Mundo de ficçãoIniciar sessão— Não, senhor... eu não sei quem o senhor é. — respondi, sem desviar os olhos dos dele.
Ele fez um breve movimento afirmativo com a cabeça. — Meu nome é Dominic Ackles. A forma calma como pronunciou o próprio nome contrastava com o peso que aquele sobrenome parecia carregar. — Sou o Don da máfia Ackles. Meu coração falhou uma batida. Então era por isso. Era por isso que Madame Delaflor havia empalidecido no mesmo instante em que o reconheceu. Dominic permaneceu sereno. — Entre os negócios que administro, existe um que considero uma obrigação. Eu localizo, protejo e resgato mulheres vítimas de tráfico e exploração. Franzi a testa, confusa. Ele sustentou meu olhar antes de continuar. — Molly... você nunca se perguntou por que Madame Delaflor jamais permitiu que alguém a tocasse? Ou por que sempre a tratou de maneira diferente das outras garotas? As lembranças passaram pela minha mente como um vendaval. Os privilégios. O quarto separado. A proteção exagerada. O cuidado que ela sempre teve para que ninguém ultrapassasse determinados limites. Durante anos, tentei encontrar uma explicação. Sempre imaginei que ela sentisse pena de mim por ter sido abandonada. — Eu... sempre me fiz essa pergunta. — murmurei. Dominic respirou fundo. — Porque você estava sob minha tutela. Demorei alguns segundos para compreender o significado daquelas palavras. Ele continuou: — Você é minha protegida, Molly. Meu coração acelerou novamente. — Ao longo dos anos, tive muitas pessoas sob minha proteção. Infelizmente, já vi histórias cruéis demais para acreditar que ainda existam pessoas capazes de tamanha maldade. Seus olhos permaneceram fixos nos meus. — Mas a sua história... foi uma das que mais me marcou. Sua voz continuava firme, porém havia algo diferente nela. Como se aquela lembrança ainda o incomodasse. — Passei muito tempo fora do país resolvendo outros assuntos. Agora estou de volta. Ele se levantou lentamente. — E vim buscar aquilo que é minha responsabilidade proteger. Deu mais um passo em minha direção. — Você vem para casa comigo, Molly. Arregalei os olhos. Por um instante, fui incapaz de dizer qualquer palavra. Casa. Eu nem me lembrava da última vez que aquela palavra teve algum significado para mim. ... Não disse uma única palavra quando vi Dominic estender um vestido de tecido leve e discreto para que eu vestisse. Meus dedos passaram pelo tecido por alguns segundos, quase sem acreditar que, pela primeira vez em muitos anos, alguém havia escolhido uma roupa pensando em me proteger, e não em me transformar em um espetáculo para os outros. Também permaneci em silêncio quando homens e mulheres vestindo ternos impecáveis entraram no quarto. Seus movimentos eram coordenados, rápidos e extremamente respeitosos. Nenhum deles dirigiu um olhar curioso para mim ou fez qualquer comentário. Apenas recolheram minhas poucas roupas, alguns livros antigos, uma escova de cabelo e os poucos objetos que, de alguma forma, ainda me lembravam que eu era uma pessoa e não apenas um nome dentro daquela casa. Continuei muda enquanto caminhava ao lado de Dominic pelos corredores do bordel. Pela primeira vez, aqueles corredores pareciam diferentes. As paredes cobertas por papel de parede vermelho, os lustres dourados, o perfume adocicado que sempre impregnava o ar e as risadas falsas que ecoavam pelos salões já não tinham o mesmo significado. Durante anos, aquele lugar havia sido a única realidade que eu conhecia. Agora, cada passo que eu dava parecia arrancar um pedaço daquela vida, como se eu estivesse deixando para trás uma versão de mim que nunca teve a oportunidade de escolher o próprio destino. Dominic se afastou por alguns instantes para conversar com Madame Delaflor. Aproveitei o momento para observar aquele lugar com atenção. Meus olhos percorreram lentamente cada detalhe: a escadaria de madeira escura, os quadros extravagantes pendurados nas paredes, os sofás luxuosos onde tantos homens se sentaram ao longo dos anos e o enorme lustre de cristal que iluminava o salão principal. Era estranho pensar que, durante tanto tempo, eu havia chamado aquilo de casa. Casa... A palavra parecia não fazer mais sentido. Minha vida havia mudado completamente em questão de minutos. Talvez por isso eu ainda estivesse tão calada. A ficha simplesmente não havia caído. Meu olhar encontrou Madame Delaflor novamente. Ela vinha em minha direção. Seu rosto mantinha um sorriso elegante, mas seus olhos... seus olhos carregavam algo completamente diferente. Havia raiva ali. Uma raiva silenciosa, contida apenas porque Dominic ainda estava por perto. Antes de chegar até mim, ela lançou um rápido olhar na direção dele, certificando-se de que sua atenção permanecia voltada para a conversa. Então abriu os braços. Ela me abraçou. Por fora, parecia um gesto afetuoso. Por dentro, era frio como gelo. Senti seus lábios se aproximarem do meu ouvido. — Não pense que vai escapar de mim tão facilmente. Você sempre foi a minha maior fonte de lucro... e eu vou trazer você de volta. Sua voz era baixa, quase um sussurro, mas cada palavra atravessou meu peito como uma ameaça gravada em pedra. Meu estômago se contraiu. Ela depositou um beijo delicado em minha bochecha, como se estivesse se despedindo com carinho. Quem visse a cena de longe acreditaria que existia afeto entre nós. Só eu conhecia o veneno escondido naquele gesto. Ela se afastou lentamente, mantendo o sorriso no rosto. Foi nesse instante que senti outra presença ao meu lado. Dominic. Sem dizer nada, ele apoiou a mão sobre meu ombro. O toque foi firme, porém cuidadoso. Um arrepio percorreu meu corpo inteiro de forma involuntária. Não era medo. Também não era exatamente conforto. Era apenas a estranha sensação de perceber que alguém estava ali para me proteger... algo que eu nunca havia experimentado antes. Levantei os olhos para observá-lo. Dominic continuava tão imponente quanto antes. Sua postura permanecia perfeitamente ereta, os ombros alinhados e a expressão completamente controlada. Seu rosto era quase impossível de decifrar. Não havia irritação, alegria, impaciência ou qualquer emoção evidente. Era como se tivesse passado a vida inteira aprendendo a esconder tudo o que sentia atrás de um semblante sereno. Naquele momento, compreendi por que todos pareciam temê-lo. Ele não tinha a postura de um homem que implorava respeito. Era o tipo de homem diante do qual o respeito surgia naturalmente. Não parecia alguém que se curvasse para ninguém. Ao contrário. Era fácil imaginar que, por onde passasse, fossem os outros que baixassem a cabeça diante dele. Depois de alguns segundos de silêncio, sua voz grave interrompeu meus pensamentos. — Está na hora de irmos. Por um instante, meus olhos voltaram para a enorme porta de saída. Eu a tinha visto durante anos. Mas nunca imaginei que um dia teria a chance de atravessá-la.






