a noite com uma das garotas mais requisitadas da casa e, como cortesia, terá o direito de conhecer minha joia rara. Ela falava como se estivesse negociando uma peça valiosa, não uma pessoa. O homem abriu um largo sorriso. — Parece um excelente negócio. Voltarei em breve, minha dama. Ele acompanhou Madame Delaflor pelo salão sem sequer olhar para trás. Assim que desapareceram entre os outros clientes, deixei o sorriso morrer. Um suspiro cansado escapou dos meus lábios. Mais uma noite. Mais um teatro. E eu continuava sendo apenas o prêmio de um jogo que nunca escolhi jogar. Meus olhos encontram um par de olhos verdes-escuros. Intensos. Tão intensos que, por um breve instante, sinto o ar preso em meus pulmões. Havia algo neles que intimidava. Não era frieza, nem crueldade... era poder. Um poder silencioso que dispensava qualquer demonstração. Nunca tinha visto aquele homem antes. Um novo cliente da Madame Delaflor? Enquanto os outros homens me encaravam com desejo, ele fazia o oposto. Seu olhar era atento, quase analítico, como se tentasse entender o que eu fazia ali. Como se estivesse procurando respostas em mim. Aquilo me deixou desconfortável de um jeito diferente. Engoli em seco e desviei o olhar. Sem pensar duas vezes, caminhei em direção ao corredor que levava aos quartos, decidida a encerrar minha noite ali mesmo. Eu só queria voltar para o meu pequeno refúgio e esquecer que aquele salão existia. Antes que pudesse dar mais alguns passos, vi Madame Delaflor me observando. Ela gesticulou discretamente com a boca, ordenando que eu abordasse mais um cliente antes de subir. Soltei um suspiro silencioso. Quando me virei... Esbarrei justamente no dono daqueles olhos verdes. — Me desculpe, senhor. Eu não o vi. — murmurei, dando um pequeno passo para trás. Ele permaneceu imóvel. — Você é Molly Glas? — perguntou com uma voz firme e surpreendentemente calma. Ergui os olhos novamente, tomada pela curiosidade. — Sou... Como sabe meu nome? Antes que ele respondesse, Madame Delaflor apareceu entre nós com um sorriso ensaiado. — Senhor, receio que não seja tão simples. Molly é a joia rara da minha casa. Para ter o privilégio de conhecê-la melhor, é preciso aceitar as minhas condições. Os olhos verdes se voltaram lentamente para ela. Ele parecia completamente indiferente ao discurso decorado da madame. — Eu pago o dobro do valor da sua garota mais cara por ela. — disse com tranquilidade. Meu coração acelerou. Madame Delaflor abriu um sorriso desconfortável. — Não... não é assim que funciona, senhor. Pela primeira vez desde que a conhecia, percebi uma pequena hesitação em sua voz. O homem inclinou levemente a cabeça. — Sabe quem eu sou? A expressão da Madame mudou por completo. A segurança desapareceu de seu rosto, dando lugar a um visível nervosismo. Ele deu mais um passo à frente. — Dominic Ackles. O silêncio que tomou conta do salão pareceu durar uma eternidade. Toda a cor desapareceu do rosto de Madame Delaflor. Seus lábios entreabriram, e seus olhos refletiam um medo que eu jamais imaginei ver nela. Ela abaixou discretamente a cabeça. — O... o senhor pode usar a área VIP. Como? Se aquela era a mesma mulher que fazia homens ricos se curvarem às suas exigências... por que agora parecia apavorada diante daquele desconhecido?






