Mundo de ficçãoIniciar sessãoCaminho até o quarto, escutando os passos firmes e calculados dele atrás de mim. Meu coração b**e tão depressa que tenho medo de que ele consiga ouvi-lo. Respiro fundo algumas vezes, tentando esconder o quanto estou nervosa, mas o ar parece não chegar aos meus pulmões.
Madame Delaflor jamais havia permitido que homem algum ficasse a sós comigo. Até ele aparecer. Assim que chegamos à porta, giro a maçaneta e entro. Alguns segundos depois, escuto a porta sendo fechada atrás de nós. O clique da fechadura ecoa pelo quarto. O silêncio que se instala é quase ensurdecedor. Nenhum de nós diz uma palavra. Apenas o som das nossas respirações ocupa o ambiente, tornando cada segundo ainda mais pesado. Permaneço imóvel no centro do quarto, encarando a parede à minha frente enquanto tento desesperadamente pensar em alguma maneira de impedir que ele faça o que veio fazer. Talvez eu grite. Talvez eu o empurre. Talvez eu aceite qualquer punição que Madame Delaflor decida me dar, contanto que ele não encoste em mim. Mas nenhuma dessas ideias parece realmente possível. No fundo, tudo o que consigo sentir é o peso da impotência. — Você está tensa. — A voz dele finalmente rompe o silêncio. O timbre grave faz um arrepio percorrer minha nuca, e meu coração dispara ainda mais. — O senhor... intimida. — confesso em um fio de voz, quase um sussurro. Por alguns instantes, ele apenas me observa. — Não pretendo fazer mal a você, senhorita, se é isso que está imaginando. Suas palavras me pegam completamente de surpresa. Viro-me lentamente para encará-lo. Seus olhos verdes continuam tão intensos quanto antes. Era como se enxergassem muito além da aparência, atravessando todas as barreiras que passei anos construindo. Ainda assim, havia algo diferente naquele olhar. Ele não carregava a mesma cobiça que eu via diariamente nos homens daquela casa. Sua postura permanecia impecável. Ombros retos, expressão serena e uma tranquilidade que contrastava com toda a tensão que dominava o quarto. Era a postura de alguém acostumado a ser obedecido. Quem era aquele homem? Seria dono de alguma grande empresa? Um político? Ou alguém ainda mais poderoso? Os homens que frequentavam aquela casa costumavam exibir riqueza, mas também arrogância. Dominic parecia não precisar provar nada para ninguém. — Desculpe perguntar... mas o senhor pagou o dobro do valor por mim... para não fazer nada? — pergunto, incapaz de esconder minha confusão. Ele dá dois passos em minha direção. Instintivamente, ergo o rosto para continuar sustentando seu olhar. Só então percebo o quanto ele era alto. A pouca distância entre nós fazia sua presença parecer ainda maior. — E você gostaria que eu fizesse alguma coisa? — pergunta calmamente. Não havia malícia em sua voz. Apenas curiosidade. — Não! — respondo imediatamente, talvez mais rápido do que pretendia. Por um breve instante, ele apenas me encara. Então faz um discreto movimento com a cabeça, como se já esperasse exatamente aquela resposta. Seus olhos parecem suavizar por um segundo. Não chega a sorrir. Mas, pela primeira vez desde que entrou naquele quarto, tive a impressão de que estava... satisfeito. — Você é feliz aqui? — ele perguntou, caminhando até a cama e sentando-se na beirada, como se tivesse todo o tempo do mundo. Franzi levemente a testa. Aquela pergunta parecia sincera. Era estranha. Nenhum homem que entrava naquele quarto queria saber se eu era feliz. Na verdade, eles nunca queriam saber nada sobre mim. Pensei nas outras garotas da casa. Algumas pareciam realmente satisfeitas com a vida que levavam. Sorriam com facilidade, gostavam da atenção que recebiam e se convenciam de que aquele era o único mundo possível. Outras apenas sobreviviam. E havia aquelas que carregavam nos olhos o mesmo vazio que eu via no espelho todas as manhãs. Mulheres que nunca tiveram escolha, apenas aprenderam a suportar a própria realidade. — Algumas são felizes... outras nem tanto. E algumas, definitivamente, não. — respondi. Ele manteve os olhos fixos em mim. — E você, Molly? Você é feliz aqui? Ouvir meu nome sair de seus lábios fez um pensamento atravessar minha mente. Ergui o olhar, desconfiada. — Lá fora... o senhor chamou meu nome. Como sabe quem eu sou? Ele soltou um longo suspiro, como se já esperasse aquela pergunta. — Conheço muitas pessoas, Molly. E, curiosamente, a maioria delas nem imagina quem eu sou. Suas palavras despertaram ainda mais minha curiosidade. Ele continuou: — Eu sei que você não está aqui porque quis. Sei que nunca teve escolha. Sei que sua mãe a deixou nesta casa quando você ainda era uma criança. Meu corpo enrijeceu. O quarto pareceu ficar ainda mais silencioso. Como aquele homem podia saber de tudo isso? Ele sustentou meu olhar por mais alguns segundos. — Agora me diga uma coisa... Fez uma breve pausa. — Você sabe quem eu sou?






